Dólar cai 0,90% e fecha a R$ 5,4165 com apetite estrangeiro por ativo locais

Dólar cai 0,90% e fecha a R$ 5,4165 com apetite estrangeiro por ativo locais

Graças ao tombo recente, a moeda agora registra perdas de 2,86% em janeiro

AE

Dólar fechou o dia a R$ 5,4165

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O dólar à vista emendou na sessão desta quinta-feira o segundo pregão seguido de queda firme, em meio a relatos de fluxo de recursos externos para a Bolsa brasileira e para a renda fixa local, além de desmonte de posições compradas em dólar futuro (que ganham com a alta da moeda) por parte de fundos estrangeiros na B3.

Em baixa desde a manhã, em linha com as demais divisas emergentes, na esteira de mais corte de juros na China, o dólar à vista acelerou as perdas ao longo da tarde e chegou a romper o piso psicológico de R$ 5,40, em sintonia com nova máxima da bolsa. Na mínima, a moeda tocou R$ 5,3795 (menor valor intraday desde 4 de outubro), com operadores notando ordens de zeragem de posições.

A divisa até esboçava encerrar o dia abaixo de R$ 5,40, mas reduziu a queda no fim do pregão, com a aceleração do índice DXY - que mede a variação do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - para a casa dos 95,700 pontos, sobretudo por conta dos ganhos em relação ao euro.

No fim do dia, o dólar recuava 0,90%, a R$ 5,4165 - menor valor de fechamento desde 11 de novembro (R$ 5,4042). A queda acumulada nos últimos dois dias é de 2,65%. Graças ao tombo recente, a moeda agora registra perdas de 2,86% em janeiro. Ao lado do rand sul-africano, o real liderou nesta quinta o pelotão de ganhos de divisas emergentes em relação à moeda americana. Na B3, o dólar futuro para fevereiro recuou 0,39%, a R$ 5,43350, com giro de US$ 13,5 bilhões.

"O fluxo para a bolsa já vinha positivo desde o começo de janeiro, mas tem acelerado nos últimos dias com o efeito da China, que quer sustentar um certo crescimento. Isso tira uma percepção de risco maior que havia se criado em relação a emergentes, já que gera fator positivo de demanda por bens e commodities", afirma o economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima, ressaltando que os ativos locais estavam bem atrativos quando cotados em dólares.

Depois de reduzir a taxa de médio prazo (MLF) no início desta semana, o Banco do Povo da China (PBoC, o banco central chinês) cortou nesta quinta suas taxas de juros de referência (LPRs) para empréstimos de curto e longo prazos.

Lima também observa que há certa acomodação do mercado à expectativa do processo de normalização da política monetária pelo Federal Reserve, que acenou com início da alta de juros em março e comentou que pretende iniciar a redução de seu balanço patrimonial neste ano. "Já se sabe mais ou menos o que o Fed vai fazer. Talvez tenha até se exagerado um pouco na precificação da alta de juros. Agora, o mercado está se acomodando", diz.

O estrategista-chefe da Renascença DTVM, Sérgio Goldenstein, nota que houve uma forte redução das posições compradas em dólar (que ganham com a alta da moeda) de estrangeiros na B3 (cerca de US$ 7 bilhões), de 5 de janeiro para cá. "Essa redução em poucos dias é bastante significativa e está por trás da boa performance do real em janeiro", afirma Goldenstein, no Twitter. "Com a Selic mais alta, o carrego negativo do hedge na moeda começa a pesar mais".

Por ora, a onda de recuperação de divisas emergentes, dada a valorização das commodities, se sobrepõe às preocupações fiscais domésticas, com as pressões de funcionalismo por reajuste salarial em meio à espera pela sanção presidencial ao Orçamento de 2022, cujo prazo final é a sexta-feira.

Lima, da Western, observa que, levando em conta os fundamentos, é possível pensar em uma apreciação adicional da moeda brasileira. Ele chama a atenção, contudo, para as "idiossincrasias locais", como a corrida eleitoral para a presidência da República. "A taxa de câmbio ainda está em um nível depreciado e pode ir mais para baixo, pelos fundamentos. Mas não dá para descartar a volatilidade com o quadro doméstico e até por uma piora lá de fora, que não está afastada", diz.

Em evento promovido pelo banco Santander, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que a "polarização da eleição já afeta um pouco a volatilidade de câmbio", mas que o BC está preparado para agir se necessário. "Mas não achamos que volumes preestabelecidos de intervenção no câmbio são uma boa solução", disse Campos Neto.

Como programado, o BC realizou nesta quinta leilão de swap cambial para rolagem dos vencimentos de março e colocou a oferta total de 17 mil contratos, com valor de US$ 850 milhões.

Taxas de juros

Os juros futuros encerraram a sessão desta quinta-feira em queda firme, concentrada no trecho intermediário da curva, à medida que o mercado assimila os efeitos da baixa forte do dólar. Investidores acompanharam ainda as falas do presidente do Banco Central, na última hora da sessão regular, que trouxe um viés adicional de baixa às taxas.

Inicialmente, o mercado de DI teve uma reação morna a Campos Neto, mas começou a responder quando ele fez declarações sobre inflação e fiscal. No campo inflacionário, Campos Neto disse que os modelos do BC não encontraram aumento de inércia por maior persistência dos preços altos, mas reconheceu que maior inflação em 2021 trouxe maior contaminação para 2022.

Ele salientou ainda que o aumento de tarifas monitoradas tem sido menor do que se esperava. Na parte fiscal, ele voltou a argumentar que os resultados das contas públicas brasileiras no ano passado foram melhores do que os anteriormente projetados.

Toda a curva fechou na mínima da sessão regular, mas o ímpeto de baixa se reduziu na estendida, com a virada pontual do dólar futuro para o positivo. O DI para janeiro de 2023 recuou de 12,027% no ajuste de quarta-feira a 11,88% (regular) e 11,925% (estendida). O janeiro 2025 cedeu de 11,263% a 11,06% (regular) e 11,125% (estendida). E o janeiro 2027 caiu de 11,242% a 11,095% (regular) e 11,145% (estendida).

O mercado monitorou também falas do presidente Jair Bolsonaro da quarta à noite. O presidente voltou a colocar em dúvida a concessão de um aumento salarial generalizado. "Não tem folga no Orçamento para o corrente ano", disse.

A peça orçamentária tem de ser sancionada até a sexta e, nos bastidores de Brasília, o comentário é de que o reajuste deve ser dado somente às categorias policiais, como Bolsonaro havia articulado. Apesar da revolta que gerou, a percepção do governo é de que os movimentos de paralisação tiveram pouca adesão e que devem se dissipar.

Bolsa

Apoiado em boa parte desta quinta-feira por desempenho positivo das bolsas de Nova York - que no entanto perderam fôlego e viraram para o negativo na reta final -, pela primeira vez no ano o Ibovespa obtém a terceira alta consecutiva, elevando a referência da B3 ao maior nível de fechamento desde 20 de outubro, então aos 110,7 mil pontos.

Na véspera do vencimento de opções sobre ações, o índice subiu 1,01%, a 109.101,99 pontos, entre mínima de 108.014,50 e máxima de 109.873,35 pontos, com giro a R$ 35,4 bilhões. Foi a segunda sessão com ganho na casa de 1% para o Ibovespa, embora mais acomodado perto do fechamento, com a guinada em Nova York. Ainda assim, acumula agora avanço de 2,03% na semana e de 4,08% no mês.

Durante a sessão, conseguiu superar a importante barreira dos 109,4 mil pontos, sem conseguir sustentá-la no fechamento devido à piora em Wall Street. De acordo com análise gráfica do Itaú BBA, tal limiar é como um "divisor de águas" que pode "definir rali para a bolsa neste início de ano". "Caso isso aconteça, o potencial de subida está em 114.500, 121.300 e 132.000 pontos", acrescenta o texto, no qual se ressalva o momento menos favorável para o mercado americano, em viés de baixa desde a ata "hawkish" do Federal Reserve, do último dia 5. "Do lado da baixa, o índice Bovespa encontra suportes em 104.900, 103.300 e 100.000 pontos", destaca o relatório, dos analistas Fábio Perina e Lucas Piza.

"O mercado acompanhava a melhora do exterior, da Europa a Nova York. À tarde, a fala do Campos Neto (presidente do BC) sobre a curva de juros, que mostraria que o ciclo de alta está chegando ao fim, foi o suficiente para o mercado começar a entender que esse aperto monetário que o Banco Central vem fazendo pode estar efetivamente chegando ao fim", diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos.

"Assim, houve rotação de setores na sessão, com saída de materiais básicos em direção a setores mais atrasados e dependentes da economia doméstica, como os de consumo, imobiliário e construção civil", acrescenta, chamando atenção para as "small caps" performando acima do Ibovespa. "Em geral, os múltiplos mostram espaço para continuidade da recuperação (da Bolsa)."

No cenário macro, embora o "lado fiscal" permaneça "sensível", com o mercado ainda atento a "possíveis ruídos", os descontos acumulados na B3 e a recuperação até certo momento vista também em Nova York são positivos para a retomada da demanda por ações, com os investidores tendo recebido bem, desde a quarta-feira, a reiteração de que o líder nas pesquisas eleitorais para a presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, pretende ter como vice Geraldo Alckmin, em "aceno mais próximo do centro", observa em nota a Nova Futura Investimentos.

"Tendemos a comparar com as últimas eleições, quando o debate começou no centro e aos poucos foi se polarizando. Agora temos uma situação muito polarizada com alguns candidatos sinalizando que podem caminhar para o centro", disse nesta quinta, durante participação na Conferência Anual Latino-Americana do Santander, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em que comentou que a "polarização da eleição já afeta um pouco a volatilidade do câmbio". Nesta quinta, o dólar à vista oscilou abaixo de R$ 5,40, a R$ 5,3795 na mínima, mas fechou o dia a R$ 5,4165, ainda em queda, de 0,90%.

No melhor momento da tarde, durante a fala de Campos Neto, o Ibovespa buscou reaproximação dos 110 mil, aos 109.873,35 pontos, em alta de 1,72%, no maior nível intradia desde 21 de outubro, então aos 110.767,14 pontos. Comentários do presidente do BC sobre inflação e fiscal, durante o evento do Santander, contribuíam para colocar os juros nas mínimas do dia, pouco antes de a referência da B3 buscar novo topo para a sessão.

Na ponta do Ibovespa, destaque para mais um dia de recuperação para a Unit de Banco Inter, em alta de 13,16%, à frente de CVC (+10,47%) e de Petz (+9,71%) na sessão. No lado oposto, Carrefour Brasil cedeu 2,59%, Suzano, 2,49%, e Gerdau Metalúrgica, 1,73%. Entre as blue chips, Petrobras ON e PN fecharam respectivamente em alta de 0,64% e 0,73%, mesmo com oscilação para baixo no petróleo, em dia que se mostrou negativo para Vale (ON -1,70%) e para a maioria das ações de grandes bancos, à exceção de BB ON (+0,61%).


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