Bolsa fecha em alta de 7,14%, após maior perda do século
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Bolsa fecha em alta de 7,14%, após maior perda do século

A moeda norte-americana fechou em queda de 1,63%, aos R$ 4,6472

Por
AE

Terça-feira foi de correção técnica para o Ibovespa após o mergulho do dia anterior


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Apesar da dimensão do ajuste, esta terça-feira foi de correção técnica para o Ibovespa após o mergulho do dia anterior, quando o índice de referência da B3 havia registrado sua maior perda (-12,17%) desde 10 de setembro de 1998. Nesta terça, fechou em alta de 7,14%, o maior avanço desde 8 de dezembro de 2008 (+8,31%), quando o então presidente eleito dos EUA Barack Obama anunciava pacote de investimentos em infraestrutura, em reação à crise americana, tornada global.

Em mais um dia de movimento amplificado entre a mínima, de 86.070,96 pontos, e a máxima, de 92.230,27 pontos, atingida bem perto do fechamento, o giro financeiro totalizou R$ 40,0 bilhões na sessão, após ter chegado a R$ 43,9 bilhões na segunda-feira, o maior do período pós-carnaval.

No ano, o Ibovespa cede 20,26%, no mês, 11,48%, e na semana, 5,90%. Aos 92.214,47 pontos no fechamento desta terça, o Ibovespa retomou nível observado em maio do ano passado - em 20 de maio de 2019, o índice fechou aos 91.946,19 e, no dia seguinte, aos 94.484,63 pontos.

Os ganhos em São Paulo se acentuaram por volta das 16 horas, em correlação com Nova York, após a mídia americana ter reportado reunião entre o secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, e a presidente da Câmara, Nancy Pelosi. Após o encontro, Mnuchin disse haver entendimento entre republicanos e democratas sobre resposta econômica ao coronavírus, sem dar detalhes adicionais. Em encontro com senadores republicanos, o presidente Donald Trump teria sinalizado que pretende desonerar a folha de pagamentos até a eleição presidencial de novembro.

"Há muita conversa sobre estímulos, mas ainda não tivemos confirmação de uma atuação fiscal mais firme. Os problemas sobre a mesa, relacionados ao coronavírus, continuam os mesmos, não houve mudança de ontem para hoje", diz André Perfeito, economista-chefe da Necton.

"Tivemos uma recuperação natural, pontual, dado o tombo da véspera, que abriu oportunidade para o mercado tomar ações com desconto, movimento visível desde a abertura da sessão", diz Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos. "O cenário continua muito nebuloso: não dá pra dizer que há uma mudança de tendência, com essa volatilidade que está aí", acrescenta.

A alta na B3 foi superior à observada em Nova York ao longo da sessão - os três índices de referência de NY fecharam com ganhos na faixa de 4,9% nesta terça-feira, tendo chegado a tocar terreno negativo, mais cedo. Na Europa, os principais mercados fecharam em baixa: destaque para Milão (-3,28%), com a Itália em quarentena pelo coronavírus em meio à progressão do Covid-19 pelo continente.

O preço do minério de ferro negociado no porto de Qingdao, na China, fechou em alta de 4,70% nesta terça-feira, a US$ 92,09 a tonelada, ante a expectativa de estímulos globais para reduzir o impacto econômico do coronavírus. O avanço da commodity colocou a ação da Vale (+18,45%) entre as de melhor desempenho no Ibovespa.

Na ponta do índice, Via Varejo subiu nesta terça 21,29%, seguida por Vale e por CCR (+17,32%). Após perda de 29,7% no dia anterior, Petrobras PN subiu 9,41% e a ON, 8,51%, com o Brent para maio em alta de 8,32% no fechamento desta terça na ICE, a R$ 37,22 por barril, em recuperação moderada ante a queda de 24% no dia anterior.

Dólar

O mercado de câmbio teve um dia de ajustes e realização de ganhos após a disparada do dólar, que subiu em 13 das últimas 15 sessões. A moeda norte-americana fechou em queda de 1,63%, a maior desde 4 de setembro de 2019, aos R$ 4,6472. O real acompanhou o comportamento de outras moedas de emergentes, que ganharam valor perante a divisa dos Estados Unidos. No exterior, os investidores se animaram com a perspectiva de adoção de estímulos fiscais pela Casa Branca em conjunto com o Congresso, além da sinalização de Pequim de que o pior do surto de coronavírus no país já passou.

O novo leilão de US$ 2 bilhões de dólares no mercado à vista pelo Banco Central também contribuiu para a queda do dólar, de acordo com operadores.

Somente na segunda e nesta terça, o BC colocou US$ 5,5 bilhões em dinheiro novo no mercado de câmbio. Mas a visão é que a calmaria desta terça-feira não deve perdurar, na medida em que persistem as incertezas sobre os efeitos do coronavírus e da guerra nos preços do petróleo. O Bank of America Merrill Lynch cortou novamente a previsão de crescimento da economia mundial este ano, para 2,2%, e alertou nesta terça que os riscos continuam sendo de piora.

O sócio da gestora Portofino Investimentos, Adriano Cantreva, avalia que a queda desta terça do dólar aqui não sinaliza tendência, pois os próximos movimentos dependem do que vai acontecer com os juros brasileiros e dos efeitos do coronavírus. A economia brasileira deve ser afetada pelo surto, mas a maior incógnita neste momento é o que vai acontecer nos EUA, enquanto a China retoma as atividades e a Europa está parada. Em ano eleitoral, Trump não vai querer que a atividade fique enfraquecida, ressalta o gestor.
Para Cantreva, o BC tem atuado de maneira a evitar muita volatilidade no câmbio e não dá mostras de querer determinar algum preço para o dólar.

Neste sentido, tem buscado evitar valorizar artificialmente o real. Já ao cortar juros, reduz muito a atratividade dos investimentos no Brasil aos estrangeiros e estimula o aumento de posições contra o real - comprada em dólar no mercado futuro. "Antigamente apostar contra o real era muito caro."

"O apetite por risco voltou, mas vai durar", questiona o diretor de moedas da gestora BK Asset Management, Boris Schlossberg.

O fator essencial para esse movimento continuar vai depender das respostas dos governos, especialmente de Trump e do que decidir o Banco Central Europeu (BCE) esta semana em sua reunião de política monetária. Nesta terça, o dólar subiu forte ante divisas fortes, mas caiu perante emergentes, um indício de que investidores estão buscando ativos de maior risco. Aqui, o Ibovespa subiu 7,1%, na maior alta em mais de uma década.

Juros

A melhora do ambiente externo, com expectativa de respostas rápidas dos governos à epidemia do coronavírus, manteve os juros em baixa durante toda a sessão desta terça. Porém, as taxas devolveram apenas parte do estresse da véspera, dado que o cenário permanece pessimista sobre os impactos na economia global e há limites para a atuação das autoridades para enfrentar o surto. O recuo foi maior nos vértices intermediários, com alívio de até 16 pontos-base. Internamente, as atuações do Banco Central e Tesouro contribuíram para o ajuste de prêmios, mas o dado da produção industrial ficou em segundo plano.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou em 3,900%, de 4,009% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2022 caiu de 4,631% para 4,52%. O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa de 6,84%, ante 6,952% da segunda-feira.

"Os ativos registram hoje o espelho de ontem. Isto é, bolsas, DXY e juros de países desenvolvidos para cima; moedas e bolsa emergentes em recuperação, commodities valorizando e juros e prêmios de risco de países emergentes em queda", resumiu o Banco Fator, em relatório.

Na curva local, segundo a Quantitas Asset, a precificação de corte de 0,25 ponto porcentual da Selic para o Copom de março avançou de 79% para 92% entre a segunda-feira e o dia seguinte e, em contrapartida, a chance de manutenção caiu de 21% para 8%.

"Ontem foi muito pesado, e hoje temos um refresco tanto lá fora quanto aqui, com o BC e o Tesouro atuando para tirar disfuncionalidade dos mercados", disse o economista da MAG Investimentos, Julio Barros. A decisão do Tesouro de cancelar os leilões de LTN e NTN-F na quinta-feira foi bem recebida, na medida em que a operação representa pressão de alta sobre a curva.

Dentro do debate sobre possíveis ferramentas que iriam além do corte da Selic para fazer frente à crise, cresceu a discussão sobre a possibilidade de revisão ou até revogação da regra do teto dos gastos, mas esse risco não se traduziu ainda na curva de juros. "Ninguém está levando isso como algo real. O Tesouro tem colocado muito claramente a necessidade do ajuste e o mercado ainda não tem entendido isso como algo efetivo, ainda que alguns estejam aventando tal ideia", disse Barros.

Tanto a equipe econômica quanto o presidente da Câmara, Rodrigo maia (DEM-RJ), rechaçaram a ideia, defendendo o avanço das reformas como a melhor medida para evitar a deterioração da economia. "Esse debate deve e pode acontecer principalmente na parte de investimentos, depois que nós tivemos as despesas correntes organizadas", comentou Maia.


O secretário especial de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues, disse que a União tem espaço fiscal limitado para qualquer medida de estímulo e que a diretriz nesse cenário de crise é seguir trabalhando pelas reformas.