Dólar cai a R$ 5,62 após três dias seguidos de valorização

Dólar cai a R$ 5,62 após três dias seguidos de valorização

Ibovespa fechou nesta quarta-feira em alta de 1,09%, totalizando 94.603,38 pontos

AE

Ibovespa fechou nesta quarta-feira em alta de 1,09%, totalizando 94.603,38 pontos

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O dólar fechou setembro com valorização de 2,5%, segundo mês seguido de alta. Com isso, no ano, a moeda americana já sobe 40% e o real segue com o pior desempenho no mercado internacional, na frente da lira turca, onde o dólar tem alta de 30%. Nos nove meses de 2020, a divisa dos Estados Unidos só caiu em dois - maio e julho. Profissionais das mesas de câmbio destacam que a deterioração fiscal do Brasil e os juros muito baixos estão entre os fatores que seguem deixando o câmbio pressionado. Na reta final de 2020, as eleições americanas devem manter o dólar em alta no mercado internacional.

Nesta quarta-feira, final de mês e trimestre, o dólar teve um dia volátil, em meio aos ajustes das carteiras de final do período. Também pesou a disputa pela definição do referencial Ptax, usado em contratos cambiais e balanços corporativos. No encerramento, o dólar à vista fechou em baixa de 0,37%, a R$ 5,6185, após três dias seguidos de valorização. No mercado futuro, o dólar para novembro, que hoje passou a ser o contrato mais negociado, caiu 0,42%, em R$ R$ 5,6145.

Nas mesas de câmbio, profissionais destacam que sem detalhes concretos do financiamento do novo programa social do governo, o Renda Cidadã, o câmbio vai seguir pressionado e acima dos R$ 5,60. Na tarde de hoje, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o financiamento via precatórios não será feito e que essa não é uma fonte de financiamento "saudável, limpa, permanente e previsível". O ministro, porém, não deu maiores detalhes.

O analista de moedas do Canadian Imperial Bank of Commerce (CIBC), Luis Hurtado, destaca que a expectativa dos investidores é saber como será o financiamento dos programas sociais em 2021, em meio às preocupações com o aumento dos gastos para o ano que vem e o desvio em relação ao teto. Para o quarto trimestre, Hurtado observa que as incertas eleições americanas e o risco de uma segunda onda de coronavírus nos países desenvolvidos devem manter os investidores mais avessos ao risco, o que não deve favorecer as moedas de emergentes. A tendência é de valorização da moeda americana na América Latina nesta reta final de 2020, ressalta ele.

"A tendência continua de depreciação para o real", destaca o estrategista de moedas do banco de investimento Brown Brothers Harriman (BBH), Ilan Solot, ressaltando que o movimento não deve ser linear. Com notícias positivas sobre o ajuste fiscal, o real pode ganhar força.

A agência de classificação de risco S&P Global Ratings espera que o dólar continue na casa dos R$ 5,00 ao menos até 2023. Hoje, os analistas da S&P melhoraram a previsão de desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2020, de queda de 7% para retração de 5,8%. Mas alertam que com o cenário fiscal "desafiador", o País vai precisar "retirar rapidamente" os estímulos extraordinários adotados até agora.

Bolsa

A sessão positiva em Nova York contribuiu para que o Ibovespa interrompesse série de três perdas diárias neste fechamento de mês e trimestre. Logo na primeira etapa, a guinada veio de indicações do secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, que alimentaram a expectativa do mercado por um acordo sobre estímulos fiscais ainda nesta semana - o impulso, contudo, foi perdendo força ao longo do dia, com ganhos na faixa de 0,74% (Nasdaq) a 1,20% (Dow Jones) no fechamento.

O relativo otimismo deixou em segundo plano o acirrado debate Trump-Biden da noite anterior, recebido por analistas políticos como um fenômeno sem precedentes na concorrida vida republicana dos EUA. Aqui, o mercado aproveitou o bom humor externo para esquecer um pouco a recém-descoberta relação entre precatórios, Fundeb e Renda Cidadã, que pode agravar a situação fiscal.

Entre os principais indicadores do dia, destaque para o Caged, com saldo positivo de 249.388 vagas de trabalho em agosto, em contribuição de todos os setores da economia. Na entrevista sobre os resultados, participação-surpresa do ministro da Economia, Paulo Guedes, que aproveitou a oportunidade para dizer que o governo Bolsonaro encontrou "eixo político" este ano - repetindo palavra, "política", em recente evidência na retórica pessoal. "Acordos políticos estão sendo costurados. O líder do governo avisou que há consenso em ir avançando no pacto federativo", disse o ministro.

Assim, com o copo pela metade e em ajuste de fim de período, o Ibovespa fechou nesta quarta-feira em alta de 1,09%, a 94.603,38 pontos, entre mínima de 93.584,12 e máxima de 95.340,12 na sessão, acumulando perda de 4,80% em setembro, após retração de 3,44% em agosto. No trimestre, passou do positivo em julho (+8,27%) ao negativo em agosto e setembro, acumulando no intervalo de três meses leve perda de 0,48%, após salto de 30,18% no segundo trimestre, quando havia saído de 73.019,76 pontos em 31 de março para 95.055,82 pontos em 30 de junho - em porcentual, o melhor desempenho trimestral desde os últimos três meses de 2003.

Naquele encerramento de trimestre, o Ibovespa começava a parecer indeciso, na faixa de 94 mil a 97,7 mil pontos - semelhante a de agora -, mas encontrou ímpeto para buscar os 100 mil, atingindo a marca pouco depois, nos dias 9 (intradia) e 10 de julho (fechamento), sustentando-se sem interrupções na faixa de seis dígitos entre 15 de julho e 14 de agosto. Após ceder a 99.595,41 no fechamento de 17 de agosto, recuperou logo no dia seguinte o nível de 100 mil que, entre idas e vindas, não seria mais visto desde 18 de setembro. No pico do recente ciclo de recuperação - iniciado em abril e, desde agosto, em fadiga -, o Ibovespa foi aos 105.703,62 pontos no intradia de 29 de julho - no fechamento, também a melhor marca do período, de 105.605,17 pontos. No ano, o índice cede agora 18,20%.

"Abaixo dos 97 mil, o viés para o índice se mantém negativo, com as próximas regiões de suporte agora aos 93,2 mil e 92,2 mil pontos. Andamos hoje com o exterior, na expectativa pelo pacote fiscal nos EUA, mas o mercado aqui permanece com o pé atrás, principalmente pela situação fiscal doméstica", diz Rodrigo Barreto, analista gráfico na Necton. "Os inícios de mês costumam ter um movimento de compras e, com fechamento de trimestre, há troca nas carteiras - mas isso é mais intenso nas viradas de semestre, com os fundos, do que nas de trimestre", acrescenta Barreto.

Nesta última sessão do trimestre, com giro financeiro a R$ 24,3 bilhões, os ganhos se distribuíram por empresas e setores, como commodities (Petrobras PN +1,55%), siderurgia (CSN +7,70%, maior alta do Ibovespa) e bancos (Santander +3,21%). Logo após CSN na ponta do índice, destaque para Raia Drogasil (+6,79%), Qualicorp (+5,13%), Minerva (+4,63%) e Gerdau Metalúrgica (+3,75%). No lado oposto, Suzano caiu hoje 3,23%, à frente de Ultrapar (-2,23%) e Equatorial (-1,99%).

Juros

Os juros futuros deram uma trégua no último dia do mês, também marcado pelo término do trimestre, com o fechamento da curva após dois dias de alta com o estresse gerado pela estratégia do governo para custear o Renda Cidadã, programa que deve substituir o Bolsa Família. O movimento não é um sinal de que o mercado está fazendo as pazes com Brasília, mas resulta de um ajuste técnico diante da percepção de que as taxas estavam muito elevadas, além do bom humor externo e tentativas da equipe econômica de reforçar o compromisso fiscal. Apesar disso, os juros futuros encerram o segundo mês consecutivo com abertura das taxas na curva, o que não se via desde maio de 2018, na época da greve dos caminhoneiros no Brasil.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou o último dia do mês em 3,05%, de 3,174% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 terminou em 4,51%, de 4,665% ontem no ajuste. O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 6,50% (6,625% ontem) e o para janeiro de 2027, em 7,48%, de 7,604%. Para se ter ideia, este último havia encerrado julho com taxa de 7,19% e no último dia de agosto marcou 7,41%.

"Com o fechamento do mês e da Ptax, importante para empresas que têm receitas e despesas em dólar, as curvas reagiram bem à calmaria de Brasília e ao aumento do prêmio de risco nos últimos dois dias", diz o analista de Renda Fixa da Eleven Financial, Felipe Beckel. "Trata-se de um ajuste técnico porque o movimento dos últimos dias foi muito intenso e o mercado entendeu que talvez não tenha força para continuar porque a maior pressão já ocorreu".

Somado aos fatores locais, o clima externo positivo ajudou no recuo das taxas e o mercado tentou adotar uma postura mais "racional" após o estresse gerado pelo financiamento do Renda Cidadã, em meio ainda a declarações otimistas do ministro da Economia, Paulo Guedes, e a geração de vagas no Caged acima do esperado, de acordo com o gerente da Mesa de Reais da CM Capital Markets, Jefferson Lima. "Tivemos Guedes à tarde defendendo o teto de gastos e as reformas, o que deu um pouco mais de força à queda das taxas", afirmou.

Sobre o Renda Cidadã, Guedes disse hoje que o financiamento não será feito com o dinheiro reservado no Orçamento para o pagamento de precatórios, e que essa não é uma fonte de recursos "saudável, limpa, permanente e previsível". "Ligaram uma coisa a outra, estávamos estudando a redução das despesas com precatórios e disseram esse estudo aqui é para fazer o financiamento de um programa populista. Não é. Não há essa ligação direta", afirmou.

O ministro da Economia também destacou que é necessário um programa social bem financiado, ou seja, por meio de uma receita permanente. "Não pode ser financiado com puxadinho, ajuste. Não é assim que se financia o Renda Cidadã, é com receita permanente", reforçou Guedes.

Para o economista do BTG Pactual digital, Álvaro Frasson, a declaração do ministro da Economia coloca o Renda Cidadã como um 'anúncio ioiô', vai e volta, mas "ajudou bastante" os juros futuros, cujas taxas recuaram hoje. "Primeiro, o discurso em si mostra que o financiamento do programa não será bem assim. E, segundo, o fato de o Paulo Guedes falar", justifica. "O mercado estava carente de uma fala mais incisiva e pública do ministro dentro da linha de responsabilidade fiscal".


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