Dólar cai pelo quarto pregão seguido e acumula baixa de 2,10% na semana

Dólar cai pelo quarto pregão seguido e acumula baixa de 2,10% na semana

Moeda americana terminou o dia cotado a R$ 5,51

AE

Dólar encerra esta semana com desvalorização de 2,10%

publicidade

Após trabalhar em leve alta durante praticamente toda a sessão, o dólar à vista perdeu força no fim do dia e emendou nesta sexta-feira o quarto pregão consecutivo de queda. Lá fora, a moeda norte-americana subiu frente a pares fortes, em correção após as baixas recentes, e apresentou comportamento misto na comparação com divisas emergentes. Com renovação de sucessivas mínimas na última hora de negócios, quando tocou momentaneamente a linha de R$ 5,50 (R$ 5,5087), a moeda fechou com perda de 0,29%, a R$ 5,5132 - menor valor de fechamento desde 16 de novembro (R$ 5,4997). Assim, o dólar encerra esta semana com desvalorização de 2,10%.

Analistas veem a perda de fôlego global da moeda americana ao longo desta semana como principal catalisador da apreciação real. Declarações do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, e o índice dos EUA de inflação ao consumidor (CPI) em dezembro em linha com o esperado desarmaram apostas mais pessimistas em torno do ritmo de normalização da política monetária americana.

O BC dos EUA vai encerrar o programa de compra de ativos e, provavelmente, iniciar a alta de juros em março, promovendo entre três e quatro elevações em 2022. Mas a eventual redução do balanço patrimonial da instituição, que representa retirada de liquidez do sistema, deve ficar apenas para o fim deste ano. Embora tenha subido nesta sexta, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - desceu, nos últimos dias, de um patamar superior a 96 mil pontos para algo ao redor dos 95,200 pontos.

Por aqui, pesaram a favor do real, segundo analistas, as captações de empresas com emissão de títulos no exterior, a internalização de recursos por exportadores e a volta do apetite do investidores estrangeiros por operações de carry trade (que exploram o diferencial entre juros internos e externos). Além de aumentar a atratividade da renda fixa local, a taxa de juros doméstica mais elevada também aumenta o custo do hedge e desencoraja apostas mais contundentes contra o real.

"Hoje é um dia bem interessante. Com as bolsas em Nova York caindo e o Ibovespa subindo. Tem muito capital mal alocado em ativos estrangeiros que pode acabar voltando para cá", afirma o diretor de Inversa Publicações, Rodrigo Natali, ressaltando que o estoque de posições de brasileiros em BDRs (recibos de ações de empresas estrangeiras negociados na B3) e em fundos de BDRs fechou 2021 em R$ 32 bilhões. "As pessoas criaram a percepção de que comprar ação lá fora não tem risco. Mas o risco é duplo, da ação e cambial. Não deixa de ser uma posição comprada em dólar (que ganha quando a moeda americana sobe)."

Natali também nota o retorno do interesse de estrangeiros por operações de <i>carry trade</i>, dados os juros domésticos elevados e uma diminuição da volatilidade da taxa de câmbio. "Talvez porque o mercado americano, que está operando de lado, não ofereça mais tantas oportunidades. Podemos ver o real voltar a ter uma boa performance", diz Natali, acrescentando que não há mais a pressão do <i>overhedge</i> dos bancos e que os exportadores podem voltar a internalizar recursos.

Se não são suficientes ainda para fazer o dólar trabalhar abaixo de R$ 5,50, esses fatores impedem, por ora, que a taxa de câmbio se situe perto de R$ 5,70. Não fossem a questões fiscais domésticas, com demanda do funcionalismo por reajuste salarial, e a aparente inviabilidade de uma candidatura da terceira via no pleito presidencial, o real poderia se fortalecer ainda mais, dizem analistas.

Em campanha por reajuste salarial, servidores dos Três Poderes programaram paralisação para a próxima terça-feira, dia 18. Segundo fontes ouvidas pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), o ministério da Economia quer "segurar a chave do cofre" até o dia 4 de abril, a partir de quando, pela lei eleitoral, segundo parecer da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), fica vedada a concessão de reajustes.

"A pressão pelo reajuste dos salários dos servidores e consequente impacto fiscal deve continuar no radar dos mercados e pode prejudicar esse alívio momentâneo que estamos vendo no câmbio", afirma a economista Cristiane Quartarolli, especialista em câmbio do Banco Ourinvest, acrescentando que pode haver também nova rodada de pressão contra divisas emergentes, diante da expectativa de alta dos juros nos EUA.

Entre os indicadores domésticos, o IBGE informou que as vendas do comércio varejista subiram 0,6% em novembro ante outubro (com ajuste sazonal). O resultado veio perto do teto do intervalo das estimativas dos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que esperavam desde uma queda de 2,8% a alta de 0,7%, com mediana estável (0,0%).

Juros

Os juros futuros terminaram em leve alta a sessão desta sexta-feira. O movimento perdeu força na maioria dos contratos no fechamento dos negócios, na medida em que o dólar se firmava em baixa ante o real, para fechar a R$ 5,5132. O mercado ponderou fatores em várias direções, como a recomposição dos juros dos Treasuries, dados fracos da economia americana, o câmbio aqui bem comportado e o risco fiscal, além das vendas do varejo acima do consenso, embora nenhum deles tenha se destacado para dar uma direção firme para as taxas.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou em 11,94% (regular) e 11,95% (estendida), de 11,927% na quinta-feira, e a do DI para janeiro de 2025 passou de 11,183% para 11,225% (regular) e 11,255% (estendida). A taxa do DI para janeiro de 2027 fechou a regular estável em 11,13%, mas subiu a 11,18% na estendida.

Na primeira etapa, o sinal de alta das taxas era mais firme, com a curva acompanhando a avanço do dólar e dos juros dos Treasuries, mas o movimento perdeu força quando saíram os indicadores da indústria e varejo abaixo do esperado nos Estados Unidos no fim da manhã. Por aqui, ao contrário, as vendas do varejo em novembro, a exemplo do que foram na quinta os Serviços, surpreendeu positivamente, mostrando expansão perto do teto das estimativas, quando as medianas apontavam para retração no caso do varejo ampliado e estabilidade para o restrito.

Contudo, não mudaram substancialmente a perspectiva para a atividade nem cenário de apostas para a Selic. Ambos os indicadores, na melhor das hipóteses, devem melhorar o viés pessimista para o PIB do quarto trimestre. "Apesar do número cheio ter superado boa parte das previsões, olhando o qualitativo, há apreensão e não altera a expectativa futura", resumiu Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos.

Para Abdelmalack, o mercado de juros operou mais a partir da dinâmica externa e com as preocupações fiscais. "Temos os juros dos Treasuries acelerando com os discursos do Fed confirmando a iminência da elevação dos juros e promovendo abertura da curva aqui, além da cautela com as paralisações de servidores na próxima semana", comentou.

Bolsa

Mesmo com Nova York, na maior parte da sessão, dando prosseguimento à tendência negativa que se instalou desde os sinais de guinada 'hawkish' no dia 5 na política monetária dos Estados Unidos, o Ibovespa conseguiu fechar na casa dos 106 mil pontos pela primeira vez no ano, atingindo assim seu melhor nível de fechamento desde 17 de dezembro (107.200,56 pontos), em dia favorável tanto no câmbio, com o dólar em baixa de 0,29%, a R$ 5,5132 no fechamento, como na curva de juros doméstica. No melhor momento, raspou e depois retomou os 107 mil pontos, em patamar não visto desde 20 de dezembro, quando saiu de 107.171,21 naquela abertura.

Assim, a referência da B3 subiu nesta sexta-feira 1,33%, aos 106.927,79 pontos, entre mínima de 105.028,27 e máxima de 107.061,73 pontos, com abertura a 105.530,43 pontos. O giro foi de R$ 31,4 bilhões e, na semana, o Ibovespa acumulou ganho de 4,10%, vindo de perdas de 2,01% e de 0,07% nas duas anteriores, e de 2,15% e de 0,52% nas duas últimas de 2021 - ao todo, quatro semanas de retração.

Agora, teve o melhor desempenho semanal desde o intervalo entre 1º e 5 de março de 2021, quando havia avançado 4,70%. No mês e no ano, o Ibovespa acumula ganho de 2,01%, fechando a primeira quinzena de janeiro no positivo, após largada bem negativa em 2022, com perdas nas três primeiras sessões.

Com o petróleo em alta nesta sexta-feira, o desempenho de Petrobras (ON +2,10%, PN +3,73%) mais uma vez deu impulso à referência da B3, apoiada também no avanço das ações de bancos, como BB ON (+2,56%) e Bradesco PN (+1,61%). À tarde o índice ganhou ímpeto, renovando inicialmente máximas acima de 1% na sessão, com Vale revertendo ao positivo (ON +0,58%), enquanto o setor de siderurgia também limitava perdas e em parte passava ao positivo (Usiminas PNA +0,49%).

Os contratos futuros de petróleo fecharam em alta nesta sexta, encerrando semana de ganhos para o barril, marcada por menor preocupação com os impactos da variante Ômicron do coronavírus para a demanda. No atual estágio, nova liberação de reservas é discutida por países consumidores, com destaque para a China, que registrou um aumento nas importações de petróleo em dezembro.

Aqui, "o mercado seguiu descolado de Nova York, acompanhando dados de varejo pela manhã, melhores do que a expectativa, e também com certa acalmada na questão econômica, com reflexo nos juros, a curva fechando um pouquinho. E as ações de bancos, que estavam muito depreciadas, subiram hoje com resultados de bancos americanos, alguns um pouco melhores, mas em geral mistos - nossa temporada de balanços começa no final desse mês", diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos, que chama atenção para a diminuição do fluxo vendedor, principalmente dos fundos. "Houve diminuição daquela onda de resgates que vimos no final do ano passado, o que tira um pouco da pressão. Como nossa Bolsa vem com um desconto bastante expressivo, está dando essa oportunidade de melhorar", acrescenta.

"O descolamento brasileiro veio da surpresa positiva do varejo, com crescimento acima do esperado, e que, embora pequeno, de 0,6% (em novembro ante outubro), resulta em otimismo na Bolsa, enquanto o exterior segue em ajuste, especialmente no setor de tecnologia", diz Davi Lelis, sócio da Valor Investimentos. Ao fim, S&P 500 (+0,08%) e Nasdaq (+0,59%) mudaram de sinal em Nova York, mas ainda acumulando perdas de 2,17% e 4,80%, respectivamente, no mês.

No Brasil, a melhora no desempenho do varejo na passagem de outubro para novembro fez o volume de vendas ficar 1,2% acima do nível de fevereiro de 2020, no pré-pandemia. No varejo ampliado, que inclui as atividades de veículos e material de construção, as vendas operam 1,9% aquém do pré-pandemia. Na ponta do Ibovespa nesta sexta-feira, destaque para Banco Inter (Unit +7,92%), BR Malls (+7,01%), Banco Pan (+6,13%) e WEG (+6,04%). No lado oposto, Locaweb (-4,11%), Positivo (-3,87%) e Alpargatas (-3,31%).


publicidade

publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895