Dólar até tenta ensaiar queda, mas fecha em alta, a R$ 4,48
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Dólar até tenta ensaiar queda, mas fecha em alta, a R$ 4,48

Ibovespa fecha em recuperação pelo 2° dia, a 106.625,41 pontos

Por
AE

Moeda norte-americana sofreu o nono dia consecutivo de alta


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O dólar até tentou ensaiar uma queda na tarde desta segunda, mas o movimento não se sustentou e a moeda americana fechou em alta, a nona seguida. No exterior, ao contrário, o dólar perdeu força ante divisas fortes e emergentes, com o aumento da perspectiva de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deve cortar os juros de forma agressiva pela frente para lidar com os efeitos do coronavírus. Também cresceu a aposta de ações coordenadas dos governos e a expectativa é para uma teleconferência de ministros das finanças dos sete países mais ricos do mundo, o G7, nesta terça-feira.

Aqui, o dólar à vista fechou com valorização de 0,19%, a R$ 4,4870. Além do cenário externo, operadores ressaltam que também contribui para aumentar a pressão no câmbio a visão de que o Banco Central pode cortar juros. Mesmo que bancos centrais lá fora façam o mesmo movimento, a visão é que o diferencial de taxas deve continuar baixo e desfavorável para o Brasil. Pela manhã, o dólar chegou a superar R$ 4,50.

"O câmbio vai continuar sob pressão, não vejo tendência de melhora no curto prazo", afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo. Para ele, a probabilidade maior é de dólar mais perto de R$ 4,50 do que de R$ 4,00 pela frente. "A possibilidade é de mais saídas de capital do Brasil do que de entradas."

Galhardo acrescenta ainda que os ruídos políticos só contribuem para aumentar a pressão no câmbio. Por isso, com o ambiente interno e externo conturbados, os investidores aumentam a procura por proteção no dólar, acelerando operações de hedge. Um das estratégias é aumentar a posição comprada no mercado futuro (apostas que ganham com a alta do dólar).

Hoje, ao contrário dos últimos dias, a alta do dólar não foi acompanhada de piora do risco Brasil. O Credit Default Swap (CDS) de cinco anos caiu para 127 pontos, após bater em 140 pontos na sexta-feira, segundo cotações da IHS Markit.

No exterior, o dólar chegou a subir de manhã nos emergentes, sobretudo nos mercados da América Latina. Mas com a crescente visão de ações dos governos e corte de juros pelo Fed, a moeda americana perdeu força. O banco Wells Fargo, quarto maior dos EUA em ativos, passou a prever hoje redução de 100 pontos-base nos juros até o fim do segundo trimestre. O Rabobank fala em juros chegando a zero nos EUA até setembro.

"Continuo esperando um ambiente de elevada volatilidade e pouca tendência, até que tenhamos uma claridade maior em relação ao cenário", avalia o gestor e sócio-diretor da TAG Investimentos, Dan Kawa. Para ele, o corte dos juros pelos bancos centrais é positivo e pode ajudar a melhorar o humor de curto prazo, mas pode ser insuficiente para lidar com a desaceleração da atividade.

Ibovespa

Em dia de retomada global do apetite por risco, o Ibovespa fechou a sessão desta segunda-feira em alta de 2,36%, aos 106.625,41 pontos, tendo atingido a marca de 107.220,02 pontos no pico de hoje, após a pior semana desde agosto de 2011 e o pior mês (fevereiro) desde maio de 2018. Na mínima, o Ibovespa foi hoje aos 103.779,26 pontos.

Assim, em alta pelo segundo dia após quatro perdas consecutivas, o principal índice da B3 conseguiu recuperar hoje cerca de 2,4 mil dos 9,5 mil pontos cedidos desde a quarta de cinzas - dessa forma, a perda em relação ao fechamento anterior ao carnaval está agora em torno de 7 mil pontos. O giro financeiro desta segunda-feira totalizou R$ 32,5 bilhões, em linha com o observado nas últimas três sessões, quando superou R$ 30 bilhões - chegando a R$ 40,0 bilhões na última sexta.

Antes da pausa para o carnaval, o Ibovespa estava em 113.681,42 no fechamento do dia 21. Desde então recuou 7,00% na quarta e 2,59% na quinta-feira, quando fechou aos 102.983,54 pontos, na mínima do dia, para subir 1,15% na última sexta-feira, aos 104.171,57 pontos. No dia 19 de fevereiro, antes de iniciar a série negativa de quatro sessões que precedeu e sucedeu o carnaval, o índice estava em 116.517,59 pontos (em alta de 1,34% no encerramento daquela sessão). No ano, o Ibovespa acumula agora perda de 7,8%.

A indicação de que as economias avançadas estão dispostas a afrouxar as condições monetárias e fiscais em contraponto à desaceleração da atividade ocasionada pelo coronavírus deu suporte a um dia de recuperação global, com o Ibovespa mostrando ganhos em correlação, embora mais moderados do que os observados hoje em Nova York, onde o Dow Jones fechou em alta de 5,09% e o S&P 500, de 4,60%. Na semana passada, os três índices de NY acumularam perdas entre 11% e 12,4%, superiores às registradas pelo Ibovespa, que cedeu 8,37% no período, de apenas três sessões por aqui.

"O S&P 500 teve a queda mais rápida desde o topo, de que se tem notícia. Lá fora como aqui, o mercado estava muito esticado, o que deu margem para uma realização mais forte", diz Matheus Soares, analista da Rico Investimentos. "O coronavírus vai ter um impacto na economia global e os bancos, em suas projeções, começam a colocar um crescimento menor, com prêmio de risco maior, e isso vai para o 'valuation'. Ainda teremos muita volatilidade pela frente", acrescenta.

Os ministros das Finanças e os presidentes dos bancos centrais dos países que integram o G7 realizarão teleconferência amanhã, às 9h (de Brasília), para discutir resposta conjunta ao coronavírus. "Há uma expectativa para esta reunião do G7, reforçada pelas indicações dadas por BCs, entre os quais o Fed, de que algo pode ser feito com relação à economia, ante o coronavírus. Daí essa reação espalhada que vimos hoje", diz Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset.

Por aqui, embora suavizado à tarde, os juros futuros tiveram ajuste negativo ao longo da curva, em meio a indicações de afrouxamento monetário que pode ser seguido também pelo Copom já na reunião de março, avalia o mercado.

Em outro desdobramento positivo desta segunda-feira, o petróleo teve alta sustentada na sessão, com ganhos na casa de 4,4% para os futuros do Brent e do WTI. Em Qingdao, na China, o minério de ferro teve alta de 5,92%, a US$ 88,93 por tonelada, o que contribuiu para recuperação da Vale, em alta de 4,63% no fechamento. Com o petróleo em alta na sessão, a ação ON da Petrobras subiu 3,50% e a PN, 4,70%. Destaque também para CSN, em alta de 10,47%, superada apenas por Hypera (+16,62%) entre os componentes do Ibovespa.

Juros

Março começou com forte ajuste na curva de juros doméstica em função do aumento da percepção de que o mundo terá um novo período de flexibilização monetária como forma de amenizar os impactos econômicos do coronavírus. As taxas recuaram em bloco, com mais força no trecho intermediário, onde o alívio foi em torno de 20 a 30 pontos-base. A ampliação das apostas de redução da Selic provocou queda na ponta curta, com a curva precificando em torno de 40% de chance de corte de 0,25 ponto porcentual da taxa básica no Comitê de Política Monetária (Copom) de março. Desse modo, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou pela primeira vez abaixo de 4% a etapa regular.

O DI para janeiro de 2021 fechou com taxa de 3,965% (regular) e 4,000% (estendida), de 4,095% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2022 encerrou em 4,36% (regular) e 4,44% (estendida), 4,591% no ajuste anterior. O DI janeiro de 2027 encerrou com taxa de 6,41% (regular) e 6,44% (estendida), de 6,631%.

O CME Group aponta 100% de chance de corte de 0,5 ponto no juro pelo Federal Reserve em março e 63% de probabilidade de uma redução de 0,25 ponto no juro inglês pelo Banco da Inglaterra (BoE). O Banco do Japão (BoJ) disse que vai "se esforçará para prover ampla liquidez e assegurar estabilidade em mercados". Amanhã, os ministros das Finanças e os presidentes dos bancos centrais do G7 realizarão uma teleconferência para discutir uma resposta à ameaça do coronavírus à economia.

Essa atuação "conjunta", é vista como necessária para tentar aplacar a espiral negativa nas economias provocada pela epidemia, que já contaminou 87 mil pessoas. A preocupação maior é com a expansão dos casos fora da China, sobretudo Itália, mais difícil de controlar. "Não é possível fazer o mesmo esquema que foi feito na China. Não dá para fechar Milão", afirmou Paulo Nepomuceno, da área de renda fixa da Terra Investimentos.

Apesar dos sinais preocupantes do fim de semana, o tombo do PMI Industrial da China entre janeiro (50) e fevereiro (35,7) e a primeira morte por coronavírus nos Estados Unidos, o mercado passou a olhar o "copo meio cheio", apostando na ação dos bancos centrais. No caso dos juros locais, a reação foi ainda mais evidente, com boa predisposição vendedora, na medida em que na sexta-feira a divulgação do comunicado do Federal Reserve ocorreu com os negócios já na sessão estendida. No comunicado, o Fed afirmou que usará "nossos instrumentos para agir conforme apropriado para apoiar a economia".

Nos curtos, os contratos chegaram a mostrar pela manhã aposta majoritária de queda da Selic em março, de 54%, ante 46% de possibilidade de manutenção no nível de 4,25%. À tarde, esse movimento refluiu um pouco, com a curva apontando 40% de probabilidade, ante 25% na sexta-feira. Para maio, há 35% de chance e em junho, 25%, de redução de 0,25 ponto. Os cálculos são do Haitong Banco de Investimentos.


Nos Departamentos Econômicos, as revisões para baixo no PIB e na Selic seguem a todo vapor e, assim, a mudança na mediana do PIB, de 2,20% para 2,17%, parece já atrasada. Hoje foi a vez do Asa Bank revisar sua estimativa de crescimento da economia este ano, de 2,0% para 1,5%, vendo agora três cortes de 0,25 ponto na Selic a partir de maio, com a taxa encerrando o ano em 3,50%.