Dólar fecha o dia a R$ 4,103, maior cotação em oito meses
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Dólar fecha o dia a R$ 4,103, maior cotação em oito meses

Valor da moeda norte-americana à vista foi 0,08% maior do que o registrado na última sexta-feira

Por
AE

No leilão, o BC vendeu a oferta total de US$ 1,250 bilhão, com recompra em 3 de janeiro e 2 de abril de 2020

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Em uma sessão de idas e vindas, o dólar subiu mais um degrau nesta segunda-feira, emendando o quarto pregão seguido de alta. A despeito do leilão do Banco Central para rolagem de linhas e de sinais de acerto entre parlamentares e o Ministério da Economia em torno das alterações no texto da reforma da Previdência, investidores mantêm uma postura cautelosa. Com mínima de R$ 4,0788 e máxima de R$ 4,1221, o dólar à vista fechou a R$ 4,1034 (+0,08%) - maior valor de fechamento desde 19 de setembro de 2018 (R$ 4,1308). Na sexta-feira, a moeda norte-americana fechou cotada a R$ 4,1002.

Segundo operadores, diante dos riscos externos, com a novela nas negociações comerciais entre China e Estados Unidos, e da instabilidade política interna, a ordem é trabalhar sempre com 'hedge'. "Existe muito procura por proteção. Há até uma ideia de quanto o dólar pode recuar, mas não dá para saber até onde pode subir. Além disso, os juros estão mais baixos, o que barateia o hedge", diz o operador da corretora Necton, José Carlos Amado.

A moeda americana até abriu em queda, na expectativa do leilão de linha com recompra do BC. Mas trocou de sinal e passou a subir ainda pela manhã, correndo até a máxima de R$ 4,1221, o maior valor intraday desde 25 de setembro de 2018 (R$ 4,1419). No leilão, o BC vendeu a oferta total de US$ 1,250 bilhão, com recompra em 3 de janeiro e 2 de abril de 2020.

A moeda americana perdeu força ao longo da tarde e chegou a operar momentaneamente em queda. O alívio veio na esteira do enfraquecimento da moeda americana ante divisas emergentes e de declarações do presidente Jair Bolsonaro e do resultado do encontro entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e do relator da Previdência na Comissão Especial da previdência na Câmara, Samuel Moreira (PSDB-SP).

Juros

A semana começou melhor para o mercado de juros, com taxas em queda firme ante os ajustes anteriores e moderada em relação aos níveis de fechamento da sessão estendida da sexta-feira, 17. O destaque voltou a ser a ponta longa, que havia sido a mais castigada pelo estresse do cenário político. Hoje, os prêmios acumulados nas últimas sessões atraíram fluxo doador, com base na avaliação de que a fraqueza da atividade traz conforto para montagem de posições aplicadas.

O noticiário político também deu trégua. Os sinais de que o texto da reforma da Previdência a ser encaminhado pela Câmara deve preservar os principais pontos do projeto enviado pelo governo e de que a ideia não tem resistências por parte do Executivo trouxeram alívio. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 encerrou em 6,97%, de 7,052% no ajuste da sexta-feira e a do DI para janeiro de 2023 caiu de 8,302% para 8,19%. A taxa do DI para janeiro de 2025 terminou em 8,79%, de 8,912%.

A percepção de que o crescimento do País este ano será pífio já pautava os negócios desde a abertura, com a leitura do Boletim Focus, e continuou amparando o recuo nas taxas ao longo do dia. A pesquisa mostrou que a mediana das expectativas para o PIB em 2019 recuou pela 12ª semana consecutiva e passou de 1,45% para 1,24%. Nesta tarde, o economista e ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore disse que a probabilidade é o PIB crescer 1% este ano, com chance maior de ser um pouco menos.

Com isso, segue aquecido o debate sobre a necessidade de novas quedas da Selic para reanimar a economia, mas que ainda não se traduziu efetivamente na curva a termo, que segue precificando majoritariamente estabilidade para a taxa no fim do ano, com alguma chance até de alta - cerca de 18 pontos-base pelos cálculos da Quantitas. Para o ex-diretor do BC Sérgio Werlang, o Copom poderia baixar já o juro, defendendo dois cortes de 0,5 ponto, também em seminário no Rio.

Na avaliação de um gestor, as condições técnicas do mercado abriram uma janela de oportunidade para aplicar. Ele lembra que na sexta-feira o DI "era o pior mercado" e como as taxas subiram entre 30 e 40 pontos na semana, apareceram os doadores. "Com atividade fraca e sem inflação, é baixo o risco de ficar doado", disse.

A percepção com o cenário político melhorou com as notícias do fim de semana e de hoje. Vários membros do Executivo e Legislativo, num esforço comum, tentaram desfazer os ruídos recentes e demonstrar que estão em sintonia quanto à Previdência. O relator da reforma Samuel Moreira (PSDB-SP) disse estar "trabalhando em cima do projeto que o governo enviou" para manter a economia fiscal de R$ 1,2 trilhão. O presidente Jair Bolsonaro disse que "não há briga entre os poderes, o que há é uma grande fofoca" e que "se a Câmara e Senado têm propostas melhores que a nossa, que ponham em votação".

Ibovespa

O mercado brasileiro de ações dedicou o primeiro pregão da semana a promover ajustes nos preços das ações e, mesmo sem notícia concreta que justificasse uma melhora de humor, levou o Índice Bovespa a uma alta de 2,17%, aos 91.946,19 pontos. O avanço das ações no Brasil foi na contramão do desempenho negativo das bolsas de Nova Iorque, que recuaram em meio aos desdobramentos da guerra comercial entre Estados Unidos e China. Em um ambiente doméstico de incerteza, volatilidade e especulação, acabou por prevalecer uma leitura mais esperançosa dos investidores sobre a reforma da Previdência.

A alta do Ibovespa foi considerada como essencialmente corretiva, mas surpreendeu diversos analistas pela sua magnitude, diante da ausência de fato concreto e da permanência do ambiente de incertezas. Segundo alguns profissionais do mercado de renda variável, pesaram positivamente especulações de que Executivo e Legislativo estariam adiantados nas tratativas para o texto da reforma da Previdência.

O relator da reforma, deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), disse que está trabalhando em seu parecer a partir da proposta enviada pelo governo. Ele ressaltou que, mesmo que o relatório inclua um substitutivo ao texto da equipe econômica, o objetivo é estabelecer o diálogo com lideranças e com o governo para alcançar um texto capaz de garantir economia de ao menos R$ 1 trilhão em uma década. O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse estar confiante no trabalho do relator.

"Vejo a alta do Ibovespa hoje como uma mera correção das perdas recentes, uma vez que o mercado não sabe exatamente o que está acontecendo no Brasil. O clima é de instabilidade na política e na economia. As declarações continuam controversas", disse Pedro Coelho Afonso, economista da PCA Capital.