Dólar encosta em R$ 4,20 e BC faz leilão surpresa de dólares
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Dólar encosta em R$ 4,20 e BC faz leilão surpresa de dólares

Moeda americana acumula alta de quase 9% apenas neste mês

Por
AE

Moeda americana acumula alta de quase 9% apenas neste mês

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O mercado de câmbio teve uma sessão agitada nesta terça-feira, dia em que o dólar encostou em R$ 4,20 e levou o Banco Central a fazer uma oferta surpresa da moeda americana no mercado à vista, de valor não revelado. Apesar da operação, que sinalizou para os participantes do mercado que o BC está desconfortável com a moeda americana acima de R$ 4,12, o dólar fechou em alta pelo quarto dia consecutivo, em R$ 4,1575 (+0,43%). No mês, o dólar já acumula alta de quase 9% e só perde para o desempenho da moeda americana na Argentina, que disparou 28% em agosto. O dólar já começou a sessão desta terça-feira em alta, com o real acompanhando a piora das moedas emergentes no mercado internacional, em meio a renovadas preocupações com a economia mundial, após nova inversão da curva de rendimentos dos Treasuries. A inversão estimulou a busca por ativos seguros, como o ouro, o iene e, nos emergentes, o dólar. 

No mercado doméstico, pressão do noticiário político, com as repercussões ainda negativas das queimadas na Amazônia, as declarações polêmicas de Jair Bolsonaro e o temor de atrasos na agenda de reforma já vinham deixando os investidores mais prudentes - e seguiram nesta terça. Mas o clima esquentou com declarações do presidente do BC, Roberto Campos Neto, no Senado, interpretadas pelo mercado como uma sinalização de que a autoridade monetária não via necessidade de ação mais agressiva para segurar o dólar. O dirigente disse que o real não tem tido "movimento atípico" em relação a outras moedas de países emergentes, mesmo que nos últimos dias tenha se desvalorizado "um pouco acima" de seus pares. "Campos Neto foi infeliz em sua declaração sobre o desempenho do real, mas conseguiu corrigir rápido", disse um diretor de tesouraria.

Foi neste momento do discurso de Campos Neto que as cotações do dólar começaram a bater sucessivas máximas e chegarem perto de R$ 4,20, o maior valor intraday desde setembro do ano passado. "O BC percebeu e acabou agindo rápido para corrigir o problema", disse um executivo do mercado. O leilão foi feito entre 13h20min e 13h25min. Com o anúncio da oferta, o dólar baixou rapidamente do nível de R$ 4,19 para R$ 4,14 e em seguida voltou a subir, mas em ritmo bem menos intenso e ficou boa parte da tarde na casa dos R$ 4,15. "A alta do dólar estava muito agressiva, o BC tinha que entrar", disse o responsável pela área de câmbio da Terra Investimentos, Vanei Nagem, ressaltando que a instituição está retomando a postura do passado e se mostrando mais ativa. Foi a primeira vez que o BC fez uma oferta sem estipular um valor para a operação desde 2009, após os desdobramentos da crise financeira mundial de 2008. O BC não revelou o valor da operação.

Bovespa

Depois de três pregões consecutivos de queda, com os quais perdeu 4,72%, o Índice Bovespa teve uma sessão de recuperação, mas também de volatilidade, nesta terça-feira. O índice terminou o dia com ganho de 0,88%, aos 97.276,19 pontos, depois de ter alternado altas e baixas, oscilando em um intervalo extenso, de 2.096 pontos. Os negócios somaram R$ 20 bilhões. As preocupações com o ritmo da economia global continuaram no radar em todo o mundo e teve como destaque a nova inversão das taxas de rendimento dos títulos do Tesouro americano, num possível indicativo de recessão futura nos Estados Unidos.

No câmbio, a chegada do dólar aos R$ 4,19 e o leilão extraordinário do Banco Central foram o grande destaque da tarde, também com influência no mercado de ações, ainda que pontual. Para reforçar o clima cautela, os ruídos no ambiente político também continuaram a gerar mal estar entre investidores, que temem prejuízos econômicos em consequência da repercussão das queimadas na Amazônia e as trocas de farpas entre o presidente Jair Bolsonaro e seu colega francês, Emmanuel Macron. Ainda no rol das preocupações esteve a figura do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), envolvido em denúncia de irregularidade em doações de campanha.

A alta do Ibovespa foi na contramão das bolsas americanas, que iniciaram o dia em alta, mas fecharam em terreno negativo. Os papéis do setor de commodities, que estão entre os mais castigados pelo temor de desaceleração da economia global, foram destaque de alta. Com o petróleo em valorização significativa, as ações da Petrobras tiveram ganhos de 1,89% (ON) e 1,59% (PN). Vale ON também se recuperou (+1,21%), mesmo com a baixa do minério de ferro no mercado chinês. O setor financeiro não teve sinal uniforme, mas prevaleceu a recuperação. Itaú Unibanco PN subiu 1,18% e Bradesco PN avançou 1,26%. Para Alvaro Bandeira, economista da Modalmais, os mais de R$ 11 bilhões em recursos externos que saíram da B3 até a última sexta-feira chamam a atenção, mas são um sintoma da aversão ao risco dos países emergentes em geral, entre os quais o Brasil é o mais líquido - e por isso o mais afetado. Mas ele admite que há questões domésticas que agravam o receio do investidor com o país.

Em sua avaliação, as notícias sobre desmatamento e seus desdobramentos políticos geram temor de restrições a empresas exportadoras brasileiras. "Para uma recuperação dos mercados, é necessário que os ânimos se acalmem. E para isso, é necessário que haja avanços nas relações comerciais envolvendo os Estados Unidos. No Brasil, é preciso que as reformas voltem a avançar e os ruídos envolvendo o presidente Jair Bolsonaro terminem", afirma.

Taxas de juros

O forte estresse visto no mercado de câmbio contaminou os negócios na renda fixa e as taxas cumpriram trajetória de alta na maior parte desta terça-feira. Com o dólar avançando pela quarta sessão seguida, tendo atingido R$ 4,19 nas máximas intraday, vai ganhando força nas mesas de operação o debate sobre o quanto o câmbio pode atrapalhar o ciclo de afrouxamento monetário e comprometer o consenso da taxa em 5% no fim do ano, a despeito do hiato do produto bastante amplo para absorver possíveis repasses cambiais aos preços sem comprometer as metas de inflação. Profissionais nas mesas de renda fixa relatam que houve forte zeragem de posições vendidas (stop loss) em vários pontos da curva, o que catapultou o volume.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020, que reflete as apostas para a Selic até o fim deste ano, fechou a 5,395%, de 5,336% na segunda, e o DI para janeiro de 2021 fechou com taxa de 5,58%, de 5,509% no ajuste. A taxa do DI para janeiro de 2023 subiu de 6,591% para 6,66% e a do DI para janeiro de 2025, de 7,061% para 7,14%. Pela manhã, as taxas oscilavam perto dos ajustes de segunda, mas já no começo da tarde passaram a renovar máximas junto com o dólar. O estopim para o movimento foram declarações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, ressaltando o caráter "flutuante" do câmbio e que o real não tem tido nenhum movimento atípico em relação a outras moedas emergentes. A fala levou a cotação para R$ 4,19 e, na sequência, o BC chamou leilão de dólar à vista, sem, contudo, informar o quanto pretendia colocar. Com isso, a moeda chegou a virar para queda, e depois voltou a subir, mas de forma moderada para fechar em R$ 4,1575, desacelerando também o ritmo de alta dos DIs.

Jefferson Lima, gerente da Mesa de Juros da CM Capital, afirma que as taxas foram conduzidas pela discussão sobre onde o câmbio pode chegar e atrapalhar a inflação e o ciclo de desaperto monetário. "Por ora, há percepção de que se ficar em até R$ 4,30 ainda há espaço para a Selic chegar a 5%", disse. Por outro lado, é difícil imaginar que o Banco Central vá ficar queimando reservas para segurar o dólar, justamente quando o mesmo BC admite que o movimento se dá em função do cenário internacional. "Isso traz risco de um ajuste de Selic menor", disse Lima. "Como estava todo mundo muito doado no mercado de juros, e otimista com o ciclo, desde quinta-feira vem entrando 'zeradas' de posição", completou.