Dólar fecha perto da estabilidade cotada a R$ 5,18

Dólar fecha perto da estabilidade cotada a R$ 5,18

Na semana, a moeda norte-americana acumula leve queda, de 0,21%

AE

Sessão seguiu com cautela ao longo do dia

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A cautela marcou os negócios no mercado de câmbio na tarde desta sexta-feira e, uma vez mais, impediu que o real se beneficiasse da fraqueza global da moeda americana, justificada nesta sexta pelos dados fracos do emprego nos Estados Unidos, que alimentam a expectativa de que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) será bem cuidadoso na retirada dos estímulos monetários.

Pela manhã, na esteira da divulgação do payroll (dado de emprego dos EUA), a moeda norte-americana desceu até a mínima de R$ 5,1328 (-0,93%). Aos poucos, o dólar se recuperou e passou a tarde entre estabilidade e ligeira alta. Já na última hora de negócios, a moeda americana ganhou novo impulso e marcou a máxima da dia, a R$ 5,1955 (+0,24%). No fim da sessão, o dólar arrefeceu e era cotado a R$ 5,1845 (+0,03%). Na semana, o dólar acumula leve queda, de 0,21%.

A despeito do ambiente favorável a moedas emergentes, investidores se acautelaram e optaram por remontar posições defensivas às vésperas do feriado do Dia do Trabalho nos EUA (6 de setembro) - que deve secar a liquidez por aqui - e do Dia da Independência no Brasil (7 de setembro), marcado por manifestações a favor de Jair Bolsonaro, o que pode esquentar a temperatura da crise política institucional, se o presidente subir ainda mais o tom das críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Em Tanhaçu, na Bahia, onde foi assinar contrato de concessão de uma ferrovia, Bolsonaro disse que as manifestações de 7 de setembro serão um "ultimato" a "duas pessoas", que estariam "usando a força do poder para dar outro rumo" para o País, no que foi entendido como um recado velado aos ministros do STF Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso.

Analistas comentam que os ruídos políticos e o desconforto com as contas públicas, que cresceu após a aprovação da reforma do Imposto de Renda pela Câmara dos Deputados, desencorajam apostas na apreciação do real. O próprio secretário especial do Tesouro e Orçamento do Ministério da Economia, Bruno Funchal, reconheceu que a reforma do IR leva à perda de cerca de R$ 20 bilhões em arrecadação para o Governo Central e que ainda é preciso encontrar uma solução para a questão dos precatórios e do reajuste do Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil.

Nas mesas de operação, a avaliação é que o dólar permanece abaixo de R$ 5,20 por uma conjunção de três fatores: ambiente externo favorável a divisas emergentes, fluxo cambial positivo, com exportações robustas, e a perspectiva de uma alta mais forte e prolongada da Selic, o que estimula a entrada de capitais para operações de arbitragem entre o diferencial de juros interno e externo.

Em participação no evento Finanças Mais, organizado por Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), jornal O Estado de S. Paulo e Austin Rating, o presidente do Banco Central, Roberto Campos, reconheceu nesta sexta-feira que a condução da política monetária se torna mais desafiadora por causa de choques (internos e externos), crise hídrica e ruídos políticos, mas reafirmou que a missão da autarquia é "entregar a meta de inflação".

O operador Hideaki Iha, da Fair Corretora, nota que, por ora, não há clima para montagem de posições mais contundentes tanto a favor quanto contra o real, o que explica a oscilação modesta da moeda no acumulado da semana. "Com o juro alto e fluxo, é difícil ficar muito comprado (apostar na alta do dólar). De outro lado, com essa questão política, o problema fiscal e agora a crise hídrica, é difícil a apostar no real", afirma Iha, que vê como "natural" o fato da moeda brasileira não acompanhar o desempenho positivo de outras divisas emergentes. "O dólar até cai com fluxo e o exterior, mas não consegue se sustentar em baixa porque as pessoas recompõem as posições defensivas ao longo da tarde."

Nos Estados Unidos, o payroll mostrou criação de 235 mil vagas em agosto, bem abaixo das expectativas (750 mil vagas), o que provocou um mergulho súbito do dólar no exterior. Mas logo a queda da moeda norte-americana foi moderada, com investidores digerindo informações complementares, como a alta do salário médio por hora e a queda, embora prevista, da taxa de desemprego para 5,2%. Além disso, o resultado da geração de empregos em julho foi revisada para cima, de 953 mil para 1,053 milhão.

Para a economista do Banco Ourinvest Cristiane Quartaroli, os dados do mercado de trabalho, com criação de vagas bem baixo do esperado, embaralham as apostas sobre os próximos passos do Fed em relação aos estímulos monetários. "Isso fragilizou a moeda norte americana aqui hoje cedo. Mas ao longo da tarde prevaleceu o ambiente político interno diante da proximidade das manifestações de 7 de setembro", afirma a economista, ressaltando que o giro mais reduzido também contribuiu para a leve pressão sobre o dólar no Brasil.

Não se sabe qual o impacto do avanço da variante Delta sobre a dinâmica da economia norte-americana, algo que tem sido mencionado pelo Federal Reserve, e também como será a reação dos trabalhadores americanos com o término do auxílio do governo a uma parte da população, na semana que vem. Nunca é demais lembrar que o presidente do Fed, Jerome Powell, sublinhou em diversas ocasiões que a recuperação do mercado de trabalho é essencial para o "timing" da retirada de estímulos. Não seria descabido o Fed iniciar a redução da compra mensal de títulos apenas em dezembro.

Iha, da Fair, chama a atenção para os efeitos negativos de uma eventual desaceleração da economia global, por causa da perda de fôlego tanto dos Estados Unidos quanto da China, nas divisas emergentes. "Por enquanto, essa questão de manutenção dos estímulos beneficia as moedas emergentes. Mas uma piora da economia global pode diminuir o apetite por risco e provocar uma mudança nesse quadro", afirma.

Juros

Os juros longos cumpriram mais uma jornada em alta, a quinta consecutiva no caso dos vencimentos a partir de 2027. Após operarem pressionados para cima durante a tarde, os curtos e intermediários fecharam entre queda e estabilidade em meio a ajustes técnicos no fim do dia nesta sexta-feira.

As taxas em geral começaram os negócios em baixa reagindo ao payroll fraco nos Estados Unidos, mas inverteram o sinal a partir do fim da manhã, refletindo a postura defensiva do investidor na véspera do fim de semana seguido de feriados nos Estados Unidos e no Brasil, sendo que o daqui, na terça-feira, promete ser tenso pelas manifestações pró e contra o governo. Declarações do presidente Jair Bolsonaro em tom de ameaça ao STF ampliaram o clima de cautela, num dia em que também a reforma do Imposto de Renda aprovada na Câmara continuou pesando nos negócios.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou em 8,665%, de 8,676% na quinta-feira, e a do DI para janeiro de 2025 subiu de 9,786% para 9,83%. O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa de 10,30%, de 10,204%. No saldo da semana marcada por PIB e produção industrial fracos, derrotas do governo no Congresso e proposta de Orçamento considerada "peça de ficção", dada a falta de solução para os precatórios, a curva teve ganho de inclinação em torno de 35 pontos-base.

O economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito, afirma que a sexta foi um dia tipicamente marcado pela chamada preferência pela liquidez nos ativos. "Ninguém vai querer dormir posicionado, com feriados aqui e nos Estados Unidos à frente", afirmou. Na segunda-feira, os mercados em Wall Street estarão fechados em função do feriado do Dia do Trabalho. Ainda, como os dias 7 e 8 marcam o início do Ano Novo Judaico, muitos players devem ficar de fora dos negócios até meados da semana.

"O prêmio de risco dialoga com o mal-estar político apesar do payroll abaixo do esperado", explica Perfeito. O relatório de emprego norte-americano mostrou criação de 235 mil vagas em agosto, muito menos do que apontava a mediana de 750 mil, tornando a perspectiva de início do 'tapering' mais incerta.

A piora da percepção de risco institucional atingiu um mercado já bem machucado pelas preocupações com cenário fiscal, acentuadas na quinta com a reforma do IR. Cálculos do Instituto Fiscal Independente (IFI) do Senado apontam que a reforma terá custo para União estimado em R$ 52,2 bilhões em três anos.

"A reforma exemplifica bem o que é o custo político de não se discutir as coisas de forma serena e ordenada, que tem sido descontado dos ativos", disse Perfeito, lembrando que o texto passou de forma atabalhoada, no susto.

Bolsa

Vindo de ganho de 2,22% acumulado no período anterior, o Ibovespa chega ao final da semana com perda de 3,10%, no que foi seu pior desempenho desde o intervalo entre 22 e 26 de fevereiro, quando cedeu 7,09%. Nesta sexta-feira, o índice da B3 virou no fim da sessão para fechar em leve alta de 0,22%, a 116.933,24 pontos, tendo atingido na mínima intradia desta sexta-feira, aos 115.582,88 pontos, o menor nível desde 19 de agosto (114.801,00), que havia sido o mais baixo desde 29 de março. Nas três primeiras sessões de setembro, o Ibovespa acumula perda de 1,56% no mês, levando as do ano a 1,75%. Forte, o giro financeiro foi a R$ 45,9 bilhões no encerramento desta sexta-feira.

Saindo de abertura a 116.678,61 e chegando na máxima da sessão aos 117.395,53 pontos, o desempenho refletiu, em boa parte do dia, a cautela para o fim de semana, aqui e no exterior, com feriado na segunda-feira nos Estados Unidos, pelo Dia do Trabalho, e, na terça, no Brasil, em celebração da Independência que o presidente Jair Bolsonaro trata como "ultimato", após uma longa série de eventos que contribuíram para atiçar os ânimos contra e a favor do governo desde a deliberação - e derrota na Câmara - do voto impresso, precedida por passagem de tanques pela Praça dos Três Poderes e a Esplanada dos Ministérios.

"A próxima semana deve ser agitada, com uma série de novos dados econômicos, aqui e fora, mas começará com baixa liquidez, devido ao feriado nos Estados Unidos, seguido, aqui, do 7 de setembro, que este ano resultou em bastante cautela, com as tensões políticas", diz Virgilio Lage, especialista da Valor Investimentos.

"A despeito de todo imbróglio interno e do possível temor em relação a manifestações no 7 de setembro, a taxa de câmbio terminou o dia estável. Considerando que o dólar, de maneira geral, perdeu força hoje no mercado para emergentes, por conta do payroll pela manhã: os dados do mercado de trabalho nos Estados Unidos vieram mais fracos do que o esperado e acabaram trazendo fraqueza para a moeda americana em relação a divisas emergentes. Aqui, se estabilizou a R$ 5,18, mesmo com a tensão política. Olhando pra frente, as questões internas continuarão tendo peso maior do que o ambiente internacional", diz Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.

A cautela reflete também, entre outros fatores, a avaliação em geral negativa sobre a reforma do IR aprovada esta semana na Câmara dos Deputados, que contribui para aguçar a percepção de piora do fiscal, apesar da promessa de efeito "neutro", sustentada ao longo do processo de negociação e votação.

No Senado, derrotas colhidas na noite de quarta-feira pelo governo na minirreforma trabalhista e em votação sobre planos de saúde de estatais, que pode dificultar a privatização dos Correios, alimentam a visão de que o desgaste do Planalto solta o freio para iniciativas contrárias ao interesse do governo, faltando pouco mais de um ano para o primeiro turno da eleição presidencial. E, para fechar, a semana conheceu também uma nova tarifa vermelha, de "escassez hídrica", que reforça temores sobre a inflação e lança sombra sobre a retomada econômica, na eventualidade de cenário extremo, de racionamento de energia.

Neste contexto, o mercado corrigiu o excesso de otimismo com as ações para o curtíssimo prazo no Termômetro Broadcast Bolsa desta sexta-feira. Entre os participantes, a expectativa de alta para o Ibovespa na semana que vem caiu para 61,54%, de 84,62% na pesquisa anterior. A percepção de estabilidade saltou de 7,69% para 30,77% e a de queda manteve-se em 7,69%.

Por outro lado, no exterior, o relatório sobre o mercado de trabalho nos Estados Unidos trouxe resultados bem abaixo do esperado pelo mercado, com criação de 235 mil vagas de trabalho em agosto, de acordo com o Departamento de Trabalho, ante projeção a 750 mil, observa Túlio Nunes, especialista da Toro Investimentos. "O relatório pode balizar as próximas ações do Federal Reserve, do qual se esperava desaceleração do programa de compra de ativos e, em consequência, menor estímulo monetário", acrescenta.

Na B3, "o Ibovespa aos 116 mil pontos, e com diversas ações em níveis de 2020, de fato, chama atenção para compra. Mas, sem dúvida, a expectativa de crescimento que gerou revisão para cima nas projeções para o Ibovespa perdeu muita força. O nível atual sugere ao menos repique e manutenção, por ora, do patamar - voltar para os 130 mil parece algo bem difícil, vendo a projeção de crescimento e a curva de juros", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

Na ponta positiva do Ibovespa nesta sexta-feira, destaque para empresas de varejo, como Magazine Luiza (+4,94%), Lojas Americanas (+4,15%) e Assaí (+3,53%). No lado oposto, Embraer cedeu 4,48%, Banco Inter, 3,89%, e PetroRio, 3,30%.

Entre as blue chips, os grandes bancos registraram perdas entre 0,24% (BB ON) e 1,37% (Unit do Santander), limitadas no fechamento mas, ainda assim, estendendo a forte correção de quinta-feira, quando estiveram entre os maiores perdedores devido ao fim de JCP (juros sobre capital próprio) e à criação da tributação de dividendos, na reforma do IR que passou pela Câmara. O desempenho desta sexta foi misto para o setor de siderurgia (CSN ON +1,72%, Gerdau PN -0,04%) e para utilities (Eletrobras PNB +1,94%, Cemig PN -0,58%), assim como para Vale (ON +0,07%) e Petrobras (PN -1,02%, ON +0,04%), com parte dos papéis respondendo de forma mais intensa na guinada do Ibovespa bem perto do fim da sessão, de giro forte.

 


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