Dólar fecha no menor nível desde 31 de julho após reunião do BC dos EUA

Dólar fecha no menor nível desde 31 de julho após reunião do BC dos EUA

Moeda norte-americana encerrou custando R$ 5,2384 nesta quarta-feira

Por
AE

Moeda norte-americana encerrou custando R$ 5,2384 nesta quarta-feira


publicidade

A sinalização pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) de que os juros nos Estados Unidos não devem subir ao menos até 2023 ajudou o dólar a aprofundar o ritmo de queda ante o real, enquanto os investidores aguardam a decisão do Banco Central do Brasil.

Logo após o Fed divulgar seu comunicado, seu presidente, Jerome Powell, mostrou intenção de manter a política monetária atual para assegurar emprego e estabilidade de preços, embora tenha ressaltado que o cenário ainda é bastante incerto e alguns setores podem demorar mais a se recuperar. Em meio às declarações, o dólar caiu para as mínimas do dia, na casa dos R$ 5,21.

No fechamento dos negócios, o dólar à vista encerrou em baixa de 0,96%, cotado em R$ 5,2384, a menor taxa desde 31 de julho (R$ 5,2170). No mercado futuro, o dólar para outubro era negociado em queda de 0,73%, em R$ 5,2395 às 17h.

"Cada vez mais parece que não haverá aumento de taxas pelo Fed até 2024", avalia o economista-chefe da Fitch Ratings, Brian Coulton. Para ele, os dirigentes do Fed mostraram postura "bem dovish" hoje, ou seja, favoráveis a juros baixos e manutenção dos estímulos. Além disso, Coulton destaca que o Fed melhorou as previsões para o curto prazo na economia americana.

Para a reunião do BC brasileiro, a analista de moedas do Commerzbank, Alexandra Bechtel, avalia que, caso o BC deixe "alguma porta aberta" para futuros cortes de juros, mesmo que mais à frente, o real pode se enfraquecer. Mas ela pondera que, com a taxa básica já em nível historicamente baixo, em 2%, não faz muito sentido entrar em novos experimentos neste momento com a Selic no Brasil.

Além disso, a analista observa que indicadores da atividade têm mostrado bons números, mais um motivo para o BC ser cauteloso, incluindo também a questão fiscal delicada.

Empresas continuam acessando o mercado internacional para captar recursos, mas sem impacto relevante no fluxo. Nesta quarta, foi a vez da BRF, com emissão de US$ 500 milhões. Os dados do Banco Central deste mês mostram fluxo cambial negativo em US$ 568 milhões em setembro, até o dia 11. Somente pelo canal financeiro saíram US$ 880 milhões no período.

Juros

As indicações do Federal Reserve trouxeram algum alívio para os juros domésticos, que desaceleraram o ritmo, mas ainda fecharam o dia em alta firme. Além do comunicado reforçar a sinalização que os fed funds futuros permanecerão baixos nos próximos anos, o presidente da instituição, Jerome Powell, reafirmou o compromisso em apoiar a recuperação econômica, prometendo juros baixos até que sejam alcançadas as metas de máximo emprego e inflação média a 2% no longo prazo.

Internamente, por outro lado, vários fatores de estresse justificaram a pressão nas taxas, como a expectativa de uma comunicado "hawkish" (mais duro) do Comitê de Política Monetária (Copom) e de mais uma oferta elevada de títulos no leilão do Tesouro na quinta, além da informação de que o presidente Jair Bolsonaro quer reativar o programa Renda Brasil via Congresso Nacional.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou em 2,89%, de 2,873% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 4,154% para 4,25%. O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 6,12%, de 6,034% na terça. O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa em 7,12%, de 7,023%.

Os juros oscilavam perto da estabilidade até o meio da manhã, quando então passaram a subir em linha com a perda de força do real e também com a antecipação do mercado ao leilão na quinta. Investidores reduziram posições vendidas diante da possibilidade de mais um lote pesado de LTN, embora na semana passada a instituição já tenha feito oferta recorde de 43 milhões destes títulos. Há expectativa também em relação à oferta de LFT, em função do elevado deságio visto nas negociações do secundário desde o leilão da semana passada.

Segundo o Haitong Banco de Investimentos, a curva projetava 100% de chance de Selic estável nesta quarta. O economista da Eleven Financial Research, Thomaz Sarquis, espera poucas alterações no comunicado em relação ao de agosto.

Um ponto fundamental serão, assim como no caso do Fed, as indicações de como o Copom está enxergando inflação de 2021 e 2022, o chamado horizonte relevante. "Os componentes em si não devem mudar, mas o BC deveria dar muita ênfase ao risco fiscal porque de lá para cá as pressões para flexibilizar o teto dos gastos aumentaram, as perspectivas de reformas mostraram pouco avanço e o Tesouro está com dificuldade de se financiar", avalia. "O juro baixo não é condizente com o grau do risco prospectivo do País."

As máximas foram atingidas no começo da tarde, com a confirmação de que o presidente Jair Bolsonaro pode bancar a criação de um novo programa social, um dia após ter dito que estava proibido no governo de se falar em Renda Brasil. A retomada será feita por meio do Congresso, conforme antecipado na terça pelo Estadão/Broadcast. O senador Márcio Bittar (MDB-AC), relator do Orçamento de 2021, disse que foi autorizado por Bolsonaro a incluir a criação desse novo programa no seu relatório.

Na sequência, o comunicado do Fed e a entrevista de Powell conseguiram tirar os juros das máximas. Segundo Sarquis, a sinalização do Fed ajuda a manter os juros em níveis baixos no Brasil. "É um estímulo para diversificação de risco e ajuda o Brasil, gerando menos pressão sob a moeda", diz ele. "Não é, contudo, suficiente por causa do aumento da inflação ao produtor e dos riscos fiscais intrínsecos à economia", explicou.

Bolsa

O Ibovespa chegou a oscilar levemente para o positivo logo após a decisão de política monetária do Federal Reserve, quando os índices de Nova York acentuavam ganhos, mas voltou para o vermelho, também moderadamente, ainda durante a entrevista coletiva do presidente do Fed, Jerome Powell, que levou Wall Street a perder entusiasmo, em sinal misto no fechamento. Aqui, a atenção se dividiu com o noticiário doméstico, especialmente a notícia de que o presidente Jair Bolsonaro deu sinal verde ao senador Márcio Bittar (MDB-AC), relator do Orçamento de 2021, para que inclua na proposta um projeto de suporte à renda, após Bolsonaro ter decidido, na terça, colocar fim à ideia do Renda Brasil.

Assim, na expectativa para o comunicado do Copom, o principal índice da B3 se acomodou abaixo dos 100 mil pontos nesta "superquarta", em ajuste negativo de 0,62%, aos 99.675,68 pontos, com mínima a 99.663,02, perto do fim da sessão, e máxima a 100.663,36 pontos, saindo de abertura a 100.298,86. O giro financeiro, muito fraco para um dia de vencimento de opções sobre o Ibovespa, totalizou R$ 22,6 bilhões. Na semana, o índice avança 1,33% e, no mês, 0,31%, enquanto as perdas no ano chegam a 13,81%.

Na entrevista coletiva que esfriou os ânimos em Wall Street, Powell apontou que, apesar de a economia ter se recuperado melhor do que o antecipado, alguns setores vão demorar mais tempo para retornar aos níveis de atividade que prevaleciam antes da pandemia. Ele voltou a defender que o Congresso americano faça a sua parte, por meio de estímulos fiscais - mas, com a aproximação da eleição americana, republicanos e democratas não dão sinais de que o impasse sobre o que deve ser feito venha a ser superado.

"A mensagem de Powell veio ainda em Jackson Hole, com a tolerância a uma inflação eventualmente acima da meta (de 2% ao ano), após tanto tempo de 'undershooting' (inflação abaixo da meta nas principais economias). Mas, como se trata da última reunião do Fed antes da eleição de novembro, havia expectativa reforçada para a comunicação", observa Roberto Attuch, CEO da Omninvest. A eleição ocorrerá no dia 3 de novembro, e o Fed volta a se reunir logo depois, nos dias 4 e 5 do mesmo mês.

Attuch considera que a eleição deste ano nos EUA se desenha com um potencial de incerteza sem precedentes. "Trump já disse que não aceitará derrota e colocou em questão o voto pelo correio. Os dois campos podem vir a não aceitar o resultado, com pedidos de recontagem de votos em Estados-chave ou mesmo podendo levar a decisão para a Justiça, o que implicaria um intervalo de dois ou três meses de indefinição. Seria Flórida 2000 à quinta potência", acrescenta Attuch, referindo-se à disputa eleitoral Bush-Gore do mesmo ano, em que o Estado peninsular foi o fator decisivo da disputa, sacramentada na Suprema Corte dos EUA - a contagem final deu vitória a Bush na Flórida por apenas 537 votos.

Nesta "superquarta" de decisões de política monetária nos EUA e no Brasil, a cautela marcou os negócios na B3 desde cedo, e após a falta de sinais novos do Fed que pudessem estimular o apetite por risco, as perdas se acentuaram mais no Nasdaq, que já acumula queda de 6,16% no mês, após um período de renovação de recordes no setor de tecnologia - nesta sessão, o índice fechou em baixa de 1,25%.

Passado o Fed, a atenção no Brasil se voltou para o Copom. "Esperamos que o BC mantenha a taxa de juros em 2%, aborde os choques de atividade e inflação ocorrendo, estreitando mais a porta para novos cortes no futuro, mas sem fechá-la totalmente", diz Betina Roxo, estrategista-chefe da Rico Investimentos.

"Apesar de o quadro inflacionário ser bastante comportado, já existem alguns itens da cesta de consumo começando a esboçar resposta aos estímulos feitos até agora", acrescenta. "Ou seja: apesar de existir espaço para novos cortes de juros, o fato de algumas medidas de inflação já começarem a apontar para quadro de recuperação, bem gradual, é um primeiro indício de que o espaço (para redução adicional da Selic) é menor do que o que existia até agora."

Nesta sessão, as perdas do Ibovespa foram lideradas por um setor exportador, o de carnes, com Minerva em baixa de 3,61% e JBS, de 3,15%, puxadas por dólar em ajuste negativo de 0,96%, a R$ 5,2384, acumulando a moeda americana até aqui queda de 1,78% na semana e de 4,42% no mês.


No lado oposto, beneficiadas pelo fator cambial na sessão, CVC subiu 4,12%, Azul, 3,78%, e Gol, 3,40%. Entre as blue chips, Petrobras PN subiu 0,28%, em dia de forte avanço do petróleo, enquanto Vale ON cedeu 2,60%. Os bancos tiveram desempenho misto e moderado, com Bradesco PN em alta de 0,20% e Itaú, em baixa de 0,29%.