Dólar fecha em alta de 0,29% apesar de intervenção do Banco Central

Dólar fecha em alta de 0,29% apesar de intervenção do Banco Central

Moeda norte-americana encerrou sessão cotada a R$ 5,44

AE

Banco Central realizou intervenção no meio da tarde

publicidade

Após uma manhã de muita volatilidade, fruto da disputa pela formação da última taxa Ptax de setembro, o dólar se firmou em alta ao longo da tarde desta quinta-feira, refletindo, sobretudo, os temores relacionados à política fiscal, em meio ao debate em torno da prorrogação do auxílio emergencial e da tramitação da PEC dos Precatórios.

No pior momento ao longo da tarde, a moeda chegou a tocar na casa de R$ 5,47, ao correr até a máxima de R$ 5,4758 (+0,84%). A piora coincidiu com informações, apuradas com exclusividade pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de que uma ala do governo defende a inclusão da prorrogação do auxílio emergencial na PEC dos Precatórios, ideia que encontraria resistências no ministério da Economia. Se não for incluída na PEC, a extensão do auxílio emergencial, adotado para lidar com os efeitos da pandemia do coronavírus, pode ser feita por crédito suplementar (fora do teto de gastos).

O Broadcast também apurou que, em reuniões organizadas por XP Investimentos e BTG pela manhã, o secretário especial do Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, afirmou que não assinaria qualquer medida relacionada à prorrogação do auxílio emergencial. Segundo relato de fontes, Funchal adotou um tom pessimista e disse que há muitas pressões políticas para aumentar o gasto público.

A escalada do dólar só diminuiu após intervenção inesperada do Banco Central com a oferta de até 10 mil contratos (US$ 500 milhões) de swaps cambias, absorvida integralmente pelo mercado. Na prática, o BC injetou dinheiro no sistema com uma operação equivalente a venda de dólar futuro. Foi a primeira intervenção "surpresa do BC" desde 8 de julho, quando o dólar bateu R$ 5,30. Naquela época, o BC também ofertou também US$ 500 milhões.

Com o arrefecimento do ímpeto altista após a atuação da autoridade monetária, o dólar à vista fechou o dia cotado a R$ 5,4462, em alta de 0,29%. Foi o sétimo pregão seguido de ganhos da moeda americana, que encerrou setembro com valorização de 5,30% - resultado só inferior ao mês de janeiro, quando subiu 5,51%.

Mais cedo, em apresentação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI), o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ao comentar a oferta de swaps para lidar com o <i>overhedge</i> dos bancos (até US$ 1,4 bilhão por semana), havia repetido que o câmbio e flutuante e as atuações do BC são para evitar "disfuncionalidades no mercado". No caso do <i>overhedge</i>, Campos Neto disse que é importante atuar, porque se trata de um fluxo "bastante grande, em um ano com bastante incerteza".

Segundo operadores, a virada do mês, com rolagem das posições no mercado futuro, tende a provocar solavancos no mercado e contaminar a formação da taxa à vista. Nas mesas de operação comenta-se, contudo, que uma ala do mercado quer esticar a corda para estimular uma atuação mais forte do Banco Central.

"O BC tentou se adiantar a pressão de fim de ano do <i>overhedge</i> já oferecendo swap, mas acabou piorando a situação, porque deixou o mercado com a impressão de quer é diminuir a fricção no dólar por que está atrás da curva (na condução da política monetária)", afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, ressaltando que tem tesouraria querendo "peitar o BC".

Na avaliação do diretor de estratégia da Inversa, Rodrigo Natali, não havia disfuncionalidade do mercado nem restrição de liquidez que justificasse uma intervenção do Banco Central nesta quinta. "A impressão é de que ele está querendo forçar a barra e segurar o câmbio para tentar de alguma forma conter a inflação e não subir tanto os juros", afirma Natali, que chama a atenção para o volume de intervenções do BC no câmbio, com os leilões de rolagem de swap, leilões para o <i>overhedge</i> e intervenções extras não programadas "O problema é que isso não funciona e mostra fraqueza do Banco Central".

O diretor da corretora Correparti, Ricardo Gomes da Silva, observa que o BC precisava atuar para evitar uma alta mais acentuada da moeda. Além das questões domésticas, Gomes da Silva ressalta que, apesar da moeda americana ter perdido força entre a maioria das divisas emergentes nesta quinta, a tendência é de valorização do dólar no exterior por conta da perspectiva redução da liquidez por conta do início da redução dos estímulos monetários nos Estados Unidos.

"O mercado se antecipa ao encurtamento da liquidez por conta do '<i>tapering</i>', e ainda pelo aperto monetário via elevação dos juros em 2022. E aí não tem jeito, o dólar vai continuar valorizando", afirma o diretor da Correparti, que chama a atenção para declarações mais duras do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell.

Em fala no Congresso americano nesta quinta, Powell disse que o quadro inflacionário é "frustrante", diante de gargalos na cadeia de produção que perduram e parecem piorar. Isso, disse Powell, deve levar a inflação a ficar mais elevada por mais tempo do que o esperado anteriormente. O presidente do BC espera algum "alívio apenas no primeiro semestre de 2022".

O índice DXY - que mede a variação do dólar frente a seis divisas fortes - chegou a operar em alta, na esteira do discurso de Powell, mas depois arrefeceu e passou a trabalhar entre estabilidade e ligeira queda. É preciso ressaltar, contudo, que o índice vem de uma sequência relevante de alta e já está na casa dos 94 pontos.

Pela manhã, foi divulgado que o PIB anualizado dos EUA cresceu 6,7% no segundo trimestre, ligeiramente acima das previsões (6,6%). Já o índice PCE avançou 6,5% no período (alta de 6,1% do núcleo). A nota negativa para a economia americana foi a alta de 11 mil nos pedidos semanais de auxílio desemprego, para 362 mil (ante projeção de 335 mil).

Em sua fala nesta quinta, Powell também afirmou que os Estados Unidos estão em uma situação muito complicada, já que a inflação está em níveis elevados, enquanto o emprego permanece longe do patamar ideal.

Bolsa

O Ibovespa bambeou para o negativo nesta última sessão do mês e do trimestre, um como outro também desfavoráveis. O índice havia conseguido se firmar em leve alta ao longo de boa parte da tarde, mesmo em dia majoritariamente negativo no exterior ante impasse sobre o teto de gastos nos Estados Unidos, e com pressão adicional sobre o câmbio e os juros futuros no Brasil, em meio à retomada de temores sobre a situação fiscal doméstica, com as negociações sobre o Auxílio Brasil e a tramitação da PEC dos Precatórios. Ao final, mostrava leve baixa de 0,11%, aos 110.979,10 pontos, entre mínima de 110.742,83, do fim da tarde, e máxima de 112.371,02 pontos, com giro financeiro a R$ 42,1 bilhões no encerramento. Na semana, cede agora 2,03%.

Contido por diversos fatores de incerteza, aqui e fora, o Ibovespa tentou e não conseguiu emendar nesta quinta o segundo dia de recuperação moderada, o que, de qualquer forma, não impediria que setembro alongasse a série negativa iniciada em julho, que colocou o terceiro trimestre de 2021 como o segundo pior da pandemia, superado apenas pelo intervalo entre janeiro e março de 2020, quando o índice cedeu 36,86%, em leitura recorde. Até então, a maior perda acumulada em um trimestre, de 31,88%, havia ocorrido entre julho e setembro de 1998 - antes, em 1995, houve queda de 31,58% no primeiro trimestre ante o quarto de 1994, de acordo com AE Dados.

Mesmo com o pior momento da pandemia cada vez mais para trás, em setembro o índice acumulou perda de 6,57% no mês, vindo de quedas de 2,48% e 3,94%, respectivamente, em agosto e julho - no agregado trimestral, a correção negativa foi de 15.822,56 pontos, ou 12,47%. Tendo encerrado o segundo trimestre aos 126.801,66 pontos - não muito distante então do recorde histórico de fechamento, de 7 de junho, aos 130.776,27 pontos -, o Ibovespa acumulou ganho de 8,01% no intervalo abril-junho, após perda de 2,00% nos três primeiros meses do ano, o que colocou os ganhos do semestre a 6,54%. No ano, o índice vira diametralmente e cede 6,75% ao fim do terceiro trimestre. Setembro foi o terceiro pior mês desde o início da pandemia, superado apenas por março e fevereiro de 2020, quando cedeu 29,90% e 8,43%, respectivamente.

Apesar de a situação fiscal doméstica ainda assombrar os investidores, as empresas do setor de commodities contribuíram para mitigar as perdas do Ibovespa, "com o PMI industrial chinês interrompendo o movimento de queda recente", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. Destaque para o setor de siderurgia, com Gerdau PN em alta de 3,95%, CSN ON, de 3,05%, e Usiminas PNA, de 2,68%, vindo o segmento de longa correção decorrente do ajuste negativo nos preços do minério de ferro em setembro - em estabilização e recuperação recente. Vale ON fechou em leve alta de 0,58%, enquanto Petrobras ON e PN cederam, respectivamente, 0,07% e 0,58%.

Nos Estados Unidos, as bolsas também fecharam em queda, com destaque para o Dow Jones (-1,59%) e para o S&P 500 (-1,19%), "em vista da preocupação dos investidores com a economia, em especial sobre o rumo da inflação - após mais um discurso do presidente do Fed, Jerome Powell", acrescenta o analista. Nesta quinta, Powell reiterou que o Fed monitora "com cuidado" as expectativas de inflação, durante audiência na Câmara dos Representantes, e disse que, no médio e no longo prazo, as expectativas de inflação no país coincidem com a meta de 2%. Ao mesmo tempo, voltou a repetir que, se necessário, o BC usará "todos os instrumentos" à disposição para levar a trajetória dos preços rumo à meta.

Na ponta do Ibovespa, PetroRio fechou o dia em alta de 9,50%, Locaweb, de 4,86%, e Gerdau PN, de 3,95%. No lado oposto, pelo terceiro dia, Banco Inter (Unit -7,26%, PN -5,83%), desta vez à frente de Cielo (-4,58%) e de CVC (-3,93%). Os grandes bancos tiveram desempenho misto na sessão, entre perda de 2,91% (Unit do Santander) e leve ganho de 0,14% (Bradesco PN).

Em dólar, o Ibovespa fechou setembro a 20.377,34 pontos, vindo de fim de agosto a 22.966,61 pontos, após julho a 23.378,71 pontos e a 25.496,99 pontos no encerramento de junho, tendo chegado a superar a marca de 26 mil no início daquele mês, com o índice da B3 então na máxima histórica também no intradia, a 131.190,30 pontos em 7 de junho, e com dólar a R$ 5,0324 no mesmo dia - foi então a 26.069,14 pontos, superando as marcas observadas em maio, com a moeda americana chegando a R$ 4,90 no melhor momento de junho.

"O fechamento de setembro foi bem negativo, após uma manhã que sugeria algo melhor para a sessão, o que envolveu também briga para o fechamento da Ptax (no meio do dia) - dólar ameaçou ceder bastante e acabou virando, devolvendo a queda a partir ali das 9h40, 9h50, logo antes da primeira janela da Ptax, com o mercado ainda digerindo o relatório trimestral de inflação", diz João Vitor Freitas, analista da Toro Investimentos. "Tivemos outros pontos que pesaram para o Ibovespa no mês, além de auxílio emergencial e teto de gastos, e todo o 'taper talk' em torno do que o Fed fará, se a economia continuará a caminhar, com as próprias pernas, quando esses estímulos forem retirados (nos EUA)", acrescenta.

Juros

Os juros não sustentaram o movimento de queda visto pela manhã e subiram à tarde, em meio a declarações do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, à instabilidade nos mercados internacionais e preocupações com o cenário fiscal. Mesmo com a sinalização do Copom de que levará a taxa Selic para onde for necessário para recolocar a inflação na meta, a curva fechou setembro praticamente com o mesmo nível de inclinação do fim de agosto, refletindo a postura mais <i>hawkish</i> do Federal Reserve - que levou a uma disparada recente nos rendimentos dos Treasuries-, a falta de avanço nas reformas econômicas e indefinições do cenário fiscal.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 subiu de 9,13% para 9,20% e a do DI para janeiro de 2025, de 10,215% para 10,28%. O DI para janeiro de 2027 fechou com taxa de 10,69%, de 10,573% na quarta-feira. O diferencial entre as taxas de janeiro de 2023 e janeiro de 2027 ficou nesta quinta-feira em 149 pontos-base, de 145 pontos na quarta e 147 pontos no fechamento de agosto.

Pela manhã, as taxas conseguiam dar sequência à baixa de quarta-feira, com o mercado digerindo sem traumas o RTI e os dados da Pnad, enquanto o exterior não tinha uma tendência bem definida. Se mantiveram em queda moderada inclusive quando saiu o edital do leilão do Tesouro, com lote de 14 milhões de LTN, o dobro em relação ao de 7 milhões ofertado 15 dias atrás nos mesmos vencimentos. No começo da tarde, porém, o recuo perdeu fôlego até que passaram a oscilar com viés de alta, entrando definitivamente em terreno positivo na última hora de negócios.

No período vespertino, as taxas dos Treasuries também passaram a subir com o reforço no discurso do Federal Reserve de que o tapering deve começar nos próximos meses. "Tivemos a piora lá fora e também, depois do RTI, o reforço na mensagem de Campos Neto sugerindo Selic terminal mais alta", disse o diretor de Gestão de Renda Fixa e Multimercados da Quantitas Asset, Rogério Braga. Ele considerou as declarações, dadas durante entrevista sobre o RTI, "hawk". "Saímos mais uma vez com a impressão de que o patamar final é acima do que o boletim Focus precifica", disse.

Segundo Campos Neto, o patamar da Selic no fim do ciclo conta mais do que ritmo de alta para convergência da inflação à meta no horizonte relevante. "Explicitamos que a Selic terminal é mais importante que o ritmo em si. E há um trade-off entre essa importância e a vantagem de se ter mais tempo para analisar informações em um ambiente volátil", argumentou o presidente do BC. Ele evitou falar em patamar máximo, mas disse que os próximos dados sobre atividade e inflação vão ser importantes para definir o nível final.

Na reta final da sessão regular, as taxas renovaram máximas com o desconforto trazido pela a informação apurada pelo Broadcast sobre a PEC dos Precatórios.


publicidade

publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895