Dólar tem leve queda e termina o dia em R$ 5,44

Dólar tem leve queda e termina o dia em R$ 5,44

Ibovespa fechou em alta de 2,27%, aos 115.227,46 pontos, com recuperação técnica

AE

Moeda norte-americana teve queda de 0,21%

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O dólar devolveu nesta terça-feira parte da alta da segunda-feira, mas o movimento de queda perdeu força na reta final do pregão e a moeda ainda segue acima dos R$ 5,40. O cenário externo ajudou, sobretudo com declarações do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, que contribuíram para minimizar temores de disparada da inflação nos Estados Unidos. No noticiário interno, o Congresso e o governo se empenharam em mostrar comprometimento com o avanço das reformas, e o presidente Bolsonaro fez elogios públicos ao ministro Paulo Guedes, que tem evitado dar declarações nos últimos dias. Operadores, porém, ressaltam que o quadro de incerteza com Brasília permanece muito alto e é difícil o real se valorizar neste momento.

No fechamento, o dólar à vista terminou o dia em queda de 0,21%, a R$ 5,4422. No mercado futuro, o dólar para março recuou 0,47%, a R$ 5,4435.

O discurso de Powell teve efeito no mercado de moedas mundial, com o dólar perdendo força ante divisas fortes e emergentes. O DXY, que mede o comportamento da moeda americana ante divisas como euro e iene, chegou a zerar alta logo após o discurso.

O economista do banco canadense CIBC Capital Markets, Avery Shenfeld, comenta que Powell mostrou que o Fed vai seguir apoiando a economia, que ainda tem um caminho longo até se recuperar totalmente. Sobre a inflação, Powell afirmou que não espera elevação "significativa e sustentada" dos preços, que devem ficar voláteis. Este temor, que faz os yields do Treasuries americanos subirem, vinha crescendo nos últimos dias e ajudando a enfraquecer as moedas emergentes. A preocupação é que a volta da inflação faria o Fed e outros bancos centrais a reduzirem estímulos e enxugar a liquidez dos mercados, o que Powell disse nesta terça que não acontecerá.

No mercado doméstico, o secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Roberto Fendt, que substituiu Guedes em evento, avaliou que o processo de reformas vai se acelerar agora. "Temos altas expectativas de que a troca do comando na Câmara e no Senado será boa para as reformas. O processo de reformas vai acelerar agora, não estava tão rápido como desejávamos", avaliou. Já Guedes se reuniu com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). O parlamentar prometeu avançar com as reformas, incluindo a tributária e privatizações.

Para Klaus Spielkamp, responsável em Miami pela área de vendas e trading da Bulltick, o ambiente de "iminente aprovação" do plano de estimulo trilionário dos EUA, deve dar nova onda de otimismo internacional nos mercados de risco. "O Brasil pode se apresentar atrativo nesse momento", destaca ao Broadcast.

Mas para isso, destaca que é preciso avançar com as reformas, de forma urgente, o que exige estabilidade política e econômica, fatores que se complicaram nos últimos dias, em meio à pressão por mais gastos com o auxílio emergencial e o episódio da Petrobras.

Ibovespa

Após a Petrobras ter perdido mais de R$ 102 bilhões em valor de mercado ao longo das duas sessões anteriores, o dia foi de recuperação parcial tanto para as ações da empresa como para o Ibovespa, que fechou em alta de 2,27%, aos 115.227,46 pontos, mantendo-se em terreno positivo praticamente desde a abertura, aos 112.675,98 pontos. Na mínima, esteve aos 112.667,40, chegando na máxima aos 115.380,38 pontos, com giro financeiro mais uma vez reforçado, a R$ 48,1 bilhões nesta terça-feira.

O elogio público do presidente da República, Jair Bolsonaro, ao ministro Paulo Guedes, no fim da tarde, contribuiu para que o Ibovespa recuperasse sem abandono a linha dos 115 mil pontos, que havia sido tocada antes, no meio da tarde.

Na semana, o índice da B3 acumula perda de 2,70% e, no mês, volta a mostrar ganho, de 0,14% - em 2021, cede 3,18%. O rebote visto na sessão decorreu mais de correção técnica, depois da queda superior a 20% observada na segunda-feira nas ações ordinárias e preferenciais da estatal, do que propriamente de novidades de peso que mitiguem o clima de intervenção política construído desde a live semanal do presidente Bolsonaro, na noite de quinta-feira, na qual indicou insatisfação com os reajustes nos preços dos combustíveis, em especial o diesel. Na ocasião, também insinuou a disposição de sacar Roberto Castello Branco do comando da empresa, intenção que se efetivaria na noite seguinte, com a indicação de Joaquim Silva e Luna para o cargo. Nesta terça, a atenção do mercado se voltou para a reunião do Conselho de Administração da Petrobras, que deve convocar Assembleia Geral Extraordinária (AGE) em até 30 dias para votar a indicação de Luna.

Nesta véspera de divulgação dos resultados trimestrais - programados para a noite de quarta -, Petrobras ON fechou em alta de 8,96%, a R$ 23,48, enquanto a PN avançou 12,17%, a R$ 24,06, dividindo com Eletrobras a ponta do Ibovespa na sessão, após as ações da petrolífera terem liderado as perdas na sexta e na segunda-feira. O dia foi de desempenho positivo para as ações de outras estatais que estiveram em evidência na segunda-feira, pressionadas então por novo rumor sobre troca de comando no Banco do Brasil e pela promessa de Bolsonaro, no fim de semana, de que também colocará o "dedo" no setor elétrico - o que gerou reação da diretoria da Eletrobras, ao esclarecer que eventuais planos de mudança em política de tarifas precisam ser informados pelo canal correto, o fato relevante. Nesta terça, após perda superior a 11% no dia anterior, BB ON fechou em alta de 6,92%, e Eletrobras ON, que havia contido na segunda-feira as perdas a 0,69%, saltou nesta terça 13,01%, com a ação PNB em avanço de 10,81% no fechamento.

O mal-estar decorrente da intervenção ensaiada pelo Planalto em estatais chegou à reunião desta terça entre analistas de mercado e a diretoria do Banco Central, para avaliação de conjuntura, em especial inflação. De acordo com relato do repórter Francisco Carlos de Assis, do Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), houve comentários sobre o aumento da incerteza em relação à política econômica, em razão dos últimos episódios envolvendo a Petrobras. "Muitos se questionaram sobre as reais intenções do presidente Bolsonaro porque isso está gerando pressões inflacionárias de curto e longo prazo", disse um participante do encontro.

Na B3, "houve exagero na correção da segunda-feira, o que abriu espaço para a recuperação vista nesta terça. Esta questão da Petrobras é recorrente, porque de certa forma a Petrobras é um veículo de política pública. Quando o câmbio e os preços internacionais sobem muito, há esta preocupação quanto a repasses ao consumidor", observa Marina Braga, líder de alocação na BlueTrade. "O que precisa ser visto agora é se o Luna manterá o programa de desinvestimentos, especialmente nas refinarias e quanto ao 'stake' (participação) na BR Distribuidora", acrescenta Marina.

Ela chama atenção também para novo desgaste do ministro Paulo Guedes, tutor da agenda liberal do governo e que vem sofrendo uma série de derrotas, a última das quais a demissão de Roberto Castello Branco, por ele indicado ao cargo. "Ele continua em silêncio, um silêncio incômodo - por mais que tenha perdido força, eventual saída de Guedes seria um fator adicional para correção dos preços (dos ativos)", acrescenta.

Nesta terça, em evento no Palácio do Planalto, Bolsonaro fez afago público a Guedes. "Vivemos um momento muito difícil ano passado, e pude contar com grupo de 22 e depois 23 ministros para levar à frente as propostas e os meios. Uma das pessoas mais importantes nessa luta foi o ministro Paulo Guedes", destacou o presidente, acrescentando que, "por decidir as finanças do governo", Guedes tem "amigos e opositores". Na cerimônia, o ministro também foi elogiado pelo articulador político do Planalto, Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo. "Guedes tem feito o que é possível para o nosso País, com resiliência, determinação e força de vontade", observou Ramos.

Mais cedo, a reunião entre o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e o ministro da Economia, para tratar das reformas fiscais, já contribuía para alguma melhora de humor no mercado. Em outro desdobramento favorável, destaque para a notícia de que o governo federal pretende publicar ainda nesta terça a Medida Provisória da privatização da Eletrobras, como forma de reiterar ao mercado a intenção da vender a participação da União na estatal - o que contribuiu para o avanço das ações da empresa nesta terça-feira.

Juros

Os juros fecharam a terça-feira em baixa, devolvendo, no entanto, apenas parte do prêmio acumulado nas últimas duas sessões, com fatores externos e locais estimulando ordens de venda. Internamente, a movimentação em Brasília para acelerar a agenda de reformas e privatizações amenizou o desconforto com a questão da troca de comando na Petrobras, enquanto lá fora o discurso do presidente do Fed no Senado foi considerado "tranquilizador", acalmando o estresse no segmento de Treasuries e enfraquecendo o dólar ante moedas emergentes.

O leilão de NTN-B, na véspera de divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) de fevereiro, foi considerado robusto, com lote grande vendido no papel mais longo.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou em 3,465% (regular e estendida), de 3,538% no ajuste anterior e a do DI para janeiro de 2023 caiu de 5,332% para 5,19% (regular) e 5,18% (estendida). O DI para janeiro de 2025 fechou com taxa de 6,81% (regular) e 6,80% (estendida), de 6,925% na segunda-feira, e o DI para janeiro de 2027 com taxa de 7,50% (regular) e 7,49% (estendida), de 7,574%.

Na sessão estendida, as taxas caíram mais, uma vez que, no fim da tarde, o presidente Bolsonaro fez defesa do ministro da Economia, considerado pelo mercado o grande fiador da agenda liberal do governo, mas que saiu enfraquecido do episódio da Petrobras.

Ao longo da sessão, após oscilarem ao redor dos ajustes na etapa matutina, os juros se firmaram em baixa à tarde, em sintonia com o alívio maior no câmbio e sinais positivos sobre as reformas vindos do Congresso. O senador Marcio Bittar (MDB-AC), relator da PEC que vai destravar o auxílio emergencial, protocolou seu parecer, que o Senado deve votar a PEC na quinta. Se houver acordo, os senadores poderão aprovar a medida em dois turnos e enviar o texto para a Câmara logo na sequência.

Apesar do texto prever gatilhos para o teto quando a despesa obrigatória superar 95% do total, há pontos preocupantes, como a autorização para nova rodada do benefício sem redução de gastos para compensação. Porém, o mercado se apegou na percepção de que as reformas estão andando.

"O sentimento é de torcida pelas reformas, com a entrega do relatório, boa perspectiva para a administrativa, e a questão da Eletrobras", disse o gerente da Mesa de Reais da CM Capital, Jefferson Lima. O Broadcast apurou que o governo vai enviar ao Congresso uma Medida Provisória para privatizar a companhia de energia que deve sair ainda nesta terça.

Para o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Camargo Rosa, a descompressão das taxas teve ajuda de Powell, dando uma "esfriada" no impulso dos Treasuries e ajudando moedas emergentes. "O Fed parece muito firme em não sancionar as expectativas do mercado e manter os juros em níveis superestimlativos", disse.

Powell afirmou que o Fed esperará que a própria inflação atinja a meta de 2%, não as expectativas sobre ela, notando que não espera um salto da inflação no curto prazo. Destacou os riscos de baixa para a economia americana e que a volta ao pleno emprego "não será tarefa fácil".


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