Após ensaiar forte queda, dólar termina em leve alta, cotado em R$ 5,33

Após ensaiar forte queda, dólar termina em leve alta, cotado em R$ 5,33

Com giro fraco por feriado nos Estados Unidos, Bolsa fechou em leve alta de 0,09%, aos 110.227,09 pontos

AE

O real operou descolado de moedas de parte das emergentes

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O feriado nos Estados Unidos nesta quinta-feira esvaziou os negócios no mercado de câmbio. Com volume de operações de menos da metade de um dia normal, o dólar chegou a ensaiar queda mais forte no começo da tarde, recuando abaixo de R$ 5,30 com entrada de fluxo, que já se aproxima de R$ 30 bilhões este mês somente na Bolsa, um recorde histórico. Com isso, o real operou descolado de moedas de parte das emergentes, em dia que a divisa dos Estados Unidos se fortaleceu no mercado internacional. Mas o movimento de queda aqui perdeu força perto do fechamento e a moeda americana passou a subir, com o real se realinhando a seus pares, em meio a realização de ganhos após as baixas recentes do dólar, que já superam 7% em novembro.

No encerramento dos negócios, o dólar à vista terminou com alta de 0,28%, cotado em R$ 5,3352. No mercado futuro, o dólar para dezembro fechou em alta de 0,23%, a R$ 5,3370.

O sócio e economista-chefe da JF Trust Gestão de Recursos, Eduardo Velho, destaca que o feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos prejudicou a liquidez no mercado internacional, reduzindo o próprio fluxo para o Brasil. Além de fechar o mercado hoje, amanhã Wall Street opera apenas meio período, com a maioria dos investidores fora das mesas. A "paralisia fiscal e ruídos na equipe econômica" tendem a deixar os investidores mais cautelosos, ressalta Velho. Ontem à noite, o ministro Paulo Guedes chegou a questionar o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em público sobre se ele tinha um plano melhor para a economia e o fiscal. No final da tarde de hoje, o secretário do Tesouro, minimizou o assunto, ressaltando que "não há divergência" com o BC e "todo mundo faz parte do mesmo governo".

Por enquanto o economista da JF descarta a volta do dólar para patamares perto de R$ 6,00, por conta da munição do BC, mas isso pode ocorrer se o governo perder votações fiscais ou a agenda não andar. A semana chega ao fim, ressalta Velho, sem novidades em discussões de interesse do mercado, como a PEC Emergencial, o Orçamento de 2021 e o Pacto Federativo. Com o fim das eleições municipais no domingo, esses temas devem voltar a ganhar ainda mais foco nos mercados.

Por conta da deterioração fiscal, Luis Stuhlberger, sócio e gestor da Verde Asset Management, estima que o dólar está 20% acima do preço justo no Brasil. Mas ele observa que está difícil entender o mercado de câmbio brasileiro neste ano, por conta de fatores como a redução da proteção em excesso dos bancos no exterior (overhedge) e prefere ficar fora de apostas mais direcionadas, disse em evento virtual. Se o governo não cumprir o teto de gastos, a moeda americana pode subir mais "10% ou 15%", ressalta o gestor.

Ibovespa

Com giro financeiro muito enfraquecido pelo feriado de Ação de Graças nos EUA, o Ibovespa seguia a caminho de interromper sequência de três ganhos, mas emendou o quarto, ao fechar pouco acima da estabilidade, em leve alta de 0,09%, aos 110.227,09 pontos, com avanço na semana a 3,95% e no mês a 17,32%, de longe o melhor desde abril (10,25%), quando se iniciou a recuperação na B3. Na sessão, o índice se manteve em margem bem estreita, entre mínima de 109.418,33 e máxima de 110.244,50 pontos, renovada nos minutos finais, com abertura a 110.132,53 pontos nesta quinta-feira.

O giro financeiro foi o mais fraco de um mês em que, em seis ocasiões, o fluxo líquido estrangeiro ficou acima de R$ 2 bilhões, como na última terça-feira, quando o aporte foi de R$ 2,76 bilhões no mercado acionário à vista - em sessão na qual o volume na B3 foi de R$ 36,9 bilhões, em dia de alta de 2,24% para o Ibovespa, aos 109.786,30 pontos. No mês, o fluxo estrangeiro chega a R$ 29,471 bilhões, o maior da série mensal iniciada em 1995. Nesta quinta de feriado nos EUA, o giro na B3 ficou limitado a R$ 19,7 bilhões.

"A cesta de emergentes, em que o Brasil está incluído, tem sido favorecida pelo dólar mais fraco e pela reativação do interesse do investidor externo, em contexto de elevada liquidez global e de evolução das vacinas, que tem se refletido não apenas nos mercados de ações mas também no de crédito, soberano e corporativo, dos emergentes", aponta Erminio Lucci, CEO da BGC Liquidez, chamando atenção para a rotação de carteira em direção a setores que tendem a se beneficiar da retomada econômica, como os de materiais, energia e companhias aéreas. Se tudo correr bem, o que depende da forma como a situação fiscal será endereçada, Lucci vê chance de o Ibovespa chegar a 130 mil no fim de 2021.

Nesta quinta-feira, com o minério de ferro em alta de 0,77%, negociado a US$ 128,39 por tonelada em Qingdao (China), Vale ON subiu 1,42%, acumulando ganho de 26,46% no mês e de 49,23% no ano. Usiminas (+4,04%) e CSN (+4,53%) mais uma vez estiveram entre os destaques do dia, com avanço também para Gerdau PN (+1,91%) e Gerdau Met (+1,85%). Na ponta do Ibovespa, Suzano fechou em alta de 5,68%, e PetroRio, de 5,17%, logo à frente de CSN. Na face oposta, Intermédica cedeu 2,58, Itaú, 2,11%, e Pão de Açúcar, 2,06%. Em dia de anúncio do plano estratégico até 2025 e de ajuste negativo nas cotações da commodity, Petrobras ON e PN fecharam respectivamente em baixa de 1,54% e 1,64%, ainda acumulando ganhos de 38,16% e de 36,33% no mês.

Sem a referência de fora, o investidor daqui optou por tirar o pé, ainda no aguardo de desdobramentos em Brasília sobre a situação fiscal - um imobilismo que ontem à noite resultou em farpas indiretas entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do BC, Roberto Campos Neto, sobre qual seria o melhor caminho a seguir, em situação na qual "credibilidade é mais importante do que gasto de curto prazo", na visão da autoridade monetária. Guedes respondeu que, se o tem, Campos deve apresentar o próprio plano para recuperação da credibilidade fiscal.

"Com a agenda de reformas adiada para fevereiro do ano que vem, depois das eleições (para a presidência) do Legislativo, o mercado tende a colocar em xeque o 'guidance' do BC, de manutenção da Selic ao longo de 2021. Enquanto não houver medida efetiva do governo em prol da agenda de reformas, a curva de juros deve seguir com prêmio e isso implica menor potencial de valorização para a renda variável", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

Ribeiro chama atenção, contudo, para o desempenho melhor do que o esperado para as contas do governo central em outubro, divulgadas hoje. "Foi registrado déficit primário de R$ 3,6 bilhões em outubro, muito melhor do que a expectativa do mercado. Desde abril só eram registrados números catastróficos, por conta da pandemia. O resultado de hoje gerou alívio nas projeções quanto ao rumo do fiscal, assim como mostra melhora inesperada do lado da arrecadação."

Juros

Os juros completaram a terceira sessão de baixa, hoje concentrada mais na parte intermediária da curva, que voltou a perder inclinação. Houve contribuição importante do leilão do Tesouro que, mesmo mais que dobrando a oferta de prefixados, concentrou os lotes em papéis curtos, trazendo alívio para as taxas. Os volumes foram integralmente vendidos, o que surpreendeu para um dia de feriado em Wall Street. Além disso, profissionais viram influência do dólar bem comportado e de fator técnico. Citaram, também, expectativa de avanço da pauta no Congresso após o segundo turno das eleições municipais e certo alento com a sinalização do Tesouro de que está provisionado para os vencimentos de dívida até abril de 2021.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou a sessão regular com taxa de 3,31% e a estendida em 3,32%, de 3,355% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 encerrou a regular e a estendida em 5,01%, de 5,146% ontem no ajuste. O DI para janeiro de 2027 caiu de 7,684% para 7,60% (regular e estendida).

Com os Estados Unidos em Ação de Graças, os mercados americanos não abriram, o que representou um risco a menos para os ativos domésticos, com os investidores concentrados, então, em fatores locais. A ausência de Wall Street não comprometeu o leilão. "Com a curva de juros se comportando de maneira parcimoniosa, o Tesouro aproveita para fazer a maior semana do ano, em contraponto com o que normalmente ocorre na reta final, onde as emissões diminuem gradualmente no segundo semestre", avalia a equipe da Renascença DTVM, lembrando que na terça-feira a instituição vendeu 1,1 milhão de NTN-B.

Jefferson Lima, gerente da Mesa de Reais da CM Capital Markets, afirma que, a despeito do quadro fiscal seguir preocupante e com sinais de "rusgas" entre o ministro Paulo Guedes e o presidente do Banco Central , Roberto Campos Neto, no radar, o mercado viu o governo tentando avançar em algumas matérias nos últimos dias, após críticas de que estaria parado. "A expectativa é de que a pauta ande após as eleições", disse. Ontem, foi aprovada a nova Lei de Falências.

Na avaliação de um gestor, o alívio da curva nas últimas três sessões tem a ver com os níveis atingidos pelas inclinações e que tornam mais arriscado aumentar posições compradas, ao menos enquanto não houver mais noticias ruins do fiscal. "O pré já está com preços de crise, há um overshooting, atingindo um patamar bom para se aplicar", disse ele, destacando o contraste com a Bolsa, que já viveu um rali nesta semana e hoje realiza lucros. "Quem está certo, o pré ou a Bolsa? O pós-eleição vai dizer", comentou.


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