Após manhã volátil, dólar termina o dia em queda, aos R$ 5,31

Após manhã volátil, dólar termina o dia em queda, aos R$ 5,31

Ibovespa fechou em alta de 0,46% e acumulou ganho de 4,07% na semana

Por
AE

Moeda norte-americana subiu 10% nas últimas sete sessões

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O dólar firmou queda na parte da tarde desta sexta-feira após manhã volátil e subir 10% nas últimas sete sessões. A moeda norte-americana acumulou valorização de 5,4% na semana, a segunda consecutiva de ganhos. O câmbio tem sido pressionado tanto pela piora do ambiente externo, em meio ao aumento de casos de coronavírus na China e em parte dos Estados Unidos, e pelos ruídos políticos no Brasil. Hoje, operadores destacam que foi mais um movimento de realização de ganhos, favorecido pelo recuo da divisa americana nos mercados emergentes, mas a tendência é que a pressão para alta persista, por conta do aumento da incerteza após a prisão de Fabrício Queiróz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro.

Mesmo com a queda de hoje, o dólar acumula alta de 32,5% no ano, com o real se mantendo no posto de moeda com pior desempenho internacional, em uma cesta de 34 divisas. No encerramento da sexta-feira, terminou cotado em R$ 5,3180, em queda de 0,98%.

A economista-chefe e estrategista do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, avalia que o dólar na casa dos R$ 5,30 reflete o estresse político e econômico que o país atravessa. Considerando o cenário atual, ela comenta que a moeda americana a R$ 4,90, como estava no último dia 9, embute um exagero de otimismo, descolado da realidade, assim como os R$ 5,96 do dia que o ex-ministro Sergio Moro deixou o cargo mostra um exagero de pessimismo.

A prisão de Queiroz, ressalta Fernanda, não foi exatamente uma surpresa, mas serviu para confirmar o cenário altamente incerto no mundo político. Por isso, pela frente, no mercado doméstico, será preciso monitorar os desdobramentos políticos do caso e o ciclo da pandemia de coronavírus, que ajuda a dar pistas do que esperar da retomada da atividade. Enquanto no primeiro mundo muitas economias podem ter recuperação econômica mais rápida, em V, aqui persistem as dúvidas, ressalta a economista.

"Diferente das outras semanas, o cenário interno agravou a desvalorização da moeda brasileira", ressalta o chefe da mesa de câmbio da Frente Corretora, Fabrizio Velloni. Os eventos recentes na política, com a prisão de Queiróz na casa do advogado da família Bolsonaro, e a saída do ministro da educação, Abraham Weintraunb, em meio à pressão do Supremo, aumentam as dúvidas sobre a governabilidade do presidente, ressalta ele. "O cenário ainda é bem obscuro, então certamente teremos volatilidade no câmbio."

No exterior, a afirmação de autoridades chinesas da intenção de comprar mais produtos agrícolas americanas ajudou no otimismo pela manhã, mas nos negócios da tarde, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, voltou a criticar o país asiático, afirmando que Pequim mentiu sobre o coronavírus, e voltou a fortalecer o dólar. A decisão da Apple de fechar parte das lojas nos EUA também ajudou a estimular a fuga de ativos de risco.

Ibovespa

O Ibovespa encerrou em alta, pela quarta sessão, período em que retomou a trajetória ascendente que havia sido interrompida na semana passada, quando acumulara perda de 1,95% em meio a temores quanto a uma segunda onda de Covid-19 no mundo, após avanços, respectivamente, de 5,95%, 6,36% e 8,28% nas semanas anteriores. Nesta sexta-feira, o índice de referência da B3 subiu 0,46%, aos 96.572,10 pontos, acumulando ganho de 4,07% na semana e, até aqui, de 10,49% no mês, limitando as perdas no ano a 16,49%, Em um mês, sobe 19,61%. Elevado, o giro financeiro totalizou R$ 38,7 bilhões, com o índice retornando pelo segundo dia a 97 mil na máxima, a 97.540,33, com mínima a 95.874,30 pontos na sessão.

À tarde, o Ibovespa perdeu fôlego e oscilou para terreno negativo nos momentos em que Nova York acentuava perdas - o blue chip Dow Jones chegou a cair mais de 1%, em dia no qual a Apple anunciou fechamento de parte das lojas nos EUA em razão do aumento de novos casos de covid-19 no país. Mais cedo, Wall Street reagira mal a novos comentários do secretário de Estado, Mike Pompeo, que voltou a acusar a China de mentir sobre o novo coronavírus e a afirmar que o país tenta afastar os EUA da União Europeia e de países em desenvolvimento.

Ainda assim, o Ibovespa mostrou mais uma vez resiliência, mesmo em dias menos positivos no exterior, como esta sexta-feira. Nas últimas 15 sessões, em intervalo iniciado em 29 de maio, o Ibovespa registrou perdas em apenas quatro, nos dias 9, 10, 12 e 15 de junho, em ajuste mais contido do que o do exterior àquela altura. Assim, na semana passada, o índice da B3 acumulou perda bem menor (-1,95%) do que a observada em Wall Street (de 5,52% para Dow Jones e de 4,77% para S&P 500) e, na que se encerra nesta sexta-feira, avançou mais (4,07%) do que Dow Jones (1,04%), S&P 500 (1,86%) e Nasdaq (3,73%).

Nesta sexta-feira, MRV fechou na ponta do Ibovespa, em alta de 5,66%, seguida por Raia Drogasil (+4,70%) e Qualicorp (+4,69%). No lado oposto do índice, CSN cedeu 3,78% e Fleury, 3,42%. As ações de commodities tiveram desempenho negativo, com Petrobras ON em baixa de 1,42% e a PN, de 0,60%, enquanto Vale ON caiu 1,78%. Desempenho misto para as ações de bancos, com Santander em alta de 2,05% e Bradesco ON, em baixa de 2,25%;

O cenário de juros reais a zero ou perto disso no Brasil e, no exterior, de ampla disponibilidade de liquidez proporcionada pelos BCs das maiores economias continua a alimentar o fluxo para a B3, que em junho tem acumulado ingresso de recursos estrangeiros - se for mantido até o fim do mês, será o primeiro saldo positivo de investimento estrangeiro na Bolsa brasileira desde setembro de 2019.

Em junho, até o dia 17, a B3 indica saldo positivo de R$ 2,936 bilhões em recursos estrangeiros, enquanto, em 2020, os saques totalizam, em termos líquidos, R$ 73,911 bilhões. Após uma série de quatro saques, os estrangeiros voltaram a alocar recursos na B3 na última quarta-feira, de acordo com os dados mais recentes disponíveis, que apontam ingresso líquido de R$ 858,375 milhões naquela sessão, em que o índice subiu 2,16%, com giro reforçado (R$ 69,4 bilhões) pelo vencimento de opções e futuros do Ibovespa.

O investidor doméstico, por sua vez, continua a deslocar recursos da renda fixa para a variável, apesar da incerteza em relação ao que as empresas poderão entregar, em termos de resultados, no segundo semestre, em meio a reabertura gradual da economia. A percepção que tem prevalecido até o momento é de que o fluxo tende a prevalecer sobre os fundamentos no curto prazo, com a disponibilidade de liquidez e a busca por rentabilidade em alternativas que envolvem exposição a risco.

Após cortar a taxa de juros em 0,75 ponto porcentual na quarta-feira, e sinalizar a possibilidade de outro ajuste, residual, o Copom trouxe um "direcional" para a Bolsa que contribui para reforçar a migração de recursos da renda fixa para a variável no curto prazo, aponta Shin Lai, estrategista-chefe da Upside Investor Research. "Isso pode ficar mais forte se a curva longa ceder. Há muitos fatores a serem considerados, é preciso aguardar os próximos dados econômicos e a evolução dos índices de desemprego, mas juros mais baixos ajudam na recuperação de setores muito correlacionados à taxa, como a cadeia de construção civil", diz o estrategista, que indica a faixa de 100 mil a 105 mil pontos como "limite superior" para o Ibovespa - que, no entanto, pode vir a ser testado, a depender da evolução da economia.

"Analisando o gráfico, ainda não é possível identificar nenhuma tendência de queda, apenas alta", observa Fernando Góes, analista técnico da Clear. "Como atingir os 100 mil pontos é uma resistência difícil de romper, é possível que o Ibovespa demore um pouco e fique sem tendência, alcançando os 100 mil mas sem definir, e voltando a cair um pouco. Assim que o Ibovespa atingir a marca dos 100 mil pontos, não deve demorar para chegar aos 104/107 mil pontos, rompendo e mostrando força", acrescenta.

Juros

Os juros fecharam em queda, com um movimento de pequena correção, estimulado pelo desempenho do câmbio, nos vértices de médio e longo prazo, que ontem tinham avançado. Já a ponta curta deu sequência ao recuo da véspera, com um leve crescimento das apostas no corte de 0,25 ponto porcentual da Selic no Copom de agosto. O ajuste a partir do miolo foi considerado muito tímido diante da alta registrada nesta quinta-feira, basicamente em função do risco político e fiscal. Embora o dia não tenha trazido novidades de Brasília, os investidores ficaram receosos em se expor ante a possibilidade de surgirem mais fatos negativos do fim de semana.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou na mínima de 2,02%, de 2,049% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2022 caiu de 3,102% para 3,01%. A taxa do DI para janeiro de 2025 recuou de 5,863% para 5,82% e a do DI para janeiro de 2027, de 6,823% para 6,80%.

Os vencimentos longos, que ontem fecharam em alta de quase 20 pontos-base, chegaram hoje a cair 10 pontos nas mínimas do dia, mas o fôlego de baixa perdeu força durante a tarde e no fim da sessão a queda era marginal.

Cassio Andrade Xavier, trade de renda fixa da Sicredi Asset, explica que, além do alívio do câmbio, este trecho se beneficiou da redução da precificação das altas da Selic que atingiu a parte intermediária, o que traz impacto aos vencimentos mais à frente. "Considerando o recuo importante do dólar, mais o efeito do miolo da curva e o fato de que ontem subiu bem, era para esta parte longa ter ido melhor", disse.

"Esta ponta está muito frágil em função do cenário político e fiscal desafiador", explicou, acrescentando que para os vencimentos além de 2022 "andarem" o risco político tem de baixar.

A crise tem várias frentes e a mais recente delas foi desencadeada pela prisão ontem de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e filho do presidente Jair Bolsonaro. "Diante do atual contexto de graves crises múltiplas no Brasil, o desenrolar da situação após a prisão de Queiroz poderá isolar ainda mais o presidente Bolsonaro, bem como provocar novas quedas de popularidade", avaliam profissionais do Departamento de Economia da Renascença DTVM.

Em meio a isso, a pandemia no Brasil avança a passos largos, com o número de contaminações já superando 1 milhão de casos e o de mortes na casa de 48 mil.


Nesse sentido, quem arriscou posições doadoras preferiu os vencimentos intermediários e, com isso, houve alívio nos prêmios para aperto da Selic a partir de 2022. Como a ponta curta está bem justa e a longa esbarra no risco político, há maior conforto no miolo. De acordo com Xavier, a curva projetava nesta tarde cerca de 60% de chance de redução da Selic em 0,25 ponto no próximo Copom, e 40% de probabilidade de manutenção. Ontem, o mercado estava dividido com 50% para cada lado.