Dólar fecha em queda de 0,75% em meio a bom humor com dados do varejo
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Dólar fecha em queda de 0,75% em meio a bom humor com dados do varejo

Com sinais positivos da reforma da previdência, moeda americana encerrou o dia a R$ 4,064

Por
AE

Ibovespa encerrou o dia em alta de 0,40%, aos 103.445,60 pontos

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Dados surpreendentes das vendas no varejo, aliados a sinais positivos da reforma da previdência e aos efeitos cumulativos das intervenções do Banco Central no mercado de câmbio, deram fôlego extra ao real nesta terça-feira. Descolado do ambiente de fortalecimento da moeda americana frente a divisas emergentes, o dólar à vista operou em queda ao longo de toda a sessão e, após registrar mínima de R$ 4,0526, encerrou o dia a R$ 4,0648, em queda de 0,75%.

A alta nas vendas no varejo restrito (1%) e ampliado (0,7%) em julho (na margem) superou o teto da estimativas colhidas pelo Projeções Broadcast. Também houve revisão para cima do crescimento do varejo na margem em junho e maio.

A economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianotto, observa que os números do varejo deram ânimo ao mercado acionário brasileiro, o que acabou contribuindo para o fortalecimento do real. "Não dá para afirmar que a economia agora vai deslanchar, mas foi uma surpresa muito positiva e acabou contribuindo para o dólar se descolar lá de fora", afirma.

Simone também destaca o impacto positivo da informação de que o relator da reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Tasso Jereissati, em consulta com técnicos legislativos, pode alterar seu parecer para evitar que o texto tenha que voltar a Câmara dos Deputados.

Segundo operadores ouvidos pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, o maior apetite ao risco exterior e a diminuição das tensões na Argentina nos últimos dias diminuíram a atratividade das apostas especulativas contra o real. Por outro lado, a cautela em relação a um eventual recrudescimento da guerra comercial e seus eventuais efeitos sobre a economia global desautorizam uma queda mais acentuada do dólar.

Em meio à espera pela reunião bilateral entre China e Estados Unidos em outubro, trouxe certo alívio aos negócios nesta terça-feira a decisão dos chineses de retirar 16 produtos americanos da lista da sobretaxação. Espera-se também que o Banco Central Europeu, que tem nesta quinta sua decisão de política monetária, anuncie novos estímulos, como um pacote de compra de ativos. Investidores também contam com um novo corte de juros nos Estados Unidos na próxima semana, quando há encontro do comitê de política monetária do Federal Reserve.

O gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, observa que, além do ambiente externo mais ameno, os efeitos cumulativos da atuação do Banco Central acabam dando certa sustentação ao real. Além disso, há expectativa de melhora do fluxo cambial nos próximos meses, com entrada de recursos para leilões da cessão onerosa e de privatizações. "Lá fora o clima acalmou. Aqui, as reformas estão andando e a economia dá algum sinal de melhora. Com esses fatores e um BC atuante, suprindo a demanda no mercado à vista, a dinâmica do mercado de câmbio ficou melhor", diz Galhardo.

Pela manhã, o BC colocou integralmente as ofertas de US$ 580 milhões nos leilões de dólares à vista e de swap cambial reverso. À tarde, informou que o fluxo cambial em setembro até o dia 6 foi negativo em US$ 1,591 bilhão, com saídas líquidas de US$ 1,744 bilhão pelo canal financeiro. No acumulado do ano, o fluxo é negativo em US$ 8,177 bilhões. Para se ter uma ideia da magnitude desses números, basta lembrar que em igual período do ano passado o saldo era positivo em US$ 23,303 bilhões.

Índice Bovespa

O Ibovespa defendeu a região dos 103 mil pontos pelo terceiro dia consecutivo nesta quarta-feira, aproveitando os ventos externos e perspectivas locais mais favoráveis. Os papéis de companhias que podem ser beneficiadas pela retomada da economia, como varejo e construção civil, deram o tom positivo à sessão de negócios depois de recuarem na véspera ao mesmo tempo em que dados de vendas no país surpreenderam positivamente. No contraponto, todas as blue chips fecharam no vermelho.

A bolsa abriu em alta firme com os investidores comprando risco com melhores perspectivas a respeito do fôlego que a economia brasileira pode estar tomando. Notícias de que as vendas no varejo em julho avançaram 1% em relação ao mês anterior, sendo o melhor desempenho para o mês de 2013, e de que o governo está destravando a contratação de unidades do Minha Casa Minha Vida, ajudaram a impulsionar o índice que chegou a bater na máxima dos 104.155 pontos.

No entanto, na segunda parte do dia, uma virada de mão na cotação do petróleo no mercado internacional, com o anúncio de que os Estados Unidos podem relaxar as sanções sobre o Irã, abateu os papéis da Petrobras, que juntamente com uma realização para o setor de bancos, limitaram os ganhos do Ibovespa, que ainda assim encerrou o dia em alta de 0,40%, aos 103.445,60 pontos. O giro financeiro foi de R$ 16,3 bilhões.

Para Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença Corretora, sem fato novo para alavancar a bolsa, toda vez que chega perto dos 104 mil pontos, ela volta. "Tem subido em função de eventos setoriais e corporativos, mas para alavancar precisa de um fato importante que empolgue os investidores locais, que é quem está puxando a bolsa."

A notícia quase no encerramento do pregão de que o secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, foi exonerado do cargo por causa de divergências sobre a implantação de um novo tributo nos moldes da antiga CPMF não teve impacto nos papéis. Monteiro lembra que os investidores não acreditavam que esse novo tributo iria passar no Congresso, ainda mais após declarações bastante contundentes tanto do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), quanto do Senado, David Alcolumbre (DEM-AP). "O que o governo tem que fazer não é arrecadar mais, e, sim, cortar despesas", diz.

Taxas de juros

O alívio dos juros longos, que prevaleceu durante a maior parte desta quarta-feira, perdeu força no fim da sessão regular e, assim como os curtos, essas taxas fecharam perto da estabilidade. O movimento coincidiu com a melhora no apetite pelo risco no exterior no fim da tarde, que levou as bolsas americanas a baterem máximas e ampliou a alta do rendimentos dos Treasuries, sobretudo o da T-Note de dez anos. As taxas curtas já operavam próximas aos ajustes desde o período da manhã, limitadas pelas vendas do varejo acima do esperado, mas que não alteraram a percepção sobre a Selic, enquanto as longas recuavam junto com o dólar, que chegou a tocar novamente os R$ 4,05 nas mínimas na primeira etapa.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou em 5,38%, de 5,348% terça no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 ficou estável em 6,45%. A taxa do DI para janeiro de 2025 encerrou em 7,00%, de 7,011%.

No fim da tarde, a T-Note de dez anos projetava juro de 1,743%, ante o patamar de 1,73% de terça, enquanto a taxa de dois anos, ao contrário, estava no patamar de 1,67%, estável ante a de terça. O diferencial entre as duas taxas vem se alargando e traz alívio às preocupações com a economia americana, que vinham assombrando os mercados em agosto quando a curva estava invertida e indicando recessão mais à frente. A redução no pessimismo também está relacionada à decisão da China de isentar a importação de alguns produtos norte-americanos das tarifas extras, o que representa um alento na guerra comercial. Nesse contexto, o mercado já está trabalhando com a possibilidade de que o Banco Central Europeu (BCE) nesta quinta não seja tão "dovish" quanto o esperado.

No Brasil, o destaque foi a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC). Os resultados tanto do varejo restrito (+1,0%) quanto do ampliado (+0,7%) em julho ante junho superaram as estimativas dos analistas, que tinham como teto altas de 0,8% e 0,4%, respectivamente. No caso do varejo restrito, foi o melhor resultado para o mês desde 2013. Além disso, houve revisão para cima numa série de dados dos meses anteriores. Apesar de mais fortes que o previsto, os números não alteraram a percepção sobre os cortes da Selic, mas, por outro lado, também não justificam aumento da exposição ao risco prefixado na ponta curta. Na precificação da curva, a possibilidade de redução da taxa básica em 0,5 ponto porcentual no Copom de setembro já supera 90%.

Segundo profissionais nas mesas de operação, ao induzir um sentimento de melhora na atividade doméstica, a PMC levou os investidores a comprarem Bolsa e a tomarem juros curtos e venderem os longos. "Houve fluxo de venda de estrangeiro na parte longa da curva", disse um gestor. O dólar bem comportado também foi importante para ajudar a curva a desinclinar durante o dia, ainda que no fim da tarde esse movimento tenha se enfraquecido.