Dólar fecha a R$ 5,42, maior valor em 5 meses, e Ibovespa cai 3%

Dólar fecha a R$ 5,42, maior valor em 5 meses, e Ibovespa cai 3%

Riscos da economia global e temor de medidas populistas fizeram a moeda subir 0,89% e Ibovespa registrar 110.123,85 pontos

AE

Dólar ganhou ainda mais força ao longo da tarde, em sintonia com o aprofundamento das perdas do Ibovespa

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A combinação de fortalecimento global da moeda norte-americana - em dia marcado por forte correção dos ativos de risco no exterior e alta das taxas dos Treasuries - com temores de medidas populistas na seara fiscal doméstica castigaram o real na sessão desta terça-feira.

Em alta desde o início dos negócios, o dólar ganhou ainda mais força ao longo da tarde, em sintonia com o aprofundamento das perdas do Ibovespa. No pior momento, a moeda norte-americana chegou a tocar casa de R$ 5,45, ao registrar máxima a R$ 5,4508 (+1,34%).

A febre compradora arrefeceu na reta final dos negócios, mas, mesmo assim, o dólar ainda encerrou a sessão em alta firme, de 0,85%, cotado a R$ 5,4243 - maior valor de fechamento desde 4 de maio deste ano (R$ 5,4307). Foi o quinto pregão seguido de fortalecimento do dólar, que já acumula valorização de 1,51% na semana e de 4,88% em setembro.

Nas mesas de operação, já se especula em torno da possibilidade de que o Banco Central possa agir de forma mais incisiva para conter a depreciação do real. Está programado para a quarta-feira o segundo leilão extra de swap cambial, da ordem de US$ 700 milhões, motivado, segundo o BC, pelo <i>overhedge</i> dos bancos.

"Eu acredito que o BC pode aumentar essa ração de swap. O mercado não ficou satisfeito com a explicação de que a oferta era para o overhedge. A grande preocupação é o processo inflacionário, que piora muito com a alta do dólar", afirma o diretor da corretora Correparti, Ricardo Gomes da Silva. "Temos os problemas fiscais domésticos e essa saída de investidores externos dos mercados de risco, com a T-note subindo na espera de redução de estímulos monetários nos Estados Unidos. Se o BC não se posicionar de forma mais firme, o dólar pode superar R$ 5,50 ainda nesta semana."

O mercado cambial também ficou de olho na ata do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) na semana passada, quando a Selic foi elevada em 1 ponto porcentual, para 6,25%. No dia do anúncio, o BC alertou no comunicado para os problemas fiscais, que criam uma "assimetria no balanço de riscos" para a inflação. No que parece uma referência velada à eventual extensão do auxílio emergencial, no documento divulgado nesta terça, o BC afirma que "novos prolongamento das políticas fiscais de resposta à pandemia que pressionem a demanda agregada e piorem a trajetória fiscal podem elevar os prêmios de risco do país".

O BC reafirmou a intenção de promover outra elevação da Selic em 1 ponto porcentual, mas revelou que houve debate sobre "custos e benefícios de acelerar o ritmo" - o que abriu espaço para a leitura de que a ata foi mais dura que o comunicado e há, sim, chance de que o Copom possa acelerar o passo. Há quem veja a possibilidade de a Selic ultrapassar 9% e até, quem sabe, atingir novamente os dois dígitos.

O sócio e economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, afirma que não se vislumbra reversão do movimento de alta do dólar, enquanto o BC seguir a atual estratégia gradualista de aperto monetário. Ele destaca que o contágio externo, a deterioração inflacionária e a situação fiscal "neutralizam os efeitos da colocação de swaps cambais".

Os temores de que o governo Jair Bolsonaro embarque em uma onda de medidas "populistas" cresceu em meio aos debates em torno da prorrogação do auxílio emergencial por aprovação de crédito suplementar no Congresso (fora do teto de gastos). Seria um atalho para aumentar os benefícios sociais sem depender exclusivamente do Auxílio Brasil, cuja fonte de financiamento está atrelada à aprovação da PEC dos Precatórios e da reforma do Imposto de Renda, que claudica no Senado.

As investidas do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), contra a alta dos preços dos combustíveis, justamente no dia em que a Petrobras reajustou o valor do óleo diesel, também fazem soar os alarmes do "populismo". Em evento no período da tarde, Lira, ao lado de Bolsonaro, jogou a responsabilidade pelo preço dos combustíveis no colo dos governadores, alinhando-se ao discurso do presidente. "Sabe o que é que faz o combustível ficar caro? São os impostos estaduais", disse Lira, acrescentando que o Congresso vai debater um projeto para fixar valor do ICMS. Bolsonaro, que na segunda havia dito que o "remédio para combater a inflação não pode ser só aumentar a taxa de juros", afirmou que ficou feliz em ouvir as palavras de Lira e que a alta dos combustíveis "é o problema do dia".

À crescente deterioração do quadro interno se soma um ambiente externo cada vez mais desafiador. A inflação acelera no mundo em meio a uma crise energética e pipocam sinais de perda de fôlego da atividade justamente no momento em que os Banco Centrais dos países desenvolvidos dão sinais de tirar o pé do acelerador.

Declarações de dirigentes do Federal Reserve na segunda-feira e nesta terça mostram que o início do "tapering" deve vir mesmo em novembro. Crescem as apostas em alta dos juros nos EUA já no segundo semestre de 2022, o que dá fôlego às taxas dos Treasuries e ao dólar. O yield da T-note de 10 anos superou nesta terça o teto psicológico de 1,5%. Há também a novela em torno da elevação do teto de gastos americano, em meio a alertas de Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve e atual secretária do Tesouro dos EUA, dos efeitos de paralisação parcial do governo (shutdown) e de um eventual default da dívida.

"A ala hawkish ganha terreno no Federal Reserve, e a inflação pode permanecer elevada por mais tempo do que se imaginava, a tal ponto que se vislumbre um aumento mínimo de duas altas de 0,25 p.p. do juro no segundo semestre de 2022", afirma Velho, da JF Trust.

Não bastasse o enxugamento da liquidez global com o <i>tapering</i>, os ativos emergentes, como o real, sofrem com o risco de desaceleração da China, às voltas com os desdobramentos do caso Evergrande sobre o setor imobiliário e cortes de energia, por causa da redução de estoques de carvão. Um pouso forçado da economia chinesa é má notícia para os preços das commodities e, por tabela, para a moeda brasileira.

Juros

Os juros completaram a quarta sessão em alta nesta terça-feira. Os mais penalizados foram os intermediários, pela nova disparada dos retornos dos Treasuries, ata do Comitê de Política Monetária (Copom), avanço do dólar e piora na perspectiva do cenário fiscal e mais um aumento no preço de combustíveis. O documento do Banco Central confirmou o consenso das apostas em mais duas altas de 1 ponto da Selic em outubro e dezembro, mas foi considerado hawkish por parte do mercado ao deixar em aberto até onde o ciclo pode chegar, ao citar que o "atual ritmo de ajuste é suficiente para atingir patamar significativamente contracionista e garantir a convergência da inflação" à meta em 2022. Nos Treasuries, a taxa da T-note de dez anos rompeu 1,5% e chegou a bater em 1,56% nas máximas, pressionando curvas no mundo todo.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022, atualmente o mais líquido, passou de 7,17% no ajuste anterior para 7,18% e a do DI para janeiro de 2023, de 9,049% para 9,225%. O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 10,27%, de 10,165%, e a do DI para janeiro de 2027, a 10,67%, de 10,563%. A do DI para janeiro de 2031 terminou em 11,05% (10,972% na segunda-feira).

O economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Camargo Rosa, avalia que a ata veio em linha com o comunicado do Copom na indicação de manutenção do ritmo de aperto, mas "dando a entender que pode estender o ajuste", o que pesou nos vencimentos curtos e intermediários. "Já os longos responderam aos Treasuries, que estão pressionados pela expectativa de retirada dos estímulos, e a fatos domésticos ligados à questão fiscal", afirmou.

Além da influência direta sobre os DIs, a escalada dos Treasuries também pesa na curva pela via do câmbio, nesta terça com o dólar já acima de R$ 5,40. Em sua conta no Twitter, a economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, sugere que a taxa está deslocada num ambiente de avanço nos preços das commodities e perspectiva de mais altas no juro básico. "O índice de commodities chegando na máxima desde 2015, a Selic de volta, acima de 6%, e com expectativa de mais altas, mas o câmbio continua sem reagir", comentou.

Apesar desta terça terem fechado em baixa, os preços do petróleo seguem em níveis preocupantes em relação aos praticados no Brasil, o que levou a Petrobras a anunciar reajuste do diesel de 8,9% a partir de quarta, o primeiro depois de 85 dias. Além do impacto sobre a inflação, Camargo Rosa, da SulAmérica, alerta para os efeitos secundários da medida. "Já vemos as críticas do Lira no Twitter e risco de nova paralisação de caminhoneiros", comentou.

A curva incorpora prêmios também pela expectativa pessimista na seara fiscal. A semana avança sem evolução concreta na questão dos precatórios e, para piorar, a percepção sobre extensão do auxílio emergencial vai ganhando corpo. Na segunda-feira, o ministro da Cidadania, João Roma, admitiu que o assunto está na mesa.

Sobre a ata do Copom, os diretores reforçaram o plano de voo de seguir elevando a Selic em 1 ponto e indicaram que o destino final deve ser "significativamente contracionista". Com isso, a aposta de Selic em pelo menos 8,25% no fim deste ano virou piso, com boa parte do mercado esticando suas estimativas para o orçamento total até 2022 dado o desafio do BC de reenquadrar as expectativas de IPCA.

Bolsa

Inflação global foi o nome do jogo nesta terça-feira de aversão a risco desde o exterior, com a superação gradual da pandemia dando lugar às dores da recuperação econômica, em que as commodities de energia, especialmente petróleo e gás, mostram avanço consistente à medida que se aproxima a estação mais fria do ano no hemisfério norte.

Neste contexto, o recrudescimento de preocupações quanto à inflação no mundo, especialmente nos Estados Unidos, com reflexo nos yields dos Treasuries, recolocou os investidores na defensiva, fortalecendo o dólar e afetando o apetite por ativos de risco, inclusive as commodities.

Assim, com perdas de até 2,83% em Nova York (Nasdaq), o Ibovespa fechou em baixa de 3,05%, a 110.123,85 pontos, entre mínima de 109.980,95 pontos - menor nível intradia desde 21 de setembro - e máxima de 113.584,12 pontos, da abertura. Em porcentual, foi a maior perda do índice desde o tombo de 3,78% no pós-Independência, em 8 de setembro. O giro financeiro desta terça-feira foi a R$ 39,6 bilhões.

Na semana, o índice da B3 acumula perda de 2,79%, elevando as de setembro a 7,29%, colocando de novo o mês a caminho de se tornar o terceiro pior da pandemia, superado apenas por março e fevereiro de 2020 (-29,90% e -8,43%, respectivamente). Em 2021, o Ibovespa cede agora 7,47%. Faltando duas sessões para conclusão do mês, setembro foi acidentado, difícil para o Ibovespa, mesmo com o barateamento da Bolsa após agosto (-2,48%) e julho (-3,94%) negativos, que interromperam recuperação vista a partir de março.

Em setembro, "teve a crise político-institucional e, quando começou a deixar de incomodar tanto, vieram as preocupações sobre a economia chinesa, a correção do minério de ferro, os problemas da Evergrande e agora também a inflação global", observa Lucas Mastromonico, operador de renda variável da B.Side Investimentos, acrescentando que as ações do complexo mineração-siderurgia têm reagido menos aos momentos de recuperação dos preços do minério, como na segunda-feira, do que aos de retomada da trajetória de queda, como nesta terça.

"O dia foi pesado, especialmente para Vale, com a restrição na China da utilização de carvão para geração de energia, o que acaba afetando setores com uso intensivo, basicamente a indústria. Com menos capacidade produtiva no aço, na indústria e na construção, afeta o preço do minério e, em consequência, as ações da Vale", diz Flávio de Oliveira, head de renda variável da Zahl Investimentos.

Nesta terça-feira, a commodity fechou em baixa de 6,08%, vindo de alta de 7,17% na segunda em Qingdao, China. Na B3, Vale ON encerrou a sessão em baixa de 5,01%, com perdas de 7,27% para Usiminas PNA - quinta maior queda na carteira Ibovespa na sessão - e de 7,84% para CSN ON - quarta maior perda do dia. Na ponta negativa do Ibovespa, destaque para Banco Inter (Unit -11,82%, PN -11,70%), em meio a comentários no mercado quanto a dados de provisionamento no balanço da instituição, à frente de Méliuz (-8,65%). Petrobras ON e PN fecharam a sessão, respectivamente, em baixa de 0,86% e de 0,66%.

Na face positiva do Ibovespa, destaque para as empresas de proteína animal, exportadoras, beneficiadas pela força do dólar na sessão, em alta de 0,85%, a R$ 5,4243, no maior nível desde 4 de maio: Minerva (+1,75%), BRF (+0,99%) e Marfrig (+0,25%), com Taesa (+0,14%) completando o restrito grupo de ações do índice que conseguiram fechar o dia com algum ganho.

Nos Estados Unidos, o yield da T-note de 10 anos amanheceu a 1,52%, máxima desde julho, aponta Pietra Guerra, especialista em ações da Clear Corretora. "Estamos vendo esse aumento da expectativa de juros por lá, muito por conta de um dólar se fortalecendo frente a moedas emergentes e pela alta das commodities", acrescenta. "Esses dois fatores combinados refletem na inflação, e com isso, pode ser que o Fed tenha que subir os juros para contê-la, em linha com o discutido na última reunião de política monetária de que, sim, pode ter subida de juros já no próximo ano e retirada de estímulos", diz. Tal percepção pesou nesta terça principalmente nas ações de tecnologia em Nova York, acrescenta Pietra.

"O que temos aqui é um mercado de ações que finalmente parece vulnerável à medida que os rendimentos do Tesouro aumentam, os preços do petróleo parecem que podem atingir facilmente US$ 90 o barril e os problemas da cadeia de suprimentos não mostram sinais de afrouxamento", observa em nota Edward Moya, analista de mercado financeiro da Oanda em Nova York.

 


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