Dólar encerra cotado a R$ 5,14, com queda na contramão da tendência global

Dólar encerra cotado a R$ 5,14, com queda na contramão da tendência global

Moeda norte-americana baixou 0,08% em relação ao dia anterior

AE

O dólar até abriu em alta e chegou a tocar no patamar de R$ 5,20

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A onda de valorização global da moeda norte-americana, em meio a um forte movimento de liquidação de ativos de risco, não se traduziu em corrida pelo dólar no mercado doméstico de câmbio, como se podia esperar. Segundo operadores, o tom positivo da bolsa brasileira, em um possível movimento de rotação de carteiras, e a valorização de algumas commodities agrícolas deram certo suporte a moeda brasileira. Houve também relatos de redução de posições defensivas no mercado futuro e de entrada de exportadores, especialmente pela manhã.

O dólar até abriu em alta e chegou a tocar no patamar de R$ 5,20 nos primeiros negócios, ao atingir máxima a R$ 5,2096. Mas perdeu fôlego logo em seguida e desceu até a mínima de R$ 5,1073. Mesmo com as bolsas em Nova York tendo amargado perdas superiores a 1% em certos momentos e a moeda americana batendo máximas contra o euro, o dólar não foi capaz de apresentar um desempenho robusto por aqui. Alternando entre ligeiras altas e baixas na última hora da sessão, no fim do dia a moeda era cotada a R$ 5,1405, em queda de 0,08%. Na semana, a divisa acumula valorização de 1,28%, o que leva os ganhos em maio para 4%. Em 2022, o dólar apresenta perda de 7,81%.

"O dólar trabalhou em queda à tarde muito por conta da alta do Ibovespa. Vimos balanços do setor financeiro bem positivos", afirma o head de câmbio da SVN, Renan Mazzo, ressaltando que a moeda americana já acumula uma alta forte frente ao real.

Entre as demais divisas emergentes, apenas o peso mexicano mostrou fôlego similar ao do real, na esteira da decisão do Banco Central do México de elevar a taxa de juros em 0,50 ponto porcentual, para 7% ao ano. As maiores perdas ficaram para as moedas do leste europeu, como florim húngaro e o zloty polonês, em razão do recrudescimento das tensões geopolíticas na região. Os atritos entre Rússia e Ocidente se agravam com a perspectiva de que Finlândia e Suécia aderirem à Otan.

O índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - chegou a subir mais de 1% e registrar máxima aos 104,925 pontos, graças sobretudo ao tombo do euro. Isso a despeito de declarações mais duras dirigentes do Banco Central Europeu (BCE). As taxas dos Treasuries caíram em bloco, com a T-note de 10 anos trabalhando na faixa de 2,80%, em claro sintoma de fuga para a qualidade.

A aversão ao risco e a volatilidade extremada dos mercados tem como pano de fundo a possibilidade de perda de fôlego da economia global em meio a aperto monetário nos países desenvolvidos, sobretudo nos EUA, para conter a inflação. Nos Estados Unidos, o índice de preços ao produtor (PPI) em abril, divulgado pela manhã, veio em linha com as expectativas, mas o resultado de março foi revisado para cima, de 1,4% para 1,6%. Na comparação anual, o PPI subiu 11%, um nível muito elevado. Embora haja a leitura de que a inflação nos EUA possa ter atingido seu pico, é dado como certo que o Federal Reserve terá que promover altas consecutivas da taxa de juros e até mesmo levar a política monetária a campo restritivo.

Após alívio com redução expressiva de casos de covid na China na quarta, voltaram à baila nesta quinta temores de que desaceleração mais acentuada da economia chinesa, em meio à política covid-zero que sustenta medidas restritivas em Xangai. Foram reportados dois novos casos de covid fora do centro de isolamento administrado pelo governo chinês.

O economista-chefe do Banco Original, Marco Caruso, não vê um gatilho específico para o movimento mais forte de fuga do risco nesta quinta, argumentando que não houve fatos novos. "O impacto do lockdown na China, a alta de juros nos Estados Unidos e essa questão mais cedo de Finlândia e Suécia na Otan não são uma surpresa", afirma.

Apesar de o real tenha se portado bem nesta quinta, Caruso vê um cenário de alta do dólar por aqui nos próximos meses e taxa de câmbio a R$ 5,50 no fim do ano, embora diga estar um pouco menos "confortável" com essa previsão. Três são os propulsores do dólar, segundo Caruso. O primeiro, e mais relevante, é a alta de juros nos Estados Unidos. O economista do Original ressalta que, para segurar a inflação, a taxa americana deveria ir para cerca de 4% ou 4,5%, bem acima do nível neutro. Também joga contra a moeda brasileira a possibilidade de uma acomodação dos preços das commodities (que dispararam com a guerra na Ucrânia), com a desaceleração da economia global e menos demanda chinesa. E o terceiro fator, de menor impacto, são as eleições presidenciais, que podem provocar turbulências e aumentar o risco-país.

"Meu conforto com essa previsão de R$ 5,50 diminuiu porque o Fed, após a fala de Powell (Jerome Powell, presidente do BC americano) descartando alta de 75 pontos-base, pode fazer um ajuste mais lento da política monetária para não descarrilar os mercados", diz Caruso, acrescentando que certos gargalos de oferta fazem com que a acomodação dos preços das commodities seja mais lenta.

Por ora, Caruso argumenta que a taxa de juros doméstica elevada ainda dá certa sustentação ao real, ao tornar muito custoso o carregamento de posições compradas em dólar. Além disso, caso o Fed opte por seguir com altas de 50 pontos-base da taxa básica americana, o diferencial de juros local e externo vai se estreitar mais devagar. O economista trabalha com fim do ciclo do aperto monetário por aqui em junho, com uma alta da Selic em 0,50 ponto porcentual, para 13,25%. "O Copom deve dizer que quer tecnicamente parar para olhar o impacto do aperto na inflação. O juro deve ficar nesse patamar por um bom tempo", afirma.

Taxas de juros

Os juros futuros fecharam a quinta-feira em alta. Pela manhã, até ensaiaram correção do avanço de quarta-feira, na esteira da queda nos preços do petróleo e da melhora do câmbio, mas que não teve sequência na etapa vespertina. As taxas zeraram o sinal de baixa, que já era discreto, e passaram a oscilar em alta, renovando máximas a poucos minutos do término da sessão regular, na medida em que crescia ao longo do dia o temor de estagflação global.

Internamente, a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) mostrou resultado bem acima do consenso das estimativas, um dia depois do IPCA ter surpreendido negativamente. Em meio ao clima de cautela nos mercados, o Tesouro trouxe lotes menores de prefixados e ainda assim não conseguiu colocar todo a oferta dos papéis mais longos.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023, o mais líquido, terminou a etapa regular em 13,40%, de 13,334% no ajuste anterior. A do DI para janeiro de 2024 subiu de 13,046% para 13,16%, e a do DI para janeiro de 2025, de 12,44% para 12,52%. O DI para janeiro de 2027 tinha taxa de 12,36%, de 12,305%.

A inflação no atacado nos Estados Unidos de abril até veio dentro do esperado, mas não serviu de consolo para tranquilizar o mercado em relação a um aperto monetário mais forte pelo Federal Reserve, o que tem potencial para enfraquecer a economia americana. Além disso, a China dá sinais de perda de fôlego em função dos lockdowns para controlar a onda de covid-19 e a Europa sofre com a guerra na Ucrânia.

Nesse contexto, investidores buscaram a segurança dos Treasuries e do dólar, fugindo de ativos de risco. A taxa da T-Note de dez anos vai se afastando da marca de 3%, marcando 2,85% no fim da tarde, mas no Brasil o real esteve bem comportado, oscilando ao redor da estabilidade durante a tarde.

O operador de renda fixa da Nova Futura André Alírio disse que mesmo com os yields dos Treasuries em baixa a curva brasileira acaba sofrendo pela leitura do que está por trás do movimento. "O Banco Central entrou num ajuste fino da política monetária que vai depender muito das ações do Fed, que parece que vai agir de forma contundente contra a inflação", afirmou Alírio, para quem, no entanto, a expectativa são várias altas de 50 pontos-base e não de aceleração para 75 pontos. "Até que fique claro para onde vai o Fed, os mercados vão ficar testando limites", completou.

No Brasil, a leitura do IPCA de abril acima do consenso continuou fazendo preço nesta quinta na curva, o que, somado aos dados de atividade da semana, que surpreenderam positivamente, sugere que a economia ainda não sente, ou sente muito pouco, os efeitos do aperto da política monetária do Banco Central. Nesta quinta, o IBGE informou que o volume de serviços em abril avançou 1,7%, ante mediana de +0,8%.

"Para o segundo trimestre, a atividade deve começar a sentir ainda mais os efeitos de uma política monetária contracionista, embora parte do consumo seja sustentado pela distribuição de uma parcela de FGTS e adiantamento do 13º salário dos aposentados, tanto no varejo quanto nos serviços", afirmam os economistas do Banco original.

Em meio ao ambiente pesado no exterior, o Tesouro reduziu a oferta de LTN no leilão desta quinta-feira de 11,5 milhões na semana passada para 8 milhões, vendida integralmente. Manteve o lote de 300 mil NTN-F, mas vendeu apenas 180 mil.

Bolsa

O Ibovespa oscilou em torno dos 105 mil pontos ao longo da tarde, emendando o segundo dia de recuperação apesar do desempenho negativo em Nova York na maior parte da sessão, bem moderado à faixa de 0,13% (S&P 500) a 0,33% (Dow Jones) no encerramento, com o Nasdaq passando ao positivo (+0,06%). Ao fim, a referência da B3 mostrava ganho de 1,24%, aos 105.687,64 pontos, entre mínima de 103.578,58 e máxima de 105.707,56, saindo de abertura aos 104.395,45 pontos. Na semana, vira agora para o positivo (+0,53%) e também no ano (+0,83%), ainda acumulando queda de 2,03% no mês. O giro financeiro foi de R$ 29,2 bilhões na sessão. O dia foi de acomodação para o dólar, em baixa de 0,08%, a R$ 5,1405.

Petrobras ON e PN operaram sem direção única ao longo da tarde, mas ambas em alta no fechamento, respectivamente de 0,38% e 0,77%, enquanto a queda em Vale ON, superior a 2% mais cedo, limitou-se a 1,00% no encerramento. Os grandes bancos, com BB ON à frente (+2,54%) após os resultados trimestrais, foram o contraponto ao desempenho majoritariamente negativo de commodities e mineração (CSN ON -5,53%), à exceção de Santander (Unit -0,40%). Na ponta do Ibovespa, destaque para Qualicorp (+10,49%), Cogna (+9,66%) e Méliuz (+8,48%). No lado oposto, Minerva (-7,54%), CSN (-5,53%) e CSN Mineração (-3,23%).

Na maior parte do dia, "as bolsas americanas deram sequência à correção, vindo na quarta já de queda bastante forte. Mesmo com o desempenho ruim lá fora, o Ibovespa já tinha conseguido voltar ontem para os 104 mil pontos, em movimento ligado a commodities, com notícias mais favoráveis então sobre a China e recuperação no petróleo, o que se refletiu ontem em Petrobras e Vale", observa Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master. No front doméstico, ele espera altas de 0,50 e 0,25 ponto porcentual para a Selic, respectivamente, nas duas próximas reuniões do Copom, a 13,50% ao ano, tendo em vista a elevada difusão ainda vista na inflação conforme o IPCA de abril, divulgado na quarta.

Da quarta para a quinta-feira, no exterior, prevaleceram notícias menos favoráveis sobre a evolução de casos de covid-19 na China, que insiste na controversa política de tolerância zero ao coronavírus, o que se refletiu em pausa para as commodities na sessão, ante preocupações sobre o ritmo da segunda maior economia do mundo. Aqui, os dados de atividade surpreenderam de forma positiva nesta quinta-feira com a leitura do IBGE sobre o setor de serviços, divulgada pela manhã. "Está em patamar pré-pandemia, muito forte. Os dados de atividade econômica têm surpreendido no Brasil, e começo a acreditar que o PIB possa crescer pelo menos 1% este ano", diz Gala, destacando, por outro lado, o efeito desta recuperação sobre a inflação.

"Há fatores externos que explicam a persistência da aversão a risco lá fora: a inflação nos Estados Unidos e na Europa vis-à-vis crescimento, ou mesmo chance de recessão, sem que se saiba até onde os juros americanos chegarão; a incerteza sobre a atividade na China em meio à política de tolerância zero para a covid; a geopolítica no leste europeu, com a Rússia anunciando agora a interrupção de fornecimento de gás via Polônia; e o 'sell off' muito grande em criptomoedas, com 'spill over' sobre equities e dívida", aponta Erminio Lucci, CEO da BGC Liquidez.

Por outro lado, ele observa que grandes casas estrangeiras começam a mostrar viés mais favorável aos emergentes em relação a Estados Unidos, país que sempre tende a atrair mais recursos quando o momento é de incerteza sobre a extensão do ciclo de elevação dos juros americanos. "Boa parte do 'Sell Side' está mais positivo para emergentes em relação a Estados Unidos. Em termos de 'sell off', talvez o pior já tenha ficado para trás", acrescenta Lucci, destacando também a temporada de balanços trimestrais no Brasil, "relativamente ok".

"Tem muito ativo barato (na B3), com algumas empresas reportando números bem interessantes (nos balanços), como o Banco do Brasil, com bom pagamento de dividendos - então tivemos um movimento corretivo, descolando do exterior", diz Ramon Coser, especialista da Valor Investimentos.

Lá fora, com o Bitcoin caindo a níveis de 2020 e o Tether perdendo a paridade com a moeda americana, negociado nesta quinta a 95 centavos de dólar na Europa, a correção em criptomoedas e também nas 'stablecoins' - ativos digitais como o Tether que buscam paridade com moeda fiduciária, como o dólar, considerados um elo fundamental para moderar a elevada volatilidade do mercado cripto - colocou a questão no topo da tela do "Financial Times', sobrepujando assuntos como a suspensão do gás russo para a Europa ou o desejo da Finlândia de se unir à Otan mesmo sob ameaça da Rússia.

Nesta quinta, em audiência no Congresso americano, a secretária do Tesouro, Janet Yellen, chamou atenção para as 'stablecoins' que, segundo ela, "estão crescendo muito rapidamente e apresentam o mesmo tipo de riscos que conhecemos há séculos em conexão às corridas (para saque) em bancos", conforme relato do FT.

Além da conjuntura externa atribulada, Lucci, da BGC Liquidez, considera que, mais do que os dados econômicos mensais, no quadro doméstico os investidores têm prestado grande atenção às pesquisas eleitorais, que têm reduzido a distância entre Lula e Bolsonaro na corrida presencial, com olhar do mercado já para 2023. O desfecho da disputa é fundamental para a antevisão da política econômica e da gestão fiscal, em momento no qual o BC ainda lida com inflação pressionada e segue elevando os juros.


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