Dólar fecha cotado a R$ 5,26 com cenário externo e declarações de presidente da Câmara

Dólar fecha cotado a R$ 5,26 com cenário externo e declarações de presidente da Câmara

Moeda norte-americana caiu 2,23% e chegou ao menor valor desde o dia 13 de agosto

AE

Foi o maior tombo diário desde 31 de março (-2,31%)

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A combinação de um ambiente externo de amplo apetite ao risco com o arrefecimento das tensões fiscais domésticas, na esteira defesa da manutenção do teto de gastos pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), abriu espaço para uma queda acentuada do dólar na sessão desta terça-feira. Com renovação de mínimas ao longo da tarde, em meio à perda de fôlego extra da moeda lá fora e à desmontagem de operações defensivas por investidores locais, o dólar à vista encerrou o pregão em queda de 2,23%, a R$ 5,2622 - menor valor desde 13 de agosto (R$ R$ 5,2451).

Foi o maior tombo diário desde 31 de março (-2,31%). Por causa do recuo desta terça, a valorização acumulada do dólar em agosto foi reduzida para apenas 1%.

Como havia apanhando muito recentemente, devido aos problemas político-institucionais e fiscais domésticos, o real liderou com folga os ganhos das divisas emergentes, que avançaram em bloco na comparação com a moeda americana. O índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis moedas fortes - até chegou a operar entre estabilidade e ligeira alta, mas trocou de sinal ao longo da tarde e passou a trabalhar em leve queda, o que contribuiu para as mínimas do dólar no mercado doméstico.

Lá fora, a aprovação definitiva da vacina da Pfizer pelo FDA (órgão regulador norte-americano) e a notícia de que a China conseguiu conter a expansão da variante Delta do coronavírus animaram os investidores e deram fôlego extra as commodities.

Também se especula que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), cujo discurso vinha se tornando mais duro, traga uma mensagem mais amena, quiçá no simpósio de Jackson Hole, sinalizando uma redução bem gradual dos estímulos monetários.

Na avaliação do economista-chefe do JF Trust, Eduardo Velho, o ambiente externo positivo, com forte alta das commodities, já tiraria, por si só, fôlego da moeda americana por aqui nesta terça-feira, apesar dos problemas domésticos. "Mas claramente o discurso do Lira presidente da Câmara fez o Ibovespa acelerar e o dólar cair muito mais por aqui. É muito positivo para o mercado quando um representante maior do Centrão fala de responsabilidade fiscal", afirma.

Em evento da XP Investimentos, o presidente da Câmara disse que deseja buscar uma solução para PEC dos Precatórios que respeite o teto dos gastos, amenizando temores de abandono, mesmo que informal, da âncora fiscal do País.

Lira informou também que a reforma do Imposto de Renda, vista com muita restrição pelos investidores, não será apreciada agora pela Câmara e que o relatório da reforma administrativa deve ser apresentado pelo deputado Arthur Maia (DEM-BA) nesta semana.

Mais cedo, o presidente da República, Jair Bolsonaro, reafirmou que pretende oferecer Auxílio Brasil (o novo nome do Bolsa Família) de R$ 300 a partir de novembro, quando termina o auxílio emergencial por conta da pandemia da covid-19.

O humor nas mesas de operação havia piorado muito recentemente com dúvidas sobre como conjugar o pagamento dos precatórios e o Auxílio Brasil com o respeito ao teto dos gastos. A proposta do ministério da Economia de parcelamento das dívidas judiciais e criação de um Fundo abastecido com recursos de privatizações para saldar compromissos futuros, embutida na PEC dos Precatórios, também desagrada, por supostamente abrir caminho para burlar o teto.

"Houve um otimismo do mercado com o discurso do presidente da Câmara, com aceno de comprometimento com a questão fiscal, que é o nosso calcanhar de Aquiles. Mas esse discurso ainda não traz uma solução final para o problema", afirma a economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, que não vê uma tendência de apreciação do real daqui para frente e alerta para possibilidade de novos solavancos na taxa de câmbio.

Velho, da JF Trust, também descarta, por ora, um cenário de queda persistente do dólar, que teria como primeiro suporte a faixa de R$ 5,22. "O quadro fiscal ainda é negativo. Não se sabe ainda o que vai acontecer com a PEC dos Precatórios. A reforma do IR tem problemas, mas se não for aprovada, não vai ter taxação de dividendos e isso pode prejudicar a arrecadação" afirma Velho, ressaltando que a proximidade e do fim do ano traz uma sazonalidade negativa para a taxa de câmbio, dado o aumento das remessas ao exterior.

Juros

O mercado de juros encontrou uma brecha nas preocupações com o cenário fiscal e político-institucional para devolver um pouco dos prêmios elevados da curva a termo. O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou durante boa parte do dia com taxa de um dígito, mas voltou aos dois dígitos no fechamento.

Na falta de novidades negativas na seara política, nesta terça-feira o cenário externo positivo e a decisão do Tesouro de colocar novamente lotes pequenos no leilão de NTN-B favoreceram a queda das taxas com desinclinação da curva, mas num movimento que continua sendo considerado frágil, sem sustentação de fundamentos.

Os juros já começaram o dia em baixa, assegurada pelo apetite ao risco no exterior e a opção do Tesouro de novamente antecipar a divulgação dos lotes do leilão para a pré-abertura, o que havia funcionado bem na quinta-feira com a oferta de prefixados. A instituição teve ainda a sensibilidade de voltar a colocar um volume reduzido, estratégia que serve de válvula de escape para a volatilidade que normalmente os leilões trazem para o DI em fases turbulentas como a atual.

Depois, a decisão do presidente da Câmara, de não colocar na pauta desta semana a votação da reforma do Imposto de Renda, estimada para esta terça-feira, na busca de uma convergência para o texto, foi bem recebida nas mesas. Diante da falta de consenso sobre a proposta, a leitura é de que o adiamento retira do curtíssimo prazo mais um foco de tensão.Lira disse também que pretende discutir esta semana com setores do governo uma solução para PEC dos precatórios que respeite o teto dos gastos.

A taxa do DI para janeiro de 2023, o mais negociado, encerrou em 8,42%, de 8,50% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2025 caiu de 9,746% para 9,59%. O DI para janeiro de 2027 encerrou com taxa de 10,00%, de 10,194% na segunda-feira.

Bolsa

Retirando o quanto podia de declarações do presidente da Câmara sobre responsabilidade fiscal e progressão de reformas, o Ibovespa conseguiu se reconectar nesta terça-feira ao humor externo positivo, saindo de mínima, na abertura, aos 117.474,11 pontos para chegar aos 120.462,82 na máxima, à tarde, uma variação de cerca de 3 mil pontos entre o piso e o pico da sessão. Ao fim, mostrava alta de 2,33%, aos 120.210,75 pontos, em seu maior ganho porcentual desde 28 de janeiro (então 2,59%).

No ano, volta a terreno positivo, agora em avanço de 1,00% em 2021, com a limitação das perdas em agosto a 1,31%, Na semana, sobe 1,83%.

Com giro financeiro a R$ 34,6 bilhões na sessão, o Ibovespa obteve seu melhor nível de fechamento desde 13 de agosto, quando havia encerrado a 121.193,75 pontos, em sexta-feira após a qual se iniciou correção que o levaria a 116.642,62 pontos no encerramento do dia 18, chegando aos 114.801,00 pontos na mínima intradia do intervalo, em 19 de agosto - correspondente ao menor nível intradiário desde 29 de março.

"A gente veio de um período de queda constante na Bolsa, bem atrasada em relação a outros mercados do exterior, como os de Nova York. As declarações do Lira hoje foram firmes e importantes. Qualquer melhora na percepção de risco-País ajuda a Bolsa a reagir, especialmente em um cenário de redução de percepção de risco no exterior, como vemos agora. A questão é saber se isso vai continuar, e vai depender muito do que Brasília colocará nesse caldo. Jackson Hole é no fim da semana, e pode trazer volatilidade, com o S&P 500 em sucessivas renovações de máximas históricas ao longo deste ano", diz Mauro Morelli, estrategista-chefe da Davos Investimentos.

"O compromisso de Lira com o teto de gastos, e defendendo a aprovação de reformas, era o que o mercado queria e precisava ouvir, o que se refletiu não apenas na Bolsa mas também no câmbio e na curva de juros", observa Cassio Bambirra, sócio da One Investimentos, chamando atenção para o efeito da descompressão nos juros futuros sobre um setor em particular, o imobiliário, com forte desempenho na sessão. "Lira também se manifestou sobre os precatórios, contra calote, o que é muito importante para a confiança do investidor, especialmente o estrangeiro", acrescenta.

No exterior, o desempenho positivo de commodities como o petróleo, com o Brent de volta a US$ 71 por barril, e o minério de ferro, em alta superior a 6% na China, contribuiu para alavancar a recuperação observada no Ibovespa nesta terça-feira, colocando em destaque o setor de mineração (Vale ON +3,65% no fechamento) e siderurgia (Usiminas PNA +7,10%, CSN ON +5,35%), que ainda acumula perdas entre 4,50% (Gerdau PN) e 15,15% (CSN ON) no mês.

Na ponta do Ibovespa na sessão, destaque para Cyrela (+12,33%), Lojas Americanas (+11,81%), Gol (+10,97%) e Eztec (+10,61%). No lado oposto, JBS (-3,26%), Raia Drogasil (-2,64%) e Pão de Açúcar (-2,09%). No campo positivo, o setor financeiro, segmento de maior peso no Ibovespa, registrou ganhos entre 1,60% (Santander) e 3,10% (BB ON) nesta terça-feira, considerando as maiores instituições.

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