Dólar fecha em queda de 0,51%, após o Banco Central injetar US$ 1 bilhão no mercado

Dólar fecha em queda de 0,51%, após o Banco Central injetar US$ 1 bilhão no mercado

Moeda norte-americana encerrou dia cotada a R$ 5,50

AE

Dólar acumula alta de 1,15% no mês e de 6,19% no ano

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Em dia de expectativa pela ata do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), o que mexeu mesmo com o dólar no mercado doméstico de câmbio foi a mão pesada do Banco Central, com o anúncio da oferta de até US$ 1 bilhão em novos swaps cambiais logo após às 15 horas - justamente no momento em que era divulgado o documento do BC americano.

A intervenção da autoridade monetária quebrou a onda de escalada do dólar, que havia corrido até a máxima de R$ 5,5731 no início da tarde, na contramão do comportamento da moeda americana no exterior. Esse descasamento era visto como um sinal de "disfuncionalidade" do mercado em meio à demanda pontual e concentrada por dólares, seja para hedge ou até mesmo por conta de movimentos especulativos.

O dólar começou a murchar assim que o BC anunciou a oferta e se firmou em queda em meio à realização do leilão, com todos os 20 mil contratos (US$ 1 bilhão) sendo absorvidos. Com um vendedor de peso no mercado, o dólar à vista desceu até a mínima de R$ 5,5001. No fim da sessão, era negociado a R$ 5,5091, em queda de 0,51%. O giro com contrato futuro para novembro era elevado, na casa dos US$ 15,6 bilhões.

Analistas ouvidos pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) não acreditam que o BC tenha tentado defender certo nível para o dólar, mas atuado para prover liquidez e atenuar eventuais distorções na formação da taxa de câmbio. Pela manhã, diante do descolamento do real em relação a seus pares, havia rumores até de que o mercado estaria "chamando o BC", já que não havia um fato forte que justificasse a alta da moeda americana por aqui.

O head de Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weig, ressalta que dois principais pares do real - o rand sul-africano e peso mexicano - subiam com força enquanto a moeda brasileira se enfraquecia. "Havia muito fluxo comprador de dólares hoje e o BC entrou para suprir essa demanda", diz Weigt, ressaltando que o BC não tenta defender um valor da taxa de câmbio e atua "quando o mercado está disfuncional ou quando vê uma demanda pontual".

Na mesma linha de raciocínio, o head de câmbio da Acqua-Vero Investimentos, Alexandre Netto, não viu na atuação do BC uma tentativa de defender determinado patamar para a taxa de câmbio. "Esse BC não tem como característica intervir para defender nível do dólar, mas para prover liquidez em momentos de distorção. Pode ser que tenha havido um fluxo grande de saída, dado que o BC colocou toda a oferta de swaps", diz Netto, acrescentando que parte do descolamento do real em relação a outros emergentes pela manhã pode ser explicado "em parte pela percepção dos riscos domésticos".

Pela manhã, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, reiterou que o BC não interfere no câmbio para combater a inflação, papel que cabe ao manejo da taxa Selic no regime de metas. "Não faremos isso intervir no câmbio para controlar a inflação. No curto prazo, o câmbio tem mais efeito, mas, no horizonte relevante, não", disse, sobre os tempos diferentes de efeito do câmbio e da Selic sobre a dinâmica dos índices de preços.

O mercado segue com um pé atrás por conta das preocupações com a questão fiscal - em meio à tramitação da PEC dos Precatórios e ao impasse em torno da reforma do Imposto de Renda, essenciais para a implementação do Auxílio Brasil. Nesta quarta, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), disse que a votação da PEC dos Precatórios ocorrerá na próxima semana e deve resultar em uma "vitória tranquila". Se a proposta for aprovada do jeito que está, será aberto um espaço de aproximadamente R$ 50 bilhões no Orçamento de 2022 - o que permitiria o pagamento das emendas parlamentares e a adoção do Auxílio Brasil sem que se rompesse o teto de gastos.

Rodrigo Friedrich, sócio da Renova Invest, tem uma visão positiva sobre o real e acredita que a taxa de câmbio pode recuar até uma faixa entre R$ 5,25 e R$ 5,30 no fim do ano. "Se na semana que vem tiver o desfecho do precatório e o mercado gostar, podemos ver uma bolsa mais forte e dólar para baixo. Eu acredito numa realização do dólar no curto prazo", afirma Friedrich, que não aposta em alta dos juros nos Estados Unidos em 2022, o que limitaria o fôlego global da moeda americana.

No exterior, o índice DXY - que mede a variação do dólar frente a seis moedas fortes - operou em queda firme ao longo de todo o dia, flertando com o rompimento do patamar dos 94,000 pontos. A moeda americana também recuou em bloco frente às divisas emergentes (à exceção da lira turca), com perdas de mais de 1% em relação ao rand sul-africano, ao peso mexicano e ao peso chileno.

Esse comportamento não mudou após a divulgação da ata do Federal Reserve. Como esperado, o documento trouxe a informação de que o Fed pode começar a reduzir a compra mensal de bônus (<i>tapering</i>) em meados de novembro ou em dezembro e encerrar o programa de estímulos na metade do ano que vem. Mais uma vez, o Fed reiterou que não há ligação direta entre o fim da injeção de recursos e o início de uma alta dos juros, embora alguns dirigentes da instituição tenham levantado a possibilidade de uma elevação dos juros no fim de 2022.

Juros

Os juros futuros fecharam com queda nas taxas intermediárias e longas e estabilidade na ponta curta, resultando em perda de inclinação para a curva. Apesar da agenda promissora de indicadores e eventos nos Estados Unidos nesta quarta-feira, com a inflação ao consumidor pela manhã e a ata do Federal Reserve à tarde, foram as declarações do diretor de Fabio Kancuzk, lidas como "hawk", que definiram o desenho, ainda na primeira etapa. Ele reforçou que o Copom tem um plano de voo para inflação convergir à meta ainda em 2022, mesmo diante do risco de que o ciclo de aperto monetário possa abalar a economia. O recuo da ponta longa teve ainda ajuda da baixa do rendimento dos Treasuries e dos preços do petróleo.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou em 9,05%, de 9,065% no ajuste de segunda-feira e a do DI para janeiro de 2025 caiu de 10,075% para 10,01%. O DI para janeiro de 2027 encerrou com taxa de 10,43%, de 10,513%. O diferencial entre as taxas de janeiro de 2023 e janeiro de 2027 ficou em 138 pontos, ante 145,5 pontos na segunda-feira.

A trajetória descendente prevaleceu durante boa parte do dia, com exceção de alguma volatilidade vista após a divulgação do índice de inflação ao consumidor (CPI, em inglês), que ficou levemente acima das expectativas, mas com núcleos em linha com o esperado. Depois, o dado foi absorvido, mas ainda restava a espera pela ata do Fed, à tarde. O impacto do texto, no entanto, foi bastante comedido, sem alterações nas estimativas do mercado para o início do tapering em novembro e aumento de juros em 2022.

O estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, destaca o movimento de "flattening" da curva após a fala de Kanczuk, em evento do HSBC, reforçando o compromisso com a inflação na meta em 2022. "O mercado vinha numa percepção de que o BC poderia ampliar o horizonte de convergência, pois trazer a inflação para a meta no ano que vem seria bastante custoso para a atividade. Mas ele não foi nesta direção", disse.

"Queremos fazer 2022 como foco, se não tenho 2022 certo, não tenho 2023 certo. Estamos mais preocupados com 2022. É 2022 que estamos olhando. No balanço entre suavizar e olhar para 2022 e convergência, estamos olhando mais para 2022 do que usual suavização do ciclo", afirmou o diretor do BC, citando as frequentes surpresas de alta do IPCA.

Kanczuk disse também que o BC não pode considerar a discussão sobre dominância fiscal como impedimento para elevar juros, alegando que esta é uma questão para o Ministério da Economia.

Justamente em função da expectativa de inflação de 2022 (3,7%) estar desenquadrada da meta de 3,5%, e diante dos riscos fiscais, será necessário levar a Selic para terreno contracionista. O diretor reafirmou o a ideia de aplicar o aperto no ritmo de 1 ponto porcentual, mas disse que "não é um compromisso e que o BC pode alterá-lo se for necessário". A aposta de nova elevação de 1 ponto na atual Selic de 6,25% nas próximas reuniões do Copom segue amplamente majoritária na curva de juros.

Bolsa

Pela segunda vez em três sessões, o Ibovespa retomou o nível de 114 mil pontos nos melhores momentos do dia, à tarde, sem conseguir sustentá-lo até o fechamento desta quarta-feira, mesmo com a mudança de sinal do dólar, para baixo, após oferta de contratos de swap pelo BC, o que contribuiu para retirar parte da pressão sobre o câmbio. A ata do Federal Reserve foi recebida sem sobressaltos pelo mercado, aqui e lá fora, em expectativa para o documento que havia sido reforçada, pela manhã, por novo avanço da inflação ao consumidor nos Estados Unidos, na leitura referente a setembro.

Ainda assim, o pós-feriado foi positivo para o Ibovespa apesar da cautela vista em boa parte da sessão em Nova York, com os investidores monitorando bem de perto sinais sobre a inflação e o ritmo de atividade global.

Em dia de vencimento de opções sobre o Ibovespa, o que costuma acirrar a disputa entre comprados e vendidos, a referência da B3 mostrava ganho de 1,14% no fechamento, aos 113.455,92 pontos, tendo chegado na máxima, no meio da tarde, aos 114.158,88 pontos, saindo de abertura a 112.180,48, com mínima nesta quarta-feira a 111.807,17 pontos. O giro financeiro totalizou R$ 66,0 bilhões, reforçado pelo vencimento de opções.

Na semana e no mês, o Ibovespa mostra sinal positivo, com avanços respectivamente de 0,55% e 2,23%, limitando as perdas do ano a 4,67%. Mais uma vez, o índice mirou os 114 mil pontos, marca rompida no intradia na última sexta-feira pela primeira vez desde 27 de setembro e não alcançada em fechamento desde o último dia 23.

Ao final, os ganhos em Petrobras (ON +1,78%, PN +1,06%) e, em menor grau, na maior parte das ações de grandes bancos (Bradesco ON +0,51%, Itaú PN +0,12%) acabaram neutralizando o efeito da queda em Vale (ON -2,96%, segunda maior perda do dia na carteira Ibovespa, atrás de PetroRio -3,02%) e de parte do setor de siderurgia (Usiminas PNA -1,33%, quinta maior queda do dia; CSN ON -2,31%, terceira maior perda no Ibovespa desta quarta-feira). Na ponta oposta, destaque para a recuperação observada tanto em Banco Pan (+9,68%) como em Banco Inter (PN +8,71%, Unit +7,80%), à frente de Petz (+6,73%) e Pão de Açúcar (+6,72%).

As ações da Petrobras conseguiram operar na contramão do sinal emitido pelas cotações da commodity, em baixa moderada na sessão. Em relatório mensal divulgado nesta quarta, a Opep reduziu sua previsão de alta na demanda global em 2021, para 5,8 milhões de barris por dia. O corte na projeção foi justificado pela demanda abaixo do esperado nos primeiros nove meses deste ano.

"O Ibovespa bateu nos 114 mil pontos sem nada extraordinário que justificasse esse movimento, no cenário econômico, a não ser o histórico do mercado nos últimos meses, que apanhou muito com a perspectiva de elevação de juros e, aqui, também a incerteza sobre as contas públicas, o risco fiscal, que resultou em redução do fluxo estrangeiro e em toda essa volatilidade que a gente tem acompanhado", diz Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos.

"Sem novidades ruins, há espaço para recuperação, especialmente para as empresas do setor varejista, que apanharam bastante, com sazonalidade de fim de ano que costuma favorecer o segmento", acrescenta Abdelmalack, observando também que a ata do Fed não trouxe "nada além do que o mercado já vinha acompanhando", como a possibilidade de o cronograma do 'tapering', como é conhecida a retira de estímulos monetários, ser iniciado em novembro.

No exterior, além do noticiário do petróleo, da ata do Fed e de novos dados sobre a inflação americana, os investidores monitoram o começo da temporada de balanços do terceiro trimestre, aponta Pietra Guerra, especialista em ações da Clear Corretora. "Como de costume, grandes bancos divulgando os seus números", entre os quais o JP Morgan, nesta quarta, com "balanço acima do esperado". "Do lado político, a Câmara aprovou medida para elevar o teto da dívida (americana) em US$ 480 bilhões. Essa aprovação traz certa tranquilidade, solvência para o país pelo menos até o dia 3 de dezembro", acrescenta.

Em outro destaque positivo vindo do exterior, logo cedo, a balança comercial da China trouxe superávit acima do esperado em setembro, apesar dos recentes problemas que colocaram em questão o ritmo de retomada da atividade econômica por lá. "Há gargalos na produção, dificuldades também com mão de obra e fontes de energia na China, e com todos esses problemas não se esperava a recuperação da balança vista em setembro, com salto de 28,1% nas exportações sobre o ano anterior. A demanda global segue firme e forte", diz Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos.

 


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