Dólar sobe e fecha com a maior cotação em um mês, a R$ 5,46

Dólar sobe e fecha com a maior cotação em um mês, a R$ 5,46

Ibovespa teve queda de 2,24%, aos 93.834,49 pontos

AE

Na semana, o dólar acumulou valorização de 2,68%

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Em uma sexta-feira de fuga de ativos de risco no mercado financeiro mundial, o dólar subiu e fechou com a maior cotação em um mês, a R$ 5,4604. O aumento de casos de coronavírus nos Estados Unidos, que vem batendo recordes diários de infecções, fez as bolsas em Nova Iorque caírem forte e a moeda americana subiu de forma generalizada nos emergentes, com o real novamente ficando com o pior desempenho. As mesas de câmbio também monitoraram o noticiário político doméstico e a nova troca de ameaças entre China e Estados Unidos. Na semana, o dólar acumulou valorização de 2,68%, a terceira semana seguida de ganhos.

No pior momento do dia, no final da manhã, o dólar encostou em R$ 5,50, levando o Banco Central a fazer um leilão de dólar à vista, vendendo US$ 502 milhões. Foi a primeira operação do tipo desde 1º de junho, quando o BC fez dois leilões na mesma sessão, vendendo US$ 530 milhões. Em junho, a moeda americana passou a acumular alta de 2,3%, enquanto no ano avança 36%.

"Mais do que uma aversão a risco, é um movimento de aversão a perdas, por causa da total incerteza", afirma o sócio da Monte Bravo Investimentos, Bruno Madruga. Ele ressalta que com o crescimento dos casos nos EUA e em outras regiões, crescem as dúvidas sobre a recuperação da economia e como vai ficar a retomada dos negócios.

Com o quadro de aversão a perdas, Madruga ressalta que o investidor que havia trazido dinheiro este mês para a Bolsa, retira os recursos, ajudando a pressionar o câmbio e tornando as oscilações mais pronunciadas. "Não é natural ter oscilação em pouco tempo de R$ 6,00 para R$ 4,80. As empresas não conseguem se planejar." Para o sócio da Monte Bravo, o mais normal é o dólar ficar na casa dos R$ 5,00 a R$ 5,30.

Na B3, apesar dos ingressos de estrangeiros no começo do mês, os últimos dias têm sido de fuga de recursos, com saldo negativo, por exemplo, nos dias 22 e 23. Apenas neste último dia saíram R$ 840 milhões. O saldo no mês, embora menor, ainda segue positivo, em R$ 1,386 bilhão.

Para o dólar, o economista da consultoria inglesa Capital Economics, Oliver Jones, avalia que a performance recente da moeda americana tem sido determinada principalmente pela demanda por proteção, com o diferencial de taxas de crescimento dos EUA com o resto do mundo e de juros ficando em segundo plano. "Qualquer notícia boa sobre os esforços para conter a rápida disseminação do coronavírus nos EUA, ao melhorar o apetite por risco, seria um mal fator para o dólar", ressalta.

Ibovespa

O Ibovespa não teve forças para se desvincular do sentimento de aversão ao risco e caminhou na sessão de negócios desta sexta-feira pari passu com seus pares internacionais, com os temores sobre os efeitos danosos de uma segunda onda de Covid-19 em meio à corrida eleitoral nos Estados Unidos - onde o democrata Joe Biden já avança sobre Donald Trump - e eventuais ameaças ao cumprimento do acordo comercial sino-americano.

O principal índice à vista da B3 voltou à marca dos 93 mil pontos, que não era visitada desde o dia 16 de junho. Ao amargar perdas de 2,24% hoje, aos 93.834,49 pontos, acumulou queda na semana de 2,83%. No entanto, como a primeira quinzena do mês foi muito favorável ao mercado acionário, ainda há uma gordura de ganhos mensais da ordem de 7,36%.

O Ibovespa abriu perto dos 96 mil pontos, mas, conforme o dia foi amargando no exterior, as perdas por aqui avançaram. A maior piora ocorreu na etapa vespertina da sessão de negócios, quando os pares em Nova York aceleraram as perdas. Com Dow Jones caindo perto dos 3%, o índice à vista do mercado acionário brasileiro sucumbiu para as mínimas no nível dos 93 mil pontos.

"A bolsa brasileira está acompanhando conjuntamente o movimento do exterior, com a piora do humor pautada pela volta do aumento de casos de Covid-19. Como essa pandemia envolve muitas incertezas, o mercado mantém a volatilidade e acaba realizando no fato, ou seja, quando está vendo a segunda onda da doença acontecer", disse Carlos Lopes, economista do banco BV.

Para Lopes, do ponto de vista doméstico, pesa também uma reserva por parte dos investidores com relação ao aumento das despesas do governo e uma possível necessidade de flexibilização do teto de gastos para tentar acomodar a extensão da ajuda governamental durante a pandemia.

A consultoria Capital Economics indicou hoje que a crescente tensão entre Estados Unidos e China e a vantagem do candidato democrata Joe Biden sobre o presidente Donald Trump, nas últimas pesquisas de intenção de voto para a Casa Branca, prejudicarão o acordo comercial "fase 1" sino-americano. "Duvidamos que o acordo comercial 'fase 1' continue intacto até as eleições de novembro", afirma a consultoria.

"Aqui, o problema é menos da concretização do acordo, que eu acho que ocorre, e mais pelo risco de Trump elevar a temperatura de seus discursos por causa das eleições", afirma Lopes, complementando que os ativos devem manter a volatilidade com mais essa incerteza da corrida eleitoral e as tensões geopolíticas.

Taxas de Juros

Os juros futuros fecharam em alta nesta sexta-feira, refletindo a escalada do dólar e o mau humor externo. As taxas subiram mais pela manhã e à tarde o avanço perdeu força, em meio à desaceleração da alta do dólar, que, nas máximas chegou a encostar em R$ 5,50 mas terminou o dia em R$ 5,46. Fatores domésticos ficaram em segundo plano.

A nova onda de Covid-19 em alguns estados americanos manteve os mercados sob pressão, em meio ao risco de retrocesso no movimento de flexibilização do isolamento social, e, com isso, de demora na retomada da economia nos Estados Unidos. A busca por segurança penalizou ações e moedas emergentes ante o dólar e ainda fez caírem os juros dos Treasuries, com reflexos na curva brasileira. Os vencimentos de curto prazo se moveram lateralmente, mantido o quadro de divisão das apostas para a Selic em agosto, mas hoje com sutil avanço das expectativas de manutenção da taxa básica.

As taxas longas, que melhor captam o humor externo, chegaram a subir 17 pontos-base, mas no encerramento da sessão regular tinham ganho de menos de 10 pontos. Na mesma toada, o dólar na máxima atingiu R$ 5,4931, mas reduziu o avanço com o arrefecimento da moeda no exterior. "Temos um movimento de aversão ao risco prevalecendo, com o dólar valorizado ante emergentes e bolsas caindo, lideradas por Nova Iorque", afirmou o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno. "Dados de alguns estados americanos sobre o coronavírus estão apresentando piora e isso gera preocupação de que as autoridades tenham de voltar a fechar a atividade como forma de conter o avanço da doença", disse.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou nos mesmos 2,97% do ajuste de ontem e a do DI para janeiro de 2025 subiu de 5,753% para 5,82%. O DI para janeiro de 2027 encerrou com taxa em 6,81%, de 6,753%.

No Brasil, apesar da entrevista do ex-advogado da família Bolsonaro Frederick Wassef publicada na revista Veja, na qual admite que ofereceu abrigo a Fabrício Queiroz em três imóveis seus para "proteger" Flávio Bolsonaro e seu pai, o presidente Jair Bolsonaro, o ambiente político, do ponto de vista das reformas, parece menos 'tensionado', na avaliação de Rostagno. Ele cita a pesquisa Datafolha, segundo a qual a prisão de Queiroz não afetou a aprovação do presidente, "o que reduz o risco de impeachment", diz.

O mercado tem observado sinais de melhora na relação do presidente com o Congresso, após a indicação de um deputado do Centrão, Fábio Faria (PSD-RN), para o Ministério das Comunicações e a escolha de um nome considerado não ideológico, o de Carlos Alberto Decotelli da Silva, para a Educação. Isso, somado à aprovação por larga margem de votos do projeto do marco legal do Saneamento Básico no Senado, alimenta a esperança de retomada da agenda de reformas no curto prazo e de ajuste fiscal após a pandemia. "O cenário político parece estar um pouco mais construtivo para discutir as reformas", disse o estrategista do Mizuho.


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