Dólar fecha em R$4,06 e bate maior nível em três meses
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Dólar fecha em R$4,06 e bate maior nível em três meses

No mês, valorização da moeda norte-americana já soma 6,45%

Por
AE

Divisa está no maior nível desde 20 de maio (R$ 4,10)

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O real foi a moeda emergente que mais perdeu valor nesta segunda-feira ante o dólar. A divisa americana se fortaleceu de forma generalizada na economia mundial, com o presidente Donald Trump e membros de seu governo indo a público no final de semana minimizar os riscos de recessão na maior economia do mundo e ressaltando que as negociações comerciais com os chineses prosseguem. A Argentina também pressionou os mercados, em meio à queda do ministro da Economia e à sinalização de reestruturação de dívida. O dólar à vista fechou em alta de 1,58%, a R$ 4,0662, o maior valor desde 20 de maio, quando bateu em R$ 4,10. No mês, a valorização do dólar já soma 6,45%.

Também contribuiu para o fortalecimento do dólar declarações do presidente da regional de Boston do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Eric Rosengren, membro votante das reuniões de política monetária este ano. Ele minimizou o risco de piora da atividade econômica americana, afirmando que o "quadro é positivo" e que não vê motivo para mais corte de juros neste momento. Na Argentina, com o mercado fechado por causa de um feriado local, mas com forte queda dos American Depositary Receipts (ADRs) de companhias do país em Nova Iorque, operadores ressaltam que investidores seguiram vendendo Brasil para fazer face ao aumento do risco no país vizinho.

Por ser o mercado mais líquido da região, o Brasil acaba sendo afetado pela zeragem de posições, ressalta o sócio e gestor da Paineiras Investimentos, David Cohen. Outras moedas, como o rand da África do Sul, também foram penalizadas por esse movimento. Cohen avalia que a volatilidade no mercado de câmbio vai seguir alta e as moedas de emergentes vão continuar pressionadas, por conta da maior demanda por dólar na economia mundial, com investidores em busca de proteção. Com isso, mesmo com as notícias positivas locais, o ambiente externo acaba predominando, ressalta o gestor. "O real caiu acompanhando a cesta de moedas emergentes, embora em ritmo mais acelerado aqui", afirma o responsável pela área de câmbio da Terra Investimentos, Vanei Nagem.

O temor de recessão mundial segue pressionando as moedas de emergentes, com os investidores fugindo de ativos de risco. A dúvida, ressalta ele, é se o início da venda de dólares das reservas pelo Banco Central, na quarta-feira, vai ajudar a reverter este quadro. Além das reservas, o BC vai ofertar swaps reversos (compra de dólares no mercado futuro) e swaps tradicionais (venda de dólares no mercado futuro).

No exterior, o índice DXY, que mede a variação da moeda americana ante divisas fortes, como o euro e a libra, atingiu um dos maiores níveis de agosto, a 98,390 pontos. Um dos termômetros do enfraquecimento das moedas dos emergentes é o fundo de índice (ETF, na sigla em inglês) WisdomTree Emerging Currency Fund, negociado em Nova Iorque. A carteira teve queda de 0,71% nesta segunda-feira, recuando para os menores níveis desde maio. Bovespa - Com sinais de migração de recursos para ativos mais conservadores, o Índice Bovespa não conseguiu acompanhar o bom desempenho das bolsas de Nova York e fechou em baixa de 0,34% nesta segunda-feira, aos 99.468,67 pontos. Pela manhã, o índice havia chegado a subir 1,14%. A alta de 1,58% do dólar foi um dos principais sintomas da fuga de recursos externos no pregão.

Apesar da melhora na percepção de risco para a economia global, o investidor manteve a cautela nos mercados emergentes e o real foi a moeda que mais se desvalorizou ante o dólar. "Há muitas coisas que afetam os mercados emergentes acontecendo ao mesmo tempo. A Argentina é um desses fatores, pois o país está lotado de problemas, mas não tem liquidez, o que acaba por afetar o Brasil", disse Alvaro Bandeira, economista da Modalmais. Mesmo com os mercados argentinos fechados, os ADRs (American Depositary Receipts) da Argentina registraram fortes perdas na Nasdaq.

No final de semana, o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, pediu demissão do cargo. Já o candidato kichnerista Alberto Fernández, que lidera as intenções de voto no país, disse que o acordo firmado pelo atual governo para pagamento de dívidas junto ao FMI é impossível de ser cumprido. Ao final da tarde, o ADR da Telecom Argentina caía mais de 7%. Para o analista Victor Beyruti, da Guide Investimentos, os sinais de que a economia dos Estados Unidos segue robusta e que as relações com a China podem melhorar vêm reforçando o papel de "porto seguro" do dólar perante ativos de maior risco. Não à toa que o noticiário positivo da manhã levou o dólar a se fortalecer ante moedas fortes e emergentes. "Esse dólar bastante forte lá fora indica que há aversão ao risco, uma vez que o investidor vê robustez na economia americana e grande incerteza nas demais", afirma. Além disso, ressalta o analista, o cenário doméstico brasileiro não tem um "driver" que faça o investidor olhar para o Brasil com "mais carinho". Toda a agitação dos últimos dias com o noticiário envolvendo guerra comercial entre Estados Unidos e China e indicadores econômicos fracos na Europa vem castigando principalmente as ações do setor de materiais básicos.

Nesta segunda a alta dos preços do petróleo favoreceu a recuperação das ações da Petrobras, que subiram 0,50% (PN) e 1,36% (ON). No acumulado de agosto, no entanto, elas contabilizam perdas superiores a 6%.

Taxas de juros

Os juros futuros, que têm apresentado certa resistência aos movimentos de aversão ao risco, nesta segunda não conseguiram escapar da piora da percepção sobre ativos de economias emergentes, sobretudo moedas. Após oscilarem perto da estabilidade e encerrarem a manhã com viés de baixa, as taxas passaram a subir à tarde, acompanhando a piora do câmbio que deixou os R$ 4 para trás para encerrar na casa dos R$ 4,06. O movimento é visto ainda como ajuste e não tendência, sem afetar estruturalmente as apostas para a política monetária, embora a trajetória do dólar agora tenha de ser acompanhada de mais perto.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou a sessão regular na máxima de 5,46%, de 5,399% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 6,371% para 6,43%. O DI para janeiro de 2025 encerrou em 6,93%, de 6,881%. A trajetória altista se deu num ambiente de fraca liquidez, típica das segundas-feiras. O DI janeiro de 2021, destaque da ponta curta, girou menos de 200 mil contratos, ante média de 288,9 mil nos últimos 30 dias. Dado que a semana é de eventos importantes tanto aqui quanto no exterior, os investidores podem estar aguardando o desenrolar da agenda para definir suas posições e, enquanto isso, a trajetória do dólar é que serve de parâmetro para os DIs.

A moeda americana se fortaleceu ainda mais à tarde após declarações consideradas "hawkish" do presidente do Federal Reserve de Boston, Eric Rosengren, que vota nas reuniões sobre juros. Em entrevista à Bloomberg, ele disse que "não necessariamente" é preciso relaxar mais a política monetária nos Estados Unidos, no quadro atual. "É um sinal preocupante, pois estamos à véspera da divulgação da ata do Fomc e do discurso de Powell. A expectativa era de que declarações antes desses eventos fossem mais leves", disse o economista Breno Martins, da Mongeral Aegon Investimentos.

A ata do Fomc sai na quarta-feira e o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, discursa na sexta no Simpósio Anual de Jackson Hole. O ambiente para emergentes já vinha mais conturbado desde que o candidato da oposição kirchnerista Alberto Fernández, venceu as primárias das eleições presidenciais na Argentina, na semana passada. Para piorar, o ministro da Economia do país, Nicolás Dujovne, renunciou o cargo no fim de semana e Fernández declarou que o acordo firmado pelo atual governo para pagamento de dívidas junto ao FMI é "impossível de cumprir". Como os mercados argentinos estão fechados por conta de feriado, o real, a lira e outras moedas emergentes foram os principais alvos de liquidação.