Dólar tem novo dia de baixa e fecha em R$ 5,35
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Dólar tem novo dia de baixa e fecha em R$ 5,35

Bolsa tem leve queda de 0,23%, e termina aos 85.468,91 pontos, com bancos

Por
AE

Real ganhou força influenciado pela queda da moeda norte-americana no exterior


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Nesta terça-feira, o dólar teve novo dia de baixa e zerou a alta acumulada em maio, passando agora a registrar queda de 1,48%. O real ganhou força hoje influenciado pela queda generalizada da moeda americana no exterior e pelo cenário político um pouco mais ameno, embora ainda monitorado de perto pelas mesas de câmbio. Nem mesmo a crescente aposta de corte mais intenso de juros em junho pesou nos negócios com dólar hoje. No mercado à vista, a moeda americana terminou o dia cotada em R$ 5,3578, na menor cotação desde 29 de abril, em baixa de 1,83%.

O índice DXY, que mede o dólar ante divisas fortes, foi negociado em forte queda na tarde de hoje. O analista sênior de mercados do banco Western Union, Joe Manimbo, a continuidade de reaberturas de economias europeias e progressos no desenvolvimento de uma vacina para o coronavírus ajudam a fortalecer o euro e também as moedas de emergentes.

Mas apesar desse otimismo, a elevação da tensão entre a China e os Estados Unidos, segue no radar. Hoje Washington voltou a atacar Pequim e, em entrevista à rede de TV Fox Business, o diretor do Conselho Econômico da Casa Branca, Larry Kudlow, disse que é "um grande erro" da China impor uma lei de segurança nacional sobre Hong Kong e que Donald Trump já não considera mais um acordo comercial com o país asiático tão importante como achava antes da pandemia.

No mercado doméstico, o noticiário político foi monitorado, mas ficou em segundo plano hoje. Nem mesmo a crescente aposta do mercado de corte de 0,75 ponto porcentual da taxa básica de juros, na reunião de junho do BC hoje no mercado futuro de juros, foi suficiente para segurar a queda da moeda americana. O analista de moedas do Canadian Imperial Bank of Commerce (CIBC), Luis Hurtado, revisou sua projeção e espera que a Selic caia para 2% ou 2,25% ao final do ano. Se não afetou hoje, ele acredita que no curto prazo o BC mais propenso a cortar juros vai pressionar o câmbio.

Sobre o cenário político, Hurtado acredita que o tema ainda vai continuar dominando o noticiário, na medida em que prosseguem as investigações de interferência de Bolsonaro na Polícia Federal e hoje ainda teve depoimento de mais de seis horas do empresário Paulo Marinho no Rio. Com juro menor e maior ruído político, o CIBC elevou a projeção de dólar para R$ 5,50 ao final do segundo trimestre.

Os estrategistas em Nova Iorque do Citibank destacam que o vídeo da reunião ministerial de Bolsonaro não trouxe maiores surpresas, o que ajuda a reduzir "riscos de cauda". Ao mesmo tempo, o banco americano alerta que o cenário político ainda é muito sensível no Brasil, especialmente em um contexto de escalada dos casos de covid-19 e potencial efeito nas taxas de aprovação do presidente. O Citi projeta que o dólar vai seguir acima de R$ 5,00, terminando o ano em R$ 5,54 e encerrando 2021 em R$ 5,15. O banco hoje cortou a projeção de desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil este ano, de contração de 4,5% para queda de 6,5%.

Ibovespa

O Ibovespa quase encadeou o segundo dia positivo nesta terça, embora em alta bem mais moderada do que a de segunda-feira, enquanto Wall Street retornou do feriado pelo Memorial Day com avanço consistente, em meio à reabertura gradual das economias, superado, ao que tudo indica, o pior momento da primeira onda do novo coronavírus no exterior. O progresso anunciado pelo laboratório Novavax em testes clínicos para uma vacina contra a Covid-19 contribuiu para a demanda por ativos de risco fora do Brasil, como ações e petróleo. Por aqui, o fator político reaparece no radar, após a Polícia Federal realizar nesta manhã operação de busca e apreensão na residência oficial do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), em meio a investigações sobre desvios de recursos da Saúde.

Entre os sinais de retomada no exterior e incertezas sobre a economia, a saúde e a política domésticas, o Ibovespa fechou a sessão de hoje em baixa de 0,23%, aos 85.468,91 pontos, após ter atingido ontem o maior nível de encerramento desde 10 de março, então a 92.214,47 pontos. Na máxima de hoje, o índice de referência da B3 foi a 87.332,53 pontos, maior nível intradia desde 11 de março, quando saiu de 92.202,15 pontos na abertura daquela sessão. Na mínima, à tarde, o Ibovespa tocou hoje os 85.395,71 pontos, tendo oscilado com mais frequência para terreno negativo após Witzel ter elevado o tom contra a família Bolsonaro.

Com a recuperação observada em maio, analistas gráficos apontam o nível de 90 mil pontos como alvo para o índice. Até o dia 5 de março, o Ibovespa mantinha-se acima dos 100 mil pontos, tendo fechado aos 102.233,24 pontos naquela ocasião, na sequência da correção iniciada na quarta-feira de cinzas, quando a progressão do coronavírus pelo mundo passou a assustar os mercados. O giro financeiro de hoje, elevado, totalizou R$ 29,5 bilhões e, agora, o índice acumula ganho de 4,01% na semana, e de 6,16% no mês, ainda cedendo 26,09% no ano.

Entre os setores da B3, destaque nesta terça-feira para bancos, que puxaram ajuste negativo após terem sido protagonistas no dia anterior com o ânimo em torno da fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre a necessidade de privatizar o Banco do Brasil, cuja ação ON subiu mais de 10% ontem. Hoje, as ações do segmento registraram perdas entre 2,25% (BB ON) e 4,52% (Bradesco ON), em meio a rumores de que o governo poderia se antecipar a movimento no Senado para tabelar juros do cheque especial, com uma trava nas taxas de juros do cartão de crédito.

"Houve uma recuperação, mas ainda não há uma definição de tendência, daqui pra frente. Isso acaba reforçando o papel dos "day traders", com visão de curto prazo, que acabam prevalecendo sobre a formação dos preços, operando a volatilidade. Foi o que aconteceu hoje com os bancos, um setor ainda atrasado no ano e que entrega lucros com regularidade: acabou passando por uma realização, após a alta do dia anterior", aponta Ari Santos, operador de renda variável da Commcor, observando que em média as ações de bancos acumulam perdas em torno de 40% em 2020, enquanto o Ibovespa cede 26% no período.

"Pelo peso que tem no índice, um avanço mais consistente das ações de bancos ajudaria a empurrar o Ibovespa para a linha de 90 mil pontos", diz Santos. "Realizar lucros rapidamente e colocar dinheiro no bolso tem sido um padrão, na medida em que ainda há muita dúvida sobre o cenário. A economia vai voltar bem aos poucos, assim como a confiança do consumidor, depois do desemprego elevado pela pandemia", acrescenta.

Em contraponto à queda dos bancos, destaque positivo para as ações de varejo e consumo, que contribuíram para mitigar a correção do Ibovespa. Na ponta do índice, B2W fechou em alta de 9,18%, seguida por Hypera (+7,02%) e Magazine Luiza (+6,75%). "As maiores altas do dia foram das ações de varejo online, após o mercado gostar do forte crescimento de vendas via e-commerce apresentado pela Magazine Luíza em seu resultado trimestral", diz Cristiane Fensterseifer, analista de ações da Spiti.

No foco político desta terça-feira após operação da PF, o governador do Rio disse que, pelas provas disponíveis, o "senador Flávio já deveria estar preso" e que é vítima de uma perseguição movida pelo presidente Jair Bolsonaro que alcançará também outros governadores. Mais tarde, Flávio Bolsonaro reagiu a Witzel, ex-aliado e atual desafeto da família do presidente. "Isso não é nada perto do tsunami que pode chegar contra você", disse o senador (Republicanos-RJ), em transmissão pela internet.

Sinais preliminares de distensão política haviam aparecido na semana passada, com a reunião entre o presidente e governadores na qual houve acordo sobre a situação fiscal e a necessidade de manter os salários do funcionalismo sob controle até o fim de 2021. Depois, na sexta-feira, a divulgação do vídeo da reunião do dia 22 de abril acalmou o mercado, ao não trazer elementos que, na visão dos investidores, reforçassem a denúncia do ex-ministro Sergio Moro contra o presidente Bolsonaro, de ingerência na PF.

A eventualidade de novas ações contra governadores conflagraria o quadro político, no momento em que as atitudes do presidente permanecem sob escrutínio da Justiça. Em aguardado pronunciamento à tarde, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de quem Bolsonaro tem se reaproximado, fez um apelo ao entendimento. "Faço desse momento um convite à pacificação dos espíritos; temos de trabalhar pelo Brasil", disse Maia.

Juros

Os juros futuros fecharam o dia com viés de alta nos vencimentos curtos e em baixa nos longos, nesta terça-feira, marcada pela divulgação do IPCA-15 mais baixo da história do Plano Real. Pela manhã, as taxas caíam com mais força em reação à deflação de 0,59% mostrada pelo índice, que elevou as apostas num novo corte de 0,75 ponto porcentual da Selic no Copom de junho, em meio ainda ao tombo do dólar e ao exterior positivo. No começo da tarde, passado o leilão de NTN-B, o ímpeto de fechamento das taxas esfriou, com a ponta curta já operando levemente acima dos ajustes de ontem e as taxas longas bem distantes das mínimas.

Fatores relacionados ao leilão, que foi significativamente maior do que o das últimas semanas, e uma certa cautela com o cenário político acabaram por puxar uma realização de lucros, considerando ainda que as taxas já haviam caído ontem com força. A realização de lucros só não avançou mais em função do dólar, que no fechamento da etapa regular derretia mais de 2%, abaixo dos R$ 5,35.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 encerrou em 2,385%, de 2,382% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2022 subiu de 3,20% para 3,24%. O DI para janeiro de 2025 terminou a sessão regular com taxa de 6,01%, de 6,10% ontem, e a do DI para janeiro de 2027 recuou de 7,06% para 6,98%.

"O leilão foi grande e uma parte do movimento é o fato de ontem o mercado já ter andado muito", comentou um gestor, para explicar a redução da queda das taxas. O Tesouro ofertou 1,6 milhão de NTN-B, mais que o dobro da oferta anterior de 650 mil. A instituição vendeu todo o lote de 1,5 milhão de papéis curtos e pouco mais de um terço (34.750) dos 100 mil títulos longos. Nas mesas, os relatos são de que as taxas do leilão foram "amassadas" e que a deflação do IPCA-15 que saiu logo na abertura acabou por melhorar o mercado e elevar a demanda pelos títulos.

Outro efeito do IPCA-15 foi sobre a precificação da curva em relação às apostas para a Selic, com avanço da expectativa de queda de 0,75 ponto na atual taxa de 3,00% na reunião de junho, o que deixa, assim, o mercado dividido. Segundo o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, a curva apontava no fim da tarde 56% de chance de corte de 0,75 ponto contra 44% de probabilidade de redução de 0,5 ponto.


A ressaca com o leilão de NTN-B no início da etapa vespertina coincidiu ainda com a informação de que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, faria pronunciamento na abertura da sessão, num dia de operação da Polícia Federal (PF) na casa do governador do Rio, Wilson Witzel, mas o tom das declarações trouxe alívio ao mercado. Na sequência de Maia, o empresário Paulo Marinho, ao sair da PF onde havia prestado novo depoimento, disse que havia trazido "elementos materiais de prova sobre vazamento" e mencionou celular do ex-ministro Gustavo Bebianno que está guardado nos Estados Unidos.