Dólar sobe para R$ 4,21 e bate novo recorde de alta do Plano Real
capa

Dólar sobe para R$ 4,21 e bate novo recorde de alta do Plano Real

Com dólar pressionado acima, Ibovespa teve uma sessão negativa, fechando em 108.123,93

Por
AE

O real acabou sendo a moeda com pior desempenho ante o dólar

publicidade

O dólar fechou em nova máxima história, a R$ 4,2145, o maior valor do Plano Real. A moeda subiu 0,52% nesta segunda-feira e já acumula valorização de 5,12% em novembro. O dia foi de alta da moeda americana ante divisas emergentes. Mas o movimento aqui foi potencializado por fluxo de saída de recursos e pela divulgação de uma déficit da conta corrente pior que o esperado. Como reflexo, o real acabou sendo a moeda com pior desempenho ante o dólar, em uma cesta de 34 moedas mundiais.

Apesar da nova alta do dólar, operadores no mercado de câmbio não observaram problemas de liquidez. Os indicadores técnicos do mercado mostram que tem havido aumento da demanda pela moeda americana, mas que é considerada comum nesta época do ano, sazonalmente marcada por maior procura pela divisa americana por conta de remessas de lucros e dividendos. No mercado futuro, o dólar foi a R$ 4,2330 e, no à vista, a máxima foi de R$ 4,2203.

O chefe da mesa de câmbio da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, avalia que não há porque o BC fazer intervenção extraordinária neste momento, marcado por pressão compradora para remessas. "O fluxo é de saída. O BC só vai queimar reservas", disse ele. Historicamente, o final do ano é marcado por fortes saídas de capital do Brasil. Em novembro e dezembro do ano passado, saíram US$ 27,6 bilhões pelo canal financeiro, de acordo com o BC. Este mês, até o dia 21, houve fluxo negativo de US$ 2,3 bilhões, segundo dados divulgados hoje pelo BC.

O executivo da Frente Corretora ressalta que, além da pressão de saída, um conjunto de fatores está contribuindo para valorizar o dólar aqui: o baixo diferencial de juros do Brasil com o resto do mundo; aumento de riscos na América do Sul; mudança de partido do presidente Jair Bolsonaro e hoje os números mostrando piora do déficit da conta corrente. No caso de Bolsonaro, a dúvida é como ficará a base de apoio para as próximas reformas. Nos juros, Velloni observa que as taxas aqui "não condizem com os riscos".

A segunda-feira foi marcada por piora de várias moedas emergentes, em meio ao aumento do otimismo com algum progresso nas negociações comerciais entre a China e os Estados Unidos, ressalta o responsável pela área de câmbio da Terra Investimentos, Vanei Nagen. "Os dados da conta externa piores que o previsto também pesaram no câmbio", completa. O déficit nas transações correntes chegou a US$ 7,8 bilhões em outubro, segundo o Banco Central. Foi o pior resultado para outubro desde de 2014 (-US$ 9,305 bilhões).

Bovespa

Com dólar pressionado acima, tocando a marca de R$ 4,2203 no pico do dia, e renovando máxima de fechamento a R$ 4,2145 (+0,52%) em meio à típica intensificação de fluxos de saída no fim de ano, o Ibovespa teve uma sessão negativa, descolado dos mercados do exterior, após ter acumulado ganho de 2% na semana passada.

Nesta segunda-feira, o Ibovespa fechou em baixa moderada, de 0,25%, a 108.423,93 pontos, atingindo 108.079,87 pontos na mínima e chegando a 108.914,73 pontos na máxima do dia. O giro financeiro foi de R$ 16,1 bilhões, abaixo da média do mês. No mês, o Ibovespa acumula agora ganho de 1,12%, com 23,37% de avanço no ano.

As bolsas americanas e europeias tiveram alta em base ampla nesta segunda-feira, com os três índices em Nova York renovando máximas históricas no fechamento, impulsionados por sinais mais favoráveis sobre as negociações comerciais entre EUA e China.

No boletim Focus desta segunda-feira, os analistas ouvidos pelo BC ajustaram as estimativas para a Selic no fim de 2020, elevando a aposta, de 4,25% para 4,50%, com IPCA mantido a 3,60%, mas ajustado de 3,33% para 3,46% no fim do ano em curso, com a expectativa para o PIB também em alta, passando de 0,92% para 0,99% em 2019.

A perspectiva de um ciclo menos prolongado de corte de juros é um fator que pode afetar o apetite por ações, em um cenário político e econômico ainda marcado por incertezas, especialmente em relação à progressão de reformas adicionais, como a tributária e a administrativa.

A sessão contou com poucos catalisadores amplos, em uma segunda-feira de agenda doméstica relativamente esvaziada.

Nesta sessão, o desempenho das ações de bancos foi contraponto negativo ao bom comportamento da Vale (+1,66%, a R$ 50,86 para a ação ordinária) e da siderurgia (Gerdau PN +0,66% e Usiminas PNA +2,19%), em dia no qual o preço do minério de ferro avançou mais de 3% na China. A perspectiva de que o setor siderúrgico reajuste preços em 2020 também contribui para o avanço das ações do segmento.

Em outro desdobramento positivo, forte leitura sobre as compras de carne pelo país asiático em outubro impulsionou o segmento, destaque de alta do dia, com ganhos entre 5% e 9% para as ações de empresas como BRF, JBS e Marfrig. "O dia teria sido positivo não fosse o peso das ações de bancos", diz Ari Santos, gerente de Ibovespa na H.Commcor.

A possibilidade de que os lucros e dividendos dos bancos venham a ser tributados, em paralelo à redução do IRPF, afetou o desempenho das ações das instituições financeiras nesta sessão. Segundo o secretário da Receita Federal, José Tostes Neto, haverá cuidado para afastar o argumento de que taxar lucros e dividendos constituiria bitributação.

A ação ordinária do Bradesco fechou em baixa de 1,44% e a preferencial, em baixa de 0,50%, enquanto a preferencial do ItaúUnibanco cedeu 1,43%.

A ação preferencial da Petrobras fechou o dia em baixa de 0,83% e a ordinária, de 0,62%, ambas limitando as perdas observadas mais cedo, em dia de alta moderada, na casa de 0,4%, para os preços do Brent e do WTI. A Federação Única dos Petroleiros (FUP) manteve a greve de cinco dias, a partir de hoje.

Juros

A semana começou com juros em alta e aumento da inclinação da curva a termo, refletindo principalmente o mau humor dos investidores com mercados emergentes, que atingiu em cheio o real, e também dados ruins da agenda local. As taxas curtas fecharam o dia perto da estabilidade e as demais avançaram, especialmente as da ponta longa, mais sensíveis ao exterior.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 encerrou em 6,85% (sessão regular) e 6,89% (estendida), de 6,771% na sexta-feira no ajuste, e a do DI para janeiro de 2025 subiu de 6,451% para 6,54% (regular) e 6,57% (estendida). O vencimento para janeiro de 2023 encerrou em 5,94% (regular) e 5,98% (estendida), de 5,881% na sexta, e a do DI para janeiro de 2021 fechou em 4,65% (regular) e 4,69% (estendida), de 4,649% no ajuste anterior.

O dólar se fortaleceu ante boa parte das demais moedas nesta segunda-feira, sobretudo ante emergentes, com o real tendo o pior desempenho no grupo. "Isso ajudou a elevar os prêmios na curva", disse o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno. A moeda voltou a superar os R$ 4,22 hoje nas máximas e teve seu pico histórico de fechamento, aos R$ 4,2145.

Mesmo hoje com uma melhora na perspectiva para a "fase 1" do acordo entre a China e os Estados Unidos, as incertezas sobre um entendimento estão longe de se dissipar e ainda há as tensões sociais na América Latina a afugentar os investidores. Relatório da Fitch Ratings mostrou que as pressões de piora nas classificações de risco soberano da região vão persistir em 2020. "A América Latina inclui o número mais alto de perspectiva negativa para ratings soberanos entre todas as regiões do mundo", afirma o relatório. O Brasil, ao contrário de outros países da região, tem mostrado progresso nas reformas, ressalta a Fitch, falando da aprovação da Previdência. No entanto, medidas adicionais são necessárias para melhorar as contas fiscais brasileiras, ressalta o texto.

A despeito do aumento do otimismo sobre o PIB, visto hoje nas projeções da pesquisa Focus - a mediana para 2019 subiu de 0,92% para 0,99% e a de 2020, de 2,17% para 2,20% -, o mercado vê piora de fundamentos do setor externo, que começa a preocupar, mesmo com o câmbio mais desvalorizado. O Banco Central informou hoje déficit de US$ 7,874 bilhões nas transações correntes em outubro - o segundo pior da série histórica para o mês - e abaixo do piso das estimativas do mercado, de déficit de US$ 6,10 bilhões.

Economistas já enxergam possibilidade de uma degradação mais intensa da balança comercial, com déficits mensais, e uma piora na relação entre Investimento Direto no País (IDP) e déficit em conta corrente, com alguns analistas apontando, inclusive, a possibilidade de inversão, ou seja, de que o fluxo de IDP não consiga financiar mais o rombo em transações correntes.