Atenta à eleição nos EUA, Bolsa fecha em alta de 1,97%

Atenta à eleição nos EUA, Bolsa fecha em alta de 1,97%

Também monitorando de perto as eleições norte-americanas, dólar sofre baixa e termina o dia em R$ 5,65

AE

Real teve melhor desempenho no mercado internacional, considerando cesta de 34 moedas mais líquidas

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Os mercados globais reagiram de forma positiva aos sinais de que a Casa Branca tende a mudar de inquilino em 2021, com a saída de cena do "America First" em interlúdio de apenas um mandato e, mais do que isso, o retorno ao comando da maior economia do mundo de um político tradicional, democrata de centro que pouco se movimentou em campanha eleitoral marcada por pandemia fora de controle e regressão da popularidade de quem surpreendeu em 2016 com a retórica antissistema. Assim, em Nova Iorque os ganhos chegaram hoje a 3,85% no fechamento do Nasdaq enquanto, na B3, o Ibovespa encerrou em alta de 1,97%, aos 97.866,81 pontos, com máxima nesta quarta-feira a 98.296,35 pontos. Reforçado como ontem, o giro financeiro totalizou R$ 29,4 bilhões; na semana, o índice avança 4,17%.

"A falta de uma diretriz clara quanto à pandemia contribuiu para reunir em Trump três características indesejáveis aos olhos do mercado: risco, incerteza e imprevisibilidade. Biden é, de certa forma, um retorno à normalidade. Tende a elevar impostos sem os exageros de Obama, colocando mais dinheiro na mão do consumidor e induzindo uma recuperação econômica pela demanda. No longo prazo, com a retomada da economia e da arrecadação, o orçamento vai se reequilibrando", aponta Rodrigo Franchini, sócio e head de produtos na Monte Bravo Investimentos. "Não teve onda azul, mas, salvo surpresa de última hora, parece que Biden vai ganhar mesmo: a vitória de quem jogou praticamente parado, enquanto Trump se enforcava."

"Sem a novidade de 2016 contra o sistema, Trump pouco conseguiu se diferenciar de Biden. É uma mudança positiva, na medida em que o republicano favoreceu o protecionismo, acirrou demais a disputa com a China e ao mesmo tempo se afastou da Europa, aliada tradicional. Biden deve reconstruir pontes, não deixando o Brasil fora disso. Mas o governo precisa fazer sua parte, ajustando atitudes, após ter transformado uma preferência pessoal (por Trump) em política de Estado", acrescenta o gestor.

O fato de a onda azul não ter se materializado - sem que os democratas formem maioria tanto na Câmara como no Senado - é de certa forma positivo ao Brasil, na medida em que retira força da guinada ambientalista defendida pelo entorno de Biden e assumida pelo candidato democrata. "Ainda assim, não dá para desprezar a força da retórica, da liderança pela palavra, que Biden sem dúvida exercerá em matéria ambiental. Precisamos corrigir o rumo", observa Franchini, chamando atenção para a crescente força da sigla ESG (meio ambiente, social e governança) na formatação de fundos e instrumentos de investimento.

"Leva algum tempo para que a eleição de um presidente americano impacte um país como o Brasil, mas, caso se confirme a vitória de Biden, tende a pôr freio aqui à linha ambiental de Bolsonaro, e isso pode ser bom, considerando que o setor mais promissor aqui, o agronegócio, pode ser afetado no longo prazo pelo desrespeito ao meio ambiente", observa Eduardo Cavalheiro, sócio-gestor da Rio Verde Investimentos. "A alta das bolsas vista hoje foi uma celebração, em especial na Europa, onde o convívio dos governos com Trump estava muito difícil. Com Biden, mesmo em relação à China, deve haver uma recomposição, em atuação mais coordenada com o bloco ocidental", acrescenta o gestor.

Para Roberto Indech, estrategista-chefe da Clear Corretora, eventual confirmação da vitória democrata pode envolver também efeitos adversos. "Pensando nas BDRs de tecnologia (Apple, Google, Amazon etc) caso Biden saia vencedor, o resultado pode ter repercussão negativa", na medida em que tais empresas "podem ser prejudicadas por uma possível regulação prometida pelo novo presidente".

Não havendo breve definição do vencedor - cenário que se desenha com a inclinação de Trump a recorrer à Justiça como cartada final, além da possibilidade de recontagem em estados com margens muito estreitas -, a incerteza poderia se instalar por "semanas ou até meses". "Isso levaria a uma indefinição do resultado prolongada e, como sabemos, os mercados não gostam de indefinições", acrescenta o estrategista.

No entanto, o sentimento que prevalecia desde o início da apuração, do "too early to call", deu espaço a avanço democrata, embora menos intenso do que se chegou a prever - o que não chega a ser ruim. "Caso venha a se confirmar, não será uma vitória de lavada, com carta branca para o novo presidente fazer o que quiser. Questões como aumento de impostos continuarão a precisar passar por um Congresso dividido, sem maioria democrata em ambas as casas. Isso também foi celebrado hoje pelos mercados", diz Cavalheiro, da Rio Verde.

Nesta quarta-feira de celebração na B3, as perdas se concentraram no setor que havia sido o campeão do dia anterior: siderurgia. Após terem segurado a ponta positiva ontem, empresas como CSN e Gerdau PN fecharam hoje em queda, respectivamente, de 4,24% e 3,88%. No lado oposto, Cyrela subiu 7,27%, seguida por Lojas Renner (+6,96%) e B2W (+6,59%). Entre as commodities, Vale ON cedeu 2,78%, enquanto Petrobras PN e ON encerraram em alta de 0,36% e 0,46%, respectivamente. Entre os bancos, o desempenho também foi misto, com Itaú PN em alta de 3,99% e BB ON, de 0,73%, com Santander em baixa de 2,27% e Bradesco PN, de 0,72%.

Dólar

As mesas de câmbio operaram nesta quarta-feira monitorando de perto a apuração dos votos nos Estados Unidos. O dólar ampliou o ritmo de queda no exterior e aqui na medida em que as chances de vitória de Joe Biden com um Congresso dividido cresceram, cenário em que fica menos provável aumento de impostos e mudanças regulatórias no país. Internamente, o avanço da agenda no Senado, com a aprovação da autonomia do Banco Central, e na Câmara, com a votação dos vetos presidenciais à desoneração da folha salarial, foi bem recebida pelos investidores e ajudou o real a ter o melhor desempenho hoje no mercado internacional, considerando uma cesta de 34 moedas mais líquidas.

O dólar à vista fechou em baixa de 1,88%, cotado em R$ 5,6538. Foi a maior queda porcentual desde 28 de agosto. No mercado futuro, o dólar para dezembro cedia 1,64% às 18h, negociado em R$ 5,6690.

Com a apuração ainda em andamento em vários estados americanos, o cenário que se desenha nesta tarde é um Congresso dividido, e chance de vitória de Joe Biden. Os analistas da LPL Financial observam que esta configuração parece agradar Wall Street, pois tira da mesa a pretensão de Biden de elevar impostos para empresas e ainda de fazer mudanças regulatórias em alguns setores.

"Achamos que Joe Biden sairá vencedor", afirmam os analistas do TD Bank. Porém, eles não descartam a possibilidade de o resultado nas urnas ser judicialmente contestado por Donald Trump, o que pode causar forte volatilidade nos mercados nos próximos dias. Na tarde de hoje, o republicano pediu a paralisação da apuração em Michigan e a recontagem dos votos em Wisconsin, mas os pedidos não tiveram maiores impactos nos mercados.

"A disputa é acirrada, mas pairam no ar incertezas e receios de que a judicialização da eleição possa arrastar por mais tempo a sua definição", afirma o economista da Advanced Corretora de Câmbio, Alessandro Faganello.

Com chance de contestação das eleições, a euforia observada hoje nos mercados pode rapidamente mudar, alertam os estrategistas da gestora BlackRock, prevendo volatilidade nos ativos pela frente. Além da incerteza provocada pelo ida do pleito à Suprema Corte, o mercado pode voltar a questionar a viabilidade de uma pacote de estímulos, além de voltar a monitorar os casos de covid no país, que seguem em crescimento.

No mercado doméstico, os estrategistas do Citigroup observam que a aprovação da autonomia do BC é positiva, assim como a votação dos vetos, na medida em que as eleições municiais pararam o andamento de reformas mais amplas, abrindo espaço para a agenda micro. Ainda nas notícias positivas, eles destacam que o crescimento da produção industrial em setembro, acima do esperado, é novo indício da recuperação em V da atividade.

Juros

Os juros futuros fecharam a sessão em queda firme, embarcando junto com os demais ativos, no apetite ao risco a partir do exterior, com o mercado acompanhando atentamente o avanço da apuração dos votos para presidente dos Estados Unidos. Ainda que a onda azul não tenha se confirmado, o democrata Joe Biden está liderança e levando delegados em estados que são decisivos para o resultado final. Já na composição do Congresso, a configuração atual deve ser mantida, com maioria republicana no Senado e democrata na Câmara, o que é visto como positivo do ponto de vista de equilíbrio das forças políticas. Com isso, as taxas futuras devolveram quase toda a alta de ontem. O risco de judicialização da disputa foi relevado, assim como o noticiário local, mesmo com avanço de algumas pautas em Brasília, e a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) ficaram em segundo plano.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 terminou em 3,46% (3,536% ontem no ajuste) e a do DI para janeiro de 2023 caiu de 5,196% para 5,06%. O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 6,75% (6,925% ontem no ajuste) e a do o DI para janeiro de 2027 recuou a 7,54%, de 7,694%.

Até ontem à noite, a apuração apontava disputa muito acirrada entre Biden e Trump, mas hoje o dia amanheceu já com Biden se distanciando, ainda que em nenhum momento tenha se confirmado a larga vantagem apresentada nas pesquisas eleitorais. A queda das taxas ganhou força no início da tarde, na medida em que foi se desenhando o avanço democrata em Michigan e Wisconsin, dois Estados do Meio-Oeste, região que deu a Donald Trump a vitória em 2016.

"Vai ser no voto a voto. O que dá grande alívio aos ativos hoje é a questão do Congresso", disse o estrategista de Mercados da Harrison Investimentos, Renan Sujii, explicando que numa configuração de Senado democrata Biden não enfrentaria nenhuma resistência em aprovar qualquer matéria, pois terá também maioria na Câmara. "As pautas democratas são negativas do ponto de vista do mercado corporativo, pois são historicamente contrários à redução de impostos. Com uma combinação de vitória de Biden com Senado republicano teríamos maior moderação", disse Sujii. O estrategista diz, porém, que os próximos dias tendem a ser de turbulência e volatilidade, com o risco de judicialização se materializando. A campanha de Trump já confirmou que pedirá recontagem de votos no Wisconsin e suspensão de contagem em Michigan.

Internamente, a aprovação do projeto de autonomia do Banco Central pelo Senado ontem foi bem recebida, dada a avaliação de que representa um avanço institucional importante contra eventuais tentativas de ingerências políticas sobre a instituição. O projeto prevê mandato de quatro anos para os dirigentes e quarentena para ex-diretores. "É uma notícia positiva do ponto de vista estrutural, de melhora no ambiente, mas pouco faz preço no dia a dia", disse Sujii.


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