Dólar sofre sua maior queda percentual em um mês e fecha em R$ 4,08
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Dólar sofre sua maior queda percentual em um mês e fecha em R$ 4,08

Moeda norte-americana foi influenciada pelo cenário externo e perspectiva de recursos no Brasil

Por
AE

Moeda norte-americana foi influenciada pelo cenário externo e perspectiva de recursos no Brasil

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O dólar caiu 1,08% nesta quinta-feira, a maior queda percentual em um mês, influenciado pelo cenário externo e perspectiva de entrada forte de fluxo de recursos no Brasil. No mercado à vista, o dólar fechou cotado em R$ 4,0890, o menor valor desde 17 de setembro. A divulgação do índice ISM do setor de serviços da economia americana com números abaixo do previsto por Wall Street provocou novo dia de enfraquecimento do dólar, tanto ante divisas fortes como emergentes. O real e o peso colombiano foram as divisas que mais ganharam força nesta quinta-feira, considerando uma cesta de 34 moedas.

Profissionais do mercado de câmbio destacam que a previsão de entrada forte de fluxo externo no Brasil até novembro vem fazendo grandes investidores desmontarem posições contra o real no mercado futuro da B3, o que contribui para a queda das cotações no mercado à vista. O Banco do Brasil faz oferta de ações este mês que pode girar cerca de R$ 5,7 bilhões, mas o volume maior de capital externo deve vir do megaleilão da cessão onerosa, dia 6 de novembro, que pode movimentar R$ 106 bilhões, dos quais a maioria virá do exterior. Ao todo, 14 empresas foram habilitadas a participar, incluindo a francesa Total, a holandesa Shell, a americana ExxonMobil e a Petronas, da Malásia.

Para o sócio e gestor da Absolute Invest, Roberto Serra, muitos gestores fizeram operações de hedge (proteção) contra o real nas últimas semanas para apostas em outros ativos no mercado financeiro brasileiro. Os movimentos dos últimos dias, com a divisa do Brasil caindo mais que outras moedas, indicam que parte desse movimento vem sendo desfeito, na expectativa pela entrada de capital externo, que pode baratear o dólar.

Para ele, outro fator que pode levar o dólar a cair mais é a reunião da semana que vem entre a China e os Estados Unidos, no dia 10, para discutir a questão comercial. Nos EUA, o mais recente indício de piora da atividade é o ISM de atividade de serviços, que ficou em 52,6 em setembro, ante expectativa de Wall Street que ficasse em 55,3. A divulgação vem dois dias depois do dado do setor industrial cair abaixo de 50, o que indica contração da atividade. "Os dados do ISM sinalizam que a fraqueza da economia americana não está mais isolada no setor industrial", observam os economistas do banco Wells Fargo.

Após o anúncio na manhã desta quinta, as apostas de corte de juros mais forte pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) aumentaram e o dólar se enfraqueceu ainda mais. Os recentes indicadores fracos dos EUA aumentaram a expectativa pelo relatório de emprego de setembro dos EUA, que será divulgado nesta sexta-feira e é um dos documentos mais acompanhados pelo Fed. Os estrategistas do Morgan Stanley projetam criação de 185 mil vagas, ante 130 mil de agosto, ou seja, uma mostra ainda de força da economia americana. Eles projetam novo corte de juros pelo Fed este mês, de 0,25 ponto.

Bovespa

A instabilidade marcou os negócios no mercado acionário brasileiro nesta quinta-feira. O Ibovespa trocou de sinal ao longo do dia sob clara influência do comportamento das bolsas americanas. Pela manhã, quando Dow Jones e S&P 500 caíram mais de 1%, abalados pelo aumento dos temores de recessão nos Estados Unidos, o índice furou o piso dos 100 mil pontos e desceu até a mínima dos 99.826,30 pontos. Com a virada dos índices em Wall Street para o campo positivo, na esteira da expectativa de que o Federal Reserve pode reduzir os juros para amparar a economia, o Ibovespa recuperou terreno e voltou ao patamar dos 100 mil pontos. E foi com a aceleração das bolsas em Nova York que o Ibovespa ganhou fôlego na reta final dos negócios para encerrar o pregão em alta de 0,48%, aos 101.516,04 pontos. As ações da Petrobras e os dois principais papéis do setor financeiro (Itaú PN e Bradesco PN), que operaram em queda ao longo de toda a tarde, mudaram de rota nos minutos finais e puseram o índice em terreno positivo.

Já os papéis da Vale - que amargaram queda superior a 5% na quarta - respiraram e fecharam em alta de 0,75%. O operador sênior da corretora Renascença, Luiz Roberto Monteiro, observa que, com a agenda doméstica esvaziada e passado o momento de maior tensão com a reforma da Previdência, o Ibovespa ficou refém dos movimentos globais. "O Ibovespa está preso numa faixa entre 100 mil e 105 mil pontos. Como não tem gatilho interno para alta, acaba apenas oscilando de acordo com as bolsas lá fora. Existe essa preocupação com a economia americana e a possibilidade de mais corte de juros", diz Monteiro.

Aos dados fracos do setor manufatureiro divulgados esta semana se somou a queda do índice ISM de serviços de 56,4 em agosto para 52,6 em setembro, muito abaixo da previsão dos analistas. A percepção de que a economia americana perde força rapidamente fez investidores elevarem as apostas em mais afrouxamento monetário nos Estados Unidos. A expectativa é de dois cortes seguidos da taxa básica americana em 0,25 ponto percentual, nos encontros do Fed neste mês e em dezembro.

O analista Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos, observa que o Ibovespa tem sido castigado nos últimos dias pelo desempenho fraco das ações dos bancos locais. Ele lembra que a ação PN do Itaú, que tem o maior peso individual na carteira teórica (9,03%), já cai quase 5% no acumulado da semana, frente a uma perda de pouco mais de 3% do Ibovespa. "Os bancos lá fora estão sofrendo com esse ambiente de economia mais fraca e isso acaba contaminando a bolsa brasileira. É um movimento que vem desde terça-feira, quando saiu o resultado ruim da indústria nos Estados Unidos", diz.

Entre as 68 ações que compõem o Ibovespa, a maior queda foi da unit do BTG Pactual (3,78%). No pior momento, o papel chegou a perder mais de 9%. O Ministério Público Federal em São Paulo (MPF-SP) e a Polícia Federal investigam suposto vazamento de decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central entre 2010 e 2012 para um fundo administrado pelo BTG. A afirmação constaria em investigação instaurada a partir da delação premiada do ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci. Em resposta, o BTG afirmou que o fundo mencionado (Bintang FIM) possui apenas um cotista que não tinha vínculo profissional com o banco. 

Taxas de juros

Os juros aprofundaram ao longo da tarde a queda visto pela manhã desta quinta-feira e fecharam a sessão regular em novas mínimas históricas nos contratos mais líquidos. A decepção com o dado de serviços do Instituto para Gestão da Oferta (ISM, em inglês), na sequência de outros dois do setor industrial divulgados nesta semana e que também frustraram, ampliou as preocupações com o rumo da economia americana e com o risco de recessão global. Com isso, houve enfraquecimento generalizado do dólar e, no caso do real, a moeda voltou a ser destaque positivo entre os emergentes, voltando a fechar na casa dos R$ 4,08, levando a reboque a curva de juros. No Brasil, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou pela primeira vez abaixo dos 6%, em 5,98%, de 6,051% quarta no ajuste. A do DI para janeiro de 2021 fechou em 4,880%, de 4,949%. A do DI para janeiro de 2025 caiu de 6,671% para 6,61%.

O ISM de serviços nos Estados Unidos de setembro (52,6) caiu mais do que o esperado (55,3), elevando as preocupações com o ritmo da economia americana e mundial. "Isso contribuiu para a valorização do real. Este cenário é entendido como deflacionário, ou desinflacionário, e ajuda na redução dos prêmios na curva, principalmente no miolo", disse o economista-chefe do Haitong Banco de Investimento, Flávio Serrano. Segundo o CME Group, as chances de queda na taxa dos fed funds para a reunião do Fed em outubro chegam a 90% e para o encontro de dezembro já superam 50%. No Brasil, segundo Serrano, a precificação da curva aponta um total de 80 pontos-base de alívio na Selic até o fim do ano. "O cenário base é 4,75%, com uma probabilidade residual de ir um pouco além", afirmou.

Para o Copom de outubro, a curva mostra 90% de possibilidade de corte de 50 pontos-base. A taxa está em 5,5%. Com o foco do mercado totalmente no exterior, o noticiário interno negativo foi deixado de lado. A reforma da Previdência voltou a dar sinais preocupantes, com lideranças do governo admitindo que o cronograma da reforma da Previdência no Senado vai atrasar - a chance de votação do segundo turno antes do dia 22 de outubro é "zero", segundo o senador Chico Rodrigues (DEM-RR), um dos vice-líderes do governo na Casa. No fim da manhã, estourou a notícia de que o Ministério Público Federal em São Paulo (MPF-SP) e a Polícia Federal investigam vazamentos de resultados de reunião do Copom ocorridos em 2010, 2011 e 2012, que supostamente teriam favorecido um fundo de investimento administrado pelo BTG Pactual.

Nas mesas de renda fixa, a avaliação é de que taxas futuras não foram afetadas porque o fato "não tem relação com a atual administração do BC e, por isso, não contamina o ambiente", disse uma fonte. O Banco Central afirmou que "não foi comunicado sobre o conteúdo da Operação Estrela Cadente, que corre sob segredo de Justiça".