Dólar cai pelo segundo dia consecutivo e bolsa renova recorde
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Dólar cai pelo segundo dia consecutivo e bolsa renova recorde

Moeda americana fechou a R$ 4,03 com o clima de aprovação da reforma da Previdência

Por
AE

A alta do Ibovespa foi modesta, de 0,15%

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A aprovação da reforma da Previdência no Senado Federal alimentou o otimismo do mercado e renovou as expectativas de que novos recursos estrangeiros comecem a entrar no País, destacadamente com o leilão do excedente da cessão onerosa, marcado para 6 de novembro. O clima garantiu o segundo dia de queda firme do dólar frente o real e derrubou o câmbio ao menor nível em dois meses, desde 21 de agosto, além da renovação do recorde da bolsa de valores. No final do pregão desta quarta-feira, o dólar era cotado aos R$ 4,0328, uma queda de 1,05%.

Somente nos três primeiros dias dessa semana, o otimismo garantiu uma queda de 2,08% do dólar frente ao real. Na mínima da semana, marcada nesta quarta, chegou a tocar os R$ 4,0296, bem distantes dos R$ 4,12 da abertura da semana.

Os analistas apontam que os investidores começam a se programar para a entrada de um volume maciço de dólares no País com o leilão do excedente dos barris da cessão onerosa. Além disso, há uma expectativa de que, pós-reforma da Previdência, o apetite pelo Brasil aumente e o programa de concessões e privatizações ambicioso do governo traga o investidor estrangeiro.

"A cessão onerosa marcada para novembro gera expectativa favorável. Big players que vão disputar os leilões devem fazer ofertas expressivas. São recursos de capital estratégico, para médio e longo prazo", apontou o estrategista da All Investimentos, Henrique Bousquat, completando: "Quem estava 'comprado' em dólar, uma série de investidores institucionais, fundos de pensão, tesourarias de bancos e empresas, áreas de asset, está repensando a estratégia".

Para operadores ouvidos pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, após perder os R$ 4,05, o câmbio tenta agora encontrar um novo patamar. A virada se deu no meio da tarde, após dados positivos do fluxo cambial darem gás às expectativas do mercado e levarem o dólar a renovar sucessivas mínimas frente ao real.

Segundo o Banco Central, de 14 a 18 de outubro o fluxo cambial no país ficou positivo em US$ 634 milhões. Para o economista e sócio da Journey Capital, Victor Candido, no entanto, ainda é prematuro afirmar que o movimento é duradouro e lembrou que, no ano, o número ainda é muito negativo. Entre janeiro e outubro, o saldo é negativo em US$ 19,19 bilhões.

Para o operador da Intercam, Glauber Romano, há no mercado uma percepção de que o risco Brasil caiu nos últimos dias. Ele ponderou, no entanto, que após dois dias seguidos de queda significativa ante o real o dólar pode ter um dia de alta nesta quinta.

Lá fora, após um dia de quedas quase generalizadas na terça, o dólar teve sinal misto ante emergentes: caía ante México e Turquia e subia frente a Chile, África do Sul e Argentina. Ditam o humor internacional nos últimos dias as notícias sobre o acordo entre China e Estados Unidos e sobre o fim que levará a saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit.

Ibovespa

O bom desempenho das ações do setor financeiro e das ações da Petrobras garantiu mais uma alta do Índice Bovespa, que renovou seu recorde histórico nesta quarta-feira, pelo terceiro pregão consecutivo. Um dia após a votação que aprovou a reforma da Previdência, diversos grupos de ações ingressaram em um movimento de realização de lucros, o que não aconteceu com os papéis dos bancos e da estatal petroleira, que seguiram avançando. Nesse ambiente diverso, a alta do Ibovespa foi modesta, de 0,15%, aos 107.543,59 pontos.

A tramitação da reforma foi concluída nesta quarta no Senado, com algumas alterações no texto aprovado na terça, que não comprometeram o impacto fiscal de R$ 800,3 bilhões previsto para os próximos dez anos. Apesar do indubitável bom humor dos investidores com o desfecho de uma tramitação que durou oito meses, os movimentos de realização de lucros permearam todo o pregão. Assim, o Ibovespa alternou altas e baixas algumas vezes desde a abertura, marcando mínima aos 107.040,79 Pontos (-0,32%) e máxima aos 107.958,82 pontos (+0,54%).

A visão de um cenário econômico mais promissor para 2020 seguiu dando o tom do humor dos investidores, com a ressalva dos analistas de que a lista de tarefas para o país avançar na questão fiscal vai bem além da reforma da Previdência.

"A combinação de baixas taxas de juros, ambiente de inflação moderado e reforma econômica pragmática faz do Brasil um dos mercados de ações mais atraentes da América Latina. A economia está em transição por meio de uma série de mudanças econômicas estruturais que devem levar a um crescimento mais sustentável daqui para frente. O País ainda precisa de reformas adicionais para avançar", disse Ed Kuczma, gestor de recursos para fundos da América Latina da Black Rock.

Entre as principais referências do mercado para os próximos dias, que já influenciam os preços das ações, está o início da safra de balanços do terceiro trimestre. A perspectiva positiva justifica em parte o bom desempenho das ações da Petrobras, que divulga resultados nesta quinta e para os quais as estimativas são positivas. Ao final do pregão, os papéis da estatal tiveram altas de 0,48% (ON) e 1,33% (PN). O mesmo raciocínio serve para os bancos, que tiveram entre os destaques as units do Santander (+2,09%), Itaú Unibanco (+1,42%) e Bradesco PN (+0,86%).

Com o resultado desta quarta, o Ibovespa passa a contabilizar alta de 2,69% na semana e de 2,67% no acumulado de outubro. Na última segunda-feira (21), véspera da votação da reforma da Previdência no Senado, os investidores estrangeiros ingressaram com R$ 372,290 milhões na B3. Naquele dia, o Ibovespa fechou em alta de 1,23%, aos 106.022,28 pontos, com giro financeiro de R$ 18,8 bilhões, em dia de vencimento de opções sobre ações. Em outubro, os investimentos estrangeiros registram um saldo negativo de R$ 11,117 bilhões.

Taxas de juros

A aprovação da reforma da Previdência no Senado, sem desidratação adicional ao texto que passou pela Câmara, reforçou o movimento de desinclinação da curva de juros visto pela manhã desta quarta-feira, com as taxas longas acelerando a queda e renovando mínimas, junto com o dólar que passou a ser negociado na casa dos R$ 4,03, até abaixo disso nas mínimas. Em boa medida o resultado já estava precificado, mas, de todo modo, o mercado vê a conclusão do processo como um divisor de águas a partir do qual a pauta econômica deve destravar e gerar crescimento para o País, atraindo fluxo.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou com taxa de 4,50%, na mínima, de 4,537% terça no ajuste. O DI para janeiro de 2023 fechou com taxa de 5,46%, de 5,520% e a do DI para janeiro de 2025 caiu de 6,201% para 6,13%.

Após aprovar na terça o texto principal por 60 a 19, nesta quinta o plenário analisou os destaques à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) e concluiu a votação no começo da tarde. Destaques que ameaçavam reduzir a potência fiscal foram retirados e, com isso, foi mantida a perspectiva de economia de R$ 800,3 bilhões em dez anos.

"Tinha muita gente esperando concretizar a reforma da Previdência para trazer fluxo e agora esta 'novela mexicana' chegou ao fim", observou o estrategista de Mercados da Harrison Investimentos, Renan Sujii, acrescentando que agora as atenções se voltam para quais serão os focos do governo e a vontade do Congresso, "que está pautando muito mais do que o Executivo".

A maior expectativa gira em torno das medidas para fomentar o crescimento. "Esperamos que as autoridades continuem avançando com a agenda de reformas estruturais à medida que buscam melhorar o crescimento sustentado nos próximos anos, encorajando investimentos do setor privado em infraestrutura e a simplificação o regime tributário", afirmou a vice-presidente da Moody's e analista sênior para o Brasil, Samar Maziad, em nota para comentar a aprovação da Previdência.

À tarde, o dólar acelerou o ritmo de queda para a casa dos R$ 4,03, carregando junto as taxas, em especial as longas para as mínimas. A moeda fechou o dia em R$ 4,0328 (-1,05%), menor nível desde 21 de agosto. Com isso, houve reforço no movimento de redução de inclinação da curva visto já pela manhã.