Bolsa fecha em alta, a 115.370,61 pontos, após três perdas seguidas
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Bolsa fecha em alta, a 115.370,61 pontos, após três perdas seguidas

Fortalecido pelo discurso do presidente do Fed, o dólar terminou o dia em alta de 0,10%

Por
AE

Moeda americana já acumula ganho de quase 8% no ano, o pior desempenho entre os emergentes


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Em dia de recuperação de commodities como petróleo e minério de ferro e de dólar em nova máxima nominal por aqui, a R$ 4,3264, o Ibovespa fechou em alta acentuada, destacando-se dos mercados do exterior, em desempenho bem mais moderado na sessão, especialmente Nova York - ainda assim, com S&P 500 e Nasdaq em novos picos históricos.

Após ter encerrado o dia anterior no menor nível desde 16 de dezembro, o principal índice da B3 interrompeu nesta terça-feira, 11, série de três perdas, encerrando em alta de 2,49%, a 115.370,61 pontos, tendo oscilado entre mínima de 112.573,78 e máxima de 115.576,21 pontos. O giro financeiro totalizou R$ 26,1 bilhões. No mês, o índice avança 1,42% e, no ano, perde 0,24%.

Em Qingdao, na China, o minério fechou nesta terça-feira em alta de 4,89% e os contratos do Brent para abril, por sua vez, avançaram 1,39% na ICE, a US$ 54,01 por barril, uma combinação que favoreceu as ações de commodities, em dia no qual o governo chinês pediu que as principais indústrias do país retomem a produção.

"Juntos, Petro, Vale e bancos praticamente têm peso de 50% no Ibovespa, e hoje foram bem, com o balanço do Itaú e a recuperação dos preços do petróleo e do minério de ferro na sessão", diz Márcio Gomes, analista da Necton. Também contribuiu para o desempenho a leitura positiva sobre os dados de produção da Petrobras, divulgados ontem depois do fechamento da B3 assim como os resultados trimestrais do Itaú. Hoje, a Vale também divulgou os números de produção, referentes ao quarto trimestre e ao fechamento de 2019: no ano, em queda de 21,5% para a de minério de ferro ante 2018.

As ações do setor de siderurgia também se beneficiaram do movimento positivo nas commodities, colocando Usiminas (+6,78%) entre as líderes da sessão. Destaque também para Vale, em alta de 3,71%. Petrobras ON fechou em alta de 1,36% e a PN, de 1,20%. Entre os bancos, Itaú Unibanco PN avançou 2,30%, enquanto Bradesco ON subiu 2,73% e Banco do Brasil ON ganhou 4,50% - um conjunto de ações que ainda acumulam perdas no ano, em função da queda da Selic e da perspectiva de mudanças estruturais no setor, com a emergência das fintechs.

"O viés macro de longo prazo ainda é favorável. Tivemos uma realização de lucros mais acelerada no Ibovespa, em razão da dificuldade de mensurar os efeitos do coronavírus sobre a economia global. Houve certo exagero, que tem sido corrigido à medida que novas informações vão chegando", diz Gomes. "O coronavírus continua a ter um efeito difícil de mensurar para a economia global, o que envolve mais volatilidade, e volatilidade implica também oportunidade, especialmente em ações e setores que oferecem desconto", acrescenta o analista, para quem o momento é de "seletividade".

A resiliência do investidor doméstico ao risco continua sendo um fator fundamental, na medida em que o estrangeiro permanece na ponta vendedora, com a redução dos juros por aqui praticamente eliminando o apelo das operações de carry trade. No mês de fevereiro, até o dia 7, os estrangeiros retiraram R$ 5,594 bilhões da bolsa e, no acumulado do ano, acumulam saldo negativo de R$ 24,752 bilhões na B3.

Nesta terça-feira, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que uma vacina contra o coronavírus pode ficar pronta em 18 meses, mas não deu detalhes sobre pesquisas clínicas. Em audiência na Câmara de Representantes dos EUA, o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, afirmou que a economia americana apresenta um desempenho vigoroso e "não há razão" para que o bom ritmo de expansão do país não seja mantido.

Dólar

O real operou descolado de outras moedas emergentes nesta terça-feira e do otimismo visto na Bolsa. A moeda americana chegou a R$ 4,34 nesta tarde, fortalecida pelo discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, destacando o fôlego da economia americana. Profissionais de câmbio notaram saída forte de recursos pelo canal comercial hoje, em uma operação no setor de petróleo, o que ajudou a pressionar ainda mais as cotações. Perto do fechamento, a valorização perdeu fôlego, mas o dólar à vista ainda terminou com ganho de 0,10%, a R$ 4,3264, o quarto dia seguido de alta e novo recorde nominal do Plano Real.

O dólar já acumula ganho de quase 8% no ano, o pior desempenho entre os emergentes. Em outros, a moeda americana avança 5,6% na África do Sul, 5,3% no Chile e 4,6% na Colômbia.

Pela manhã, o dólar operou em queda aqui, com o real acompanhando as demais moedas. A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) confirmou que cortes de juros não virão no curto prazo, embora parte dos economistas tenham visto a mensagem no documento de que há espaço para mais quedas pela frente. O Goldman Sachs, por exemplo, vê o BC entrando em "modo de observação", mas sem fechar as portas para novos cortes adiante.

O movimento de queda do dólar se inverteu no início da tarde, coincidindo com o depoimento de Powell no Congresso. O dirigente alertou para os riscos do coronavírus na economia mundial, mas afirmou que "não há razão para que a expansão dos Estados Unidos não se mantenha".

"Powell mostrou uma avaliação no geral positiva dos EUA", afirma a economista em Chicago da corretora Stifel, Lindsey Piegza. Essa visão reforçou a percepção de que não deve haver novo corte de juros pelo Fed por enquanto, o que ajudou a fortalecer o dólar ante emergentes. Com isso, a moeda reduziu o ritmo de queda. Peso argentino, real e lira turca foram as exceções hoje, ficando, nesta ordem, com os piores desempenhos ante o dólar.

Na avaliação do operador Alessandro Faganello, da Advanced Corretora, Powell sinalizou que a política monetária não muda por ora, favorecendo a valorização do dólar. Além disso, ele destaca que também teve peso a afirmação do dirigente de que o Fed pretende reduzir gradualmente o uso de operações de Repo, de recompra de títulos, que dá liquidez ao mercado. Sobre possível intervenção do BC aqui, Faganello acredita que somente haverá ação quando a autoridade monetária avaliar que o dólar pode pressionar a inflação. Hoje, apesar de chegar a R$ 4,3403 na máxima, os indicadores mais técnicos mostram que não houve disfuncionalidade no mercado.

Juros

Os dados benignos de inflação da terça-feira em meio à leitura da ata do Comitê de Política Monetária (Copom) sustentaram os juros em queda durante toda a sessão, tendo a taxa do contrato com vencimento em janeiro de 2021 renovado a mínima histórica mais uma vez. A ata reforçou a intenção do Copom de interromper o atual ciclo de queda da Selic, o que, porém, não conseguiu impedir o alívio dos prêmios na curva, uma vez que, por outro lado, endossou a avaliação de que a taxa não deve subir tão cedo. Nesse contexto, os vencimentos curtos tiveram recuo mais moderado do que os longos, estes favorecidos ainda pela melhora do apetite ao risco no exterior.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou em 4,235% (novo piso histórico), nas sessões regular e estendida, de 4,266% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 caiu de 5,522% para 5,42% (regular e estendida). O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 6,07% (regular) e 6,08% (estendida), ante 6,152%, e a do DI para janeiro de 2027 terminou em 6,42% (regular) e 6,44% (estendida), de 6,481%. Nos DIs curtíssimos, a taxa para abril de 2020 fechou estável em 4,148% (regular) e 4,15% (estendida).

Na ata, o trecho mais destacado pelos economistas para justificar a sinalização de que o corte da Selic para 4,25% foi o último foi aquele em que os diretores citam "múltiplas incertezas no que tange ao atual grau de ociosidade, à velocidade de recuperação da economia e ao aumento da potência da política monetária, que atua com defasagens na economia". Tal trecho reforçou as apostas de que a Selic deve ser mantida no atual patamar durante muito tempo.

Diante disso, houve ajuste importante nas apostas para o Copom de março na precificação da curva, que passou de -3,5 pontos-base ontem para -0,8 ponto hoje, segundo cálculos da Quantitas Asset. Ou seja, a possibilidade de corte da Selic no mês que vem caiu de 14% para apenas 3% entre ontem e hoje, com consequente aumento da chance de manutenção de 86% para 97%.

"O comunicado ficou mais forte que a ata na questão da possibilidade de o BC não voltar mais a cortar juro. Na ata, fica mais a sensação de pausa do que de interrupção", diz o economista do ABC Brasil, Luis Otávio Souza Leal, para quem, em decorrência disso, o mercado poderá voltar a discutir cortes da Selic no segundo semestre se os dados de atividades permanecerem fracos.

Nas mesas de operação, a sensação também foi esta, segundo o sócio-gestor da LAIC-HFM, Vitor Carvalho. "Grande parte do mercado viu a ata mais 'dove' que o comunicado. Tem muita gente esperançosa de que interrupção seja apenas uma pausa", afirmou.


Os dados de inflação do dia endossam essa percepção. A primeira prévia do IGP-M teve variação zero, após ter subido 0,67% na mesma leitura de janeiro. Já o IPC-Fipe desacelerou de 0,29% no fim de janeiro para 0,19% na primeira quadrissemana de fevereiro.