Transmitir a violência, o lado sombrio dos vídeos ao vivo

Transmitir a violência, o lado sombrio dos vídeos ao vivo

Leis sobre liberdade de expressão nos Estados Unidos não impedem a publicação desse tipo de conteúdo

AFP

Mural com fotos de vítimas de tiroteio nos Estados Unidos que foi transmitido ao vivo

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A transmissão ao vivo de um massacre no estado de Nova York foi suprimida em questão de minutos, tempo suficiente para que as imagens circulassem livremente pela Internet. As leis sobre liberdade de expressão nos Estados Unidos não impedem a publicação desse tipo de conteúdo, alertaram especialistas à AFP. A decisão de mantê-las online ou não depende muito de cada empresa de tecnologia.

Mas mesmo os sites que desejam remover tais conteúdos têm dificuldade em fazê-lo, pois, uma vez na internet, os vídeos podem ser editados e compartilhados novamente. No caso do tiroteio em Buffalo, em que um supremacista branco matou dez afro-americanos em um supermercado no sábado, chocou o fato que textos atribuídos ao suspeito destacarem que ele se inspirou em outro massacre transmitido ao vivo. 

"Se (as empresas) se comprometem a transmitir ao vivo, se comprometem a transmitir um certo número de estupros, assassinatos, suicídios e outros tipos de crimes", diz Mary Anne Franks, professora da faculdade de direito da Universidade de Miami.

A transmissão ao vivo do massacre na plataforma Twitch da Amazon foi retirada em dois minutos, de acordo com a empresa, muito mais rápido do que o ataque a uma mesquita da Nova Zelândia transmitido pelo Facebook em 2019, que ficou no ar por 17 minutos. 

As empresas de tecnologia dizem lutar para manter essas imagens fora de suas plataformas, com esforços automatizados e manuais de trabalhadores que buscam interromper a transmissão de vídeos de ataques como o de Buffalo. Mas as imagens podem ser editadas, títulos e nomes alterados e o conteúdo republicado em sites que concordam em gerar tráfego com um produto que outros rejeitaram. 

Por exemplo, na quarta-feira, um tuíte foi publicado citando o suspeito de Buffalo pelo nome, Payton Gendron, de 18 anos, adicionando um link para um vídeo do ataque que não mostrava os assassinatos. Mas outros vídeos eram oferecidos no site, incluindo um que mostrava mais de 90 segundos do ataque e afirmava ter quase 1,8 mil visualizações desde domingo. "Não há nada de ilegal em postar nos Estados Unidos vídeos ao vivo" de tiroteios como o de Buffalo, aponta Ari Cohn, consultor de liberdade de expressão do think tank TechFreedom.

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De vida ou morte

Uma vez que um tiroteio em massa é transmitido em uma plataforma online, pode ser perpetuado de diferentes maneiras, por exemplo, sendo gravado pelos usuários. Essas novas versões editadas para evitar sua remoção se tornam parte de um jogo de gato e rato com as empresas que os caçam, explicou um porta-voz da Meta, empresa controladora do Facebook.

O mesmo problema é observado em outras plataformas como o Twitter, que tem uma política de deletar as contas dos autores de ataques em massa "e também pode deletar tuítes que difundam manifestos ou outros conteúdos produzidos pelos autores". Mas as empresas devem traçar uma linha tênue, pois um filtro muito amplo pode acabar afetando inadvertidamente outros conteúdos, alertou o vice-presidente de integridade da Meta, Guy Rosen, a repórteres em uma reunião na terça-feira. 

A transmissão ao vivo é uma área em que as plataformas enfrentam acusações de fomentar a violência e o ódio, e o professor de direito Franks diz que não é sensato oferecer essa capacidade ao público em geral. "O maior problema é que, quando as empresas de tecnologia tomam essas decisões para o público", elas o fazem como "uma ferramenta útil de maneiras que superam suas desvantagens", acrescenta.

A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, anunciou na quarta-feira a abertura de uma investigação sobre várias empresas de tecnologia pelo ataque de Buffalo, incluindo Twitch. A ausência de políticas nacionais atualizadas nos Estados Unidos também contribuiu para os problemas associados ao streaming.

Os estados criaram suas próprias políticas, que podem refletir fortes diferenças partidárias sobre o que pode ser permitido online. O Texas, por exemplo, aprovou uma controversa lei que impede grandes empresas de "discriminar" a liberdade de expressão. "A recente tragédia (em Buffalo) mostra que esta não é apenas uma questão partidária", estima Matt Schruers, presidente da Computer & Communications Industry Association, em uma mesa redonda sobre a lei nesta semana. "Há consequências de vida e morte de amarrar as mãos da indústria para responder a maus atores na Internet", acrescentou.


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