Rússia recebe de braços abertos a Huawei para sua rede 5G
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Rússia recebe de braços abertos a Huawei para sua rede 5G

Empresa chinesa emprega 400 pessoas em Moscou e 150 em São Petersburgo no campo de pesquisa e desenvolvimento

Por
AFP

Segundo vários especialistas, o impulso dado por Moscou à Huawei se deve mais a razões econômicas do que a um avanço real do grupo chinês

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Enquanto Washington vetou a Huawei, acusando a companhia de espionagem e pedindo aos seus aliados que fizessem o mesmo, Moscou estendeu tapete vermelho para a gigante chinesa de telecomunicações desenvolver a rede 5G em seu país. Este mês, a Huawei abriu em Moscou sua primeira zona de testes 5G com a operadora russa MTS.

O 5G é um sonho para os russos, muito dependentes dos celulares, mas também será útil em setores de carros conectados e para reduzir os engarrafamentos. Após a rejeição de Washington, a Huawei assinou em junho um acordo para o desenvolvimento do 5G com o grupo de telecomunicações russo, por ocasião da visita do presidente chinês Xi Jinping ao fórum econômico de São Petersburgo. E isso é apenas o começo: a Rússia, país líder em termos de novas tecnologias em comparação com outros países ocidentais, aspira a implantar redes 5G em todas as suas grandes cidades até 2024.

Zhao Lei, chefe da filial russa da Huawei, é grato ao tratamento das autoridades. "Trabalhamos na Rússia há 22 anos e, especialmente graças à confiança de nossos queridos parceiros, vivemos bem aqui", disse ele durante o lançamento do 5G, acrescentando que sua empresa quer "ser líder no desenvolvimento do 6G".

Número dois mundial de telefonia móvel, a Huawei é considerada uma empresa líder da futura geração ultra-rápida de internet móvel. Uma fonte russa do setor de pesquisa 5G disse à AFP que a Huawei é o maior investidor em inovação de tecnologia móvel na Rússia, com "o maior laboratório de pesquisa entre todas as fabricantes" em Moscou.

De acordo com o jornal econômico russo Vedomosti, a Huawei emprega 400 pessoas em Moscou e 150 em São Petersburgo no campo de pesquisa e desenvolvimento, e pretende contratar mais 500 até o final de 2019 e 1.000 adicionais nos próximos cinco anos. Mas, segundo vários especialistas, o impulso dado por Moscou à Huawei se deve mais a razões econômicas do que a um avanço real do grupo chinês.

"As operadoras russas estão colaborando com vários fabricantes de 5G, incluindo a Huawei, então não vemos nenhum 'líder' claro para a implantação de 5G na Rússia", disse à AFP Michela Landoni, analista da Fitch Solutions. As operadoras "preferem essa abordagem para evitar depender totalmente de um provedor específico" e "garantir assim melhor proteção contra ameaças cibernéticas", acrescentou.

"Frente econômica" contra Washington

A operadora Tele2 foi a primeira a lançar o 5G na Rússia com a sueca Ericsson em agosto. Em um contexto de guerra comercial, os Estados Unidos ameaçaram cortar o acesso da Huawei aos componentes e serviços americanos de que precisa, como o sistema operacional Android.

A Rússia não tardou a oferecer seu sistema operacional Aurora ao grupo chinês. E embora o Android "ainda seja a opção favorita da Huawei", Aurora "pode ser uma solução de curto prazo, e especialmente um trampolim para o desenvolvimento de seu próprio sistema operacional", o HaromonyOS, considerou Michela Landoni.

Segundo Sylvain Chevallier, sócio do escritórioBearingPoint, o desafio geopolítico é "criar uma frente econômica contra os Estados Unidos". "O fato de falarem sobre o sistema operacional é realmente uma ameaça política. (...) Isso significa: 'seremos autônomos em relação ao monopólio americano dos sistemas operacionais de telefonia móvel no mundo". Quanto aos riscos de espionagem mencionados por Washington, a Rússia não se mostrou preocupada.

"Muitas pessoas usam telefones Android, um sistema criado pelo Google. Isso significa que o Google tem acesso a todos esses dados? Sim, é claro", disse Evgueni Jorov, chefe do "Wireless Network Lab" da Academia Russa de Ciências. "Então, qual é a diferença entre a Huawei e o Google nesse caso?"