Com sexta queda consecutiva, dólar fecha em R$ 5,28
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Com sexta queda consecutiva, dólar fecha em R$ 5,28

Bolsa fechou em alta de 2,90%, a 87.946,25 pontos, na máxima do dia

Por
AE

Moeda morte-americana fechou em queda de 1,47% nesta quarta-feira


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O dólar engatou nesta quarta-feira, a sexta queda consecutiva, embalada pelo cenário externo, com os mercados acionários mostrando otimismo com as reaberturas das economias, e fatores técnicos, com investidores desmontando posições contra o real no mercado futuro. Uma captação externa da Petrobras, de US$ 3,2 bilhões, com forte demanda e a primeira de uma empresa brasileira desde o final de fevereiro, também contribuiu para retirar pressão do câmbio, ajudando o real a se descolar de outras moedas emergentes, que acabaram caindo ante a divisa americana hoje. Em maio, o dólar, que chegou a acumular alta de mais de 4%, agora cai 2,94%.

No mercado à vista, o dólar fechou em queda de 1,47%, cotado em R$ 5,2790 - o menor valor desde 17 de abril. No mercado futuro, o dólar para junho era negociado em baixa de 1,31%, a R$ 5,2850 no mesmo horário do fechamento do mercado comercial.

"A situação política no Brasil melhorou um pouco desde a última semana, em particular em relação a um possível impeachment de Jair Bolsonaro", avalia a analista de moedas do banco alemão Commerzbank, You-Na Park-Heger. "Além disso, apoiado por um ambiente externo mais positivo, o real foi capaz de notavelmente se recuperar ante o dólar."

Apesar da valorização do real, a analista do Commerzbank alerta para que se evite "otimismo prematuro". A situação política do Brasil permanece "frágil" e o coronavírus segue se disseminando rapidamente pelo País, o que por sua vez pode respingar no lado político, em meio a diferentes visões sobre como lidar com a pandemia. Hoje o noticiário político seguiu intenso, com a investigação do inquérito das fake news chegando perto de empresários próximos a Jair Bolsonaro, mas no mercado de câmbio foi apenas monitorado, sem efeito nos negócios.

"O câmbio estava completamente fora do lugar", afirma o sócio da Mauá Capital, Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central. O real e outros ativos brasileiros passaram a refletir um prêmio de risco muito elevado, influenciado pelo aumento do "barulho político".

Com a arrefecida nos últimos dias da piora política, Figueiredo observa que o dólar voltou e o Ibovespa avançou. Para ele, a forma como tem sido conduzida pelo governo a pandemia do coronavírus no Brasil ajuda a piorar a imagem do Brasil no exterior. Mas na prática, o Brasil está indo melhor que países europeus, com menos casos por milhão de habitantes. "A percepção do Brasil lá fora é a pior possível." Um dos reflexos dessa percepção ruim é que a saída de recursos do Brasil prossegue. O fluxo cambial ficou positivo em US$ 2,466 bilhões em maio até o dia 22, de acordo com dados divulgados hoje pelo Banco Central. Porém, pelo canal financeiro houve saídas líquidas de US$ 399 milhões no período. No ano, a fuga de recursos por este canal soma US$ 32,9 bilhões.

Ibovespa

Em novo dia de alta em Nova Iorque, o Ibovespa retornou a terreno positivo após as leves perdas de terça-feira, 26, passando a acumular ganho de 7,03% na semana e de 9,24% em maio, a caminho de emendar o segundo mês de retomada, ainda que gradual. Nesta quarta-feira, o principal índice da B3 encerrou na máxima do dia, em alta de 2,90%, aos 87.946,25 pontos, tendo oscilado na mínima a 85.467,50 pontos, com giro financeiro a R$ 26,0 bilhões na sessão. Assim, manteve o maior nível de fechamento desde 10 de março (92.214,47) e o maior nível intraday desde a sessão seguinte, do dia 11 (92.202,15 pontos).

Nesta quarta-feira, os ganhos foram mais uma vez bem distribuídos pelos diversos segmentos, entre os quais os de maior peso, como bancos e commodities, bem como os de siderurgia e serviços de infraestrutura (utilities). Apenas cinco ações do Ibovespa fecharam o dia em baixa, ainda assim leve, com destaque para Totvs (-1,69%) e B2W (-1,47%), a qual havia sido a maior vencedora de ontem.

Na ponta positiva de hoje, Usiminas subiu 16,33%, seguida por CVC (+12,96%). Entre as blue chips, destaque para Vale ON que subiu hoje 2,93%, mais do que revertendo a perda do dia anterior. Petrobras ON e PN, que caíam mais cedo em dia negativo para as cotações do petróleo, fecharam em alta de 0,49% e 1,32%, respectivamente. Entre os bancos, que vieram de dia negativo ontem, destaque para Itaú Unibanco, em alta de 3,13% no fechamento desta quarta-feira.

No ano, o Ibovespa cede agora 23,95%, em recuperação desde abril, mas ainda contido por diversos fatores que o singularizam mesmo entre os emergentes, como o risco político, a incerteza sobre a futura situação fiscal, a falta de resposta unificada à pandemia e a perspectiva de lenta retomada da economia, o que tem elevado as estimativas de contração do PIB em 2020.

Assim, as compras de ações continuam a ser sustentadas pelo investidor doméstico, sem muitas opções de rentabilidade em meio ao ciclo de corte da Selic, que seguirá em curso ante a fraca inflação e o reduzido nível de atividade econômica. Em maio, o saldo de recursos estrangeiros na B3 permaneceu negativo, afastados os investidores de fora pelo grau de incerteza que paira sobre a economia e a política brasileiras.

Agora, com a reabertura das economias nos EUA e especialmente na Europa e Ásia, em estágio mais avançado, dá alento ao apetite por risco, na medida em que os temores quanto a uma segunda onda do novo coronavírus parecem estar refluindo.

"Foram tantas notícias ruins este ano que o investidor tem se agarrado ao que tem chegado de positivo. A reabertura das economias, em meio a estímulos trilionários não apenas nos EUA mas também na zona do euro e no Japão, contribui para o apetite por ações, aqui ainda muito descontadas", observa Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus. "No meio disso, as dificuldades políticas acabam em segundo plano, e os sinais são de que o governo vai conseguir uma blindagem no Congresso, ao se aproximar do Centrão, o que reduz quase a zero a chance de impeachment e, à frente, pode favorecer a retomada das reformas", acrescenta o estrategista.

Superado o temor em torno do vídeo da reunião de 22 de abril, na avaliação do mercado sem novidades contundentes contra o presidente Jair Bolsonaro, as operações da Polícia Federal nesta semana contra o governador do Rio, Wilson Witzel, em investigação sobre fraudes na Saúde, e sobre as Fake News junto a deputados e empresários do entorno presidencial não chegaram a causar alvoroço entre os investidores.

Refletindo a melhora da percepção de risco, desde o dia 18 de maio o Ibovespa tem conseguido se manter nos fechamentos acima dos 80 mil pontos, e desde então foi deixando para trás esta linha de resistência significativa, com a qual vinha lutando desde abril. No dia 15 de maio, sexta-feira em que o então ministro da Saúde, Nelson Teich, deixou o governo, o Ibovespa fechou aos 77.556,62 pontos. Com a firme recuperação do índice na segunda quinzena de maio, a linha de 90 mil pontos passa a ser o alvo gráfico, apontam analistas técnicos.

Juros

Após passarem o dia em alta moderada, ainda em movimento de realização de lucros, os juros de médio e longo prazos inverteram a direção na hora final da sessão regular e fecharam em baixa. Num dia de liquidez bastante fraca, o pedido do procurador-geral da República, Augusto Aras, ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, de suspensão do inquérito das fake news no meio da tarde serviu de argumento para o mercado estancar o ajuste na ponta longa, mais sensível ao risco político e que até então tinha avanço um pouco mais pronunciado. O plano de "retomada consciente" das atividades econômicas apresentado pelo governo de São Paulo também foi visto com bons olhos. Já os vencimentos de curto prazo oscilaram discretamente, sem grandes alterações no quadro de apostas para a Selic.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou em 3,22%, de 3,24% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2025 caiu de 6,013% para 5,98%. A taxa do DI para janeiro de 2027 encerrou a 6,93%, de 6,983%.

A decisão de Aras traz alívio no risco político apenas de curtíssimo prazo, o que se vê pela queda comedida das taxas e baixo volume de contratos movimentados, mostrando que o mercado "não foi com tudo". Aras afirma que a Procuradoria-Geral da República foi "surpreendida" com a operação da Polícia Federal hoje, realizada "sem a participação, supervisão ou anuência prévia do órgão", e que teve como alvo empresários e ativistas próximos ao presidente Jair Bolsonaro. Na visão dele, isso "reforça a necessidade de se conferir segurança jurídica" ao inquérito.

Na maior parte do dia, a curva andou na contramão dos demais ativos domésticos, refletindo alguma cautela mesmo com o dólar negociado abaixo dos R$ 5,30. "Passamos por um certo exagero nos últimos dias na ponta longa com o efeito do vídeo da reunião ministerial. E, olhando a bolsa e o câmbio hoje, é como se o coronavírus não existisse nem o risco político", disse o estrategista de Mercados da Harrison Investimentos, Renan Sujii. Ele destaca vários fatores de incerteza no radar que não só a política, como por exemplo o receio de uma segunda onda de contágio da Covid-19 com a reabertura das atividades, que já começa a ocorrer na Europa e nos EUA.


Na ponta curta, as taxas pouco oscilaram, na ausência de novidades que pudessem alterar as expectativas para a Selic. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) voltaram a ser apresentados hoje, após quatro meses sem divulgação dos números. O resultado de abril foi chocante, mas compreensível diante da pandemia, e sustenta a percepção de que há espaço para o Copom repetir em junho o corte da Selic de 0,75 ponto porcentual. Houve fechamento de 860.503 vagas no mês e saldo líquido negativo de 763.232 postos entre janeiro e abril, que representam os piores resultados da série histórica.