Dólar fecha a R$ 3,98, maior valor desde outubro do ano passado
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Dólar fecha a R$ 3,98, maior valor desde outubro do ano passado

Diversos fatores internos e externos contribuíram para a alta da moeda norte-americana

Por
Correio do Povo, AE e Agência Brasil

Moeda norte-americana encostou nos R$ 4

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O dólar chegou a encostar nos R$ 4 nesta quarta-feira. A moeda norte-americana esteve o dia todo em alta, fechando o dia em R$ 3,98, alta de 1,54%. Essa foi a maior cotação de fechamento desde 1º de outubro do ano passado (R$ 4,018). Entre os fatores que motivaram a elevação está a aprovação da admissibilidade da reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, ontem. Hoje, saiu o resultado da pesquisa CNI / Ibope acerca da satisfação com o governo de Jair Bolsonaro e os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que mostrou fechamento de 43 mil vagas no mês passado.

Voltaram a pesar entre os investidores os temores de que a tramitação da reforma se estenda por mais tempo que o previsto e que a desidratação da proposta inicial seja maior que o esperado. Nesse ambiente, os dados de piora no mercado de trabalho e de baixa popularidade do governo Bolsonaro reforçaram o clima de prudência no mercado. Apesar do desconforto com questões domésticas, analistas e operadores atribuíram a queda a um movimento de realização de lucros recentes, uma vez que as operações na bolsa estão concentradas essencialmente em negócios de curtíssimo prazo.

"A expectativa era de que a reforma passasse mais rápido pela CCJ e sem mudanças. E como a comissão especial provavelmente será instalada na semana seguinte à do feriado de 1º de Maio, o investidor preferiu realizar lucros. Isso porque, nesse hiato de quase duas semanas, há risco de que surjam novos ruídos no cenário político", disse Vitor Miziara, analista da Criteria Investimentos.

Após a votação da admissibilidade da matéria na CCJ, o próximo passo é a formação da Comissão Especial que vai analisar a proposta na Câmara. O colegiado será composto por 49 membros e 49 suplentes. A líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP), disse que o ideal seria instalar a comissão ainda nesta semana na Câmara, mas ponderou que isso depende da indicação dos membros do colegiado por parte dos líderes partidários.

Na avaliação de um operador que não quis se identificar, as notícias de corte de 43.196 vagas mostrado mais cedo pelo Caged e a pesquisa do Ibope mostrando 35% de avaliação positiva do governo Jair Bolsonaro aumentaram a preocupação com a reforma.

"O governo está sem apoio popular e sem uma base sólida no Congresso, o que não é bom. O temor é que o Centrão ganhe espaço e imponha uma reforma menor, com R$ 500 bilhões ou R$ 600 bilhões de impacto fiscal", afirmou.

A economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management, Helena Veronese, observa que o governo, embora tenha conseguido aprovar o parecer do relator Marcelo Freitas (PSL-MG) por larga margem de votos (48 a 18), teve bastante dificuldade em negociar na CCJ, uma instância onde a tramitação, a princípio, seria a "mais fácil", tendo que ceder em alguns pontos. "O mercado realizou, vendo que o que vem pela frente é muito mais difícil. Agora está olhando para a comissão especial, que é onde a proposta vai ser desidratada, com um longo período de 40 sessões", avaliou. 

No exterior, o dólar teve alta bastante acentuada diante das moedas emergentes como o real, um dos destaques negativos, juntamente com o peso da Argentina. Além da forte deterioração dos fundamentos econômicos do país vizinho, pesquisas eleitorais apontando a ex-presidente Cristina Kirchner na liderança das intenções de voto na eleição presidencial de outubro também ajudaram a ampliar a aversão ao risco, com reflexos nos ativos no Brasil. Paralelamente, na Europa os investidores estão receosos com as persistentes incertezas sobre os desdobramentos do Brexit, no Reino Unido. A imprensa inglesa relata que as negociações entre os conservadores e trabalhistas no Parlamento britânico podem estar próximas de um "colapso". 

Nas máximas, o dólar aqui chegou bem perto dos R$ 4 para fechar em R$ 3,9864. Um gestor lembra que a depreciação do câmbio "significa condições financeiras mais apertadas, o que é contracionista para a atividade", num contexto já pessimista para a economia.

A turbulência também foi sentida no mercado de ações. O Ibovespa, principal índice da B3 (antiga Bolsa de Valores de São Paulo), fechou o dia em queda de 0,92%, aos 95.045 pontos. O indicador interrompeu uma série de três altas seguidas.