Dólar tem primeira queda do ano e recua para R$ 4,05
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Dólar tem primeira queda do ano e recua para R$ 4,05

Ibovespa termina em baixa pelo quarto dia seguido, fechando a 116.247,03 pontos

Por
AE

Após quatro dias seguidos de valorização, moeda americana fechou em queda de 0,31%

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O dólar fechou em queda nesta quarta-feira, a primeira de 2020, após quatro dias seguidos de valorização. O discurso um pouco mais ameno do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à tensão no Oriente Médio, fez a moeda americana mudar de curso ao longo do dia. A divisa subiu pela manhã, chegando a R$ 4,07, mas após as declarações do republicano, passou a cair. No segmento à vista, o dólar fechou em queda de 0,31%, a R$ 4,0518. No mercado futuro, o contrato para fevereiro terminou com leve perda de 0,09%, a R$ 4,0070, em meio a relatos da imprensa internacional no início da noite de novos ataques no Iraque, mas sem vítimas.

Desde que o Irã atacou duas bases americanas no Iraque na noite de ontem havia grande expectativa pela resposta americana, o que levou o dólar a se fortalecer no mercado internacional desde os primeiros negócios do dia. Trump usou as redes sociais mais cedo para dizer que "até aqui, tudo bem", mas havia grande expectativa sobre seu discurso, que começou pouco depois das 13 horas. A Casa Branca colocou novas sanções contra o Irã, mas o presidente disse que os EUA querem paz.

"Muito da serenidade do mercado de moedas hoje se deveu aos dois lados sinalizarem que não querem escalada adicional", observa o analista de investimento da XM Investment, Marios Hadjikyriacos. O dólar subiu ante divisas fortes, mas caiu nos mercados emergentes, alguns em ritmo forte, como na Rússia (-1,21%), Turquia (-1,11%) e África do Sul (-0,88%).

Para o diretor da Via Brasil Serviços Empresariais, Durval Corrêa, o pronunciamento de Trump mostrou o presidente mais "light", o que ajudou a reduzir a tensão do mercado de que a situação pudesse piorar no Oriente Médio. "Os ataques tinham deixado o mercado apreensivo", ressalta ele. Com isso, Corrêa vê o dólar com tendência de cair mais um pouco, compatível com o fluxo de capital externo que se espera para o Brasil este ano após os fracos números de 2019.

Os dados do Banco Central do fluxo cambial divulgados hoje mostram saída de US$ 44,7 bilhões em 2019, a maior da história. Pelo canal financeiro, saíram US$ 62,2 bilhões do Brasil no ano passado. Na semana do dia 30 de dezembro até o dia 3 deixaram o país US$ 2 bilhões pelo canal financeiro em valores líquidos, mas a B3 tem reportado entrada de capital externo em alguns dias. Em três pregões até o dia 6, o saldo de janeiro está positivo em R$ 257,8 milhões.

Além de dinheiro para o capital financeiro, deve entrar recursos para investimentos produtivos. Hoje, em leilão de concessão na B3 da rodovia Piracicaba-Panorama (chamado de PiPa), um dos compradores foi o fundo soberano GIC, de Cingapura, em consórcio liderado pela gestora Pátria. A proposta vencedora foi de R$ 1,1 bilhão. Além disso, várias empresas preparam aberturas de capital, como as seguradoras da Caixa, ou vendas subsequentes de ações.

Bovespa

Em dia de recuperação em Nova York, com os três índices em terreno marcadamente positivo após a distensão da retórica de guerra dos Estados Unidos ao Irã, o Ibovespa chegou a neutralizar perdas no início da tarde, sem conseguir chegar a sinal positivo no fechamento de hoje, estendendo assim a realização de lucros pela quarta sessão.

O principal índice da B3 encerrou em baixa de 0,36%, a 116.247,03 pontos, tendo cedido da marca de 116 mil na mínima do dia, aos 115.693,02 pontos. Na máxima, o Ibovespa foi aos 117.334,82 pontos. Mais uma vez, o giro financeiro foi elevado, na casa de R$ 24,3 bilhões. Na semana, o índice perde 1,24%, mas acumula ganho de 0,52% neste início de mês, concentrado na primeira sessão do ano, dia 2, quando o Ibovespa fechou pela primeira vez acima dos 118 mil pontos.

Por volta das 18h, contudo, os ganhos em Wall Street eram limitados à casa de 0,5% a 0,7%, em razão do relato de que a Zona Verde de Bagdá, região mais protegida da cidade, onde estão concentradas as representações estrangeiras, foi atingida por vários mísseis, segundo informou a Sky News Arabia.

No início da tarde, o presidente dos EUA, Donald Trump, contribuiu para a melhora da confiança dos investidores, ao desinflar a retórica e optar pelo caminho da pressão diplomática, por meio de sanções mais rigorosas ao país. O pronunciamento do líder americano era o evento mais aguardado do dia, após ter dito ontem à noite estar "tudo bem", em sua primeira manifestação sobre o ataque com mísseis efetivado pelo Irã a duas bases militares dos EUA no Iraque. Os incidentes não causaram baixas americanas, o que abriu caminho para que Trump absorvesse o revide sem recorrer a novas iniciativas militares contra o adversário.

"Não haverá guerra, mas sanções, e isso ajuda o mercado a ficar mais racional, menos preocupado com um cenário extremo", diz Pedro Galdi, analista da Mirae, acrescentando que os agentes tendem a se voltar para outras questões da agenda global, como a assinatura da fase 1 do acordo sobre a disputa comercial entre EUA e China, no dia 15, e o grau de implementação do entendimento, especialmente das compras de produtos agrícolas americanos pelos chineses. "A Bolsa brasileira avançou muito em dezembro, então é natural que, considerando essa gordura, haja realização um pouco mais longa por aqui", acrescenta.

Com o enfraquecimento da percepção de risco sobre o Oriente Médio, o petróleo fechou nesta quarta-feira em queda acentuada, após contratos futuros do Brent, a referência global, terem sido negociados acima de US$ 71 por barril na noite anterior, depois dos ataques. A referência americana, o WTI, fechou hoje em queda de 4,93% na Bolsa de Mercadorias de Nova York (Nymex), com o vencimento de fevereiro a US$ 59,61 por barril. O Brent para março fechou em baixa de 4,15%, a US$ 65,44 por barril. Por aqui, a ação ON da Petrobras encerrou o pregão em queda de 1,63% e a PN, de 0,62%.

Entre as de desempenho positivo na sessão, a ação da BRF fechou em alta de 3,84%, a da JBS, de 2,45%, e a da Marfrig, de 2,50%, com o desempenho do segmento de proteína animal sendo favorecido pela notícia de que a China, após a febre suína, enfrenta agora a gripe aviária. Em outro desdobramento positivo para os produtores brasileiros, os incêndios florestais na Austrália abrem espaço para o Brasil em mercados da região, especialmente em países do Sudeste Asiático, como Indonésia, tradicionalmente atendidos pelos australianos. "A gravidade da situação na Austrália levará o país a importar gado em pé", diz Galdi.

Juros

A percepção de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não sinalizou para uma resposta dura ao Irã ajudou a desenhar um cenário de alívio aos juros futuros na sessão desta quarta. As taxas tiveram baixas consistentes em meio à queda do dólar e do petróleo, que completam um quadro de menor temor inflacionário, já que há evidências de que o choque de carnes ficou concentrado em 2019 e as primeiras leituras de preços de 2020 mostram arrefecimento. Isso deu espaço, principalmente, para o aumento das apostas de corte de 0,25 ponto porcentual na Selic no Copom de fevereiro.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou em 4,455% (regular) e 4,460% (estendida), de 4,485% na terça-feira no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 passou de 5,780% para 5,720% (regular e estendida). O DI para janeiro de 2025 terminou com taxa de 6,400% (regular) e 6,420% (estendida), de 6,440%. O DI para janeiro de 2027 encerrou com taxa de 6,760% (regular) e 6,770% (estendida), de 6,790%.

Na avaliação do economista-chefe do Haitong Banco de Investimento, Flávio Serrano, o alívio no câmbio favoreceu principalmente os contratos de curto e médio prazos. "Nos DIs longos pegou um pouco, mas naquele trecho é mais o apetite ao risco com o movimento lá fora", disse.

Diante da acomodação externa, o dólar à vista fechou em queda de 0,31%, para R$ 4,0518. O barril do petróleo Brent, que é a referência do mercado internacional, tombou 4,15% (US$ 2,83), para US$ 65,44.

No caso dos juros, na ponta curta, o recuo do dólar favorece a perspectiva para o cenário de inflação num momento de pressão vinda dos combustíveis justamente em função da desvalorização cambial.

Somado a isso, há ainda sinais claros de desaceleração da pressão nos preços das carnes nos recentes índices de preço. Ao comentar a desaceleração do IPC-S de 0,77% no fim de dezembro para 0,57% na primeira quadrissemana de janeiro, o coordenador do índice, Paulo Picchetti, afirmou que todos os cortes de bovinos mostram alívio ou queda na ponta.

Nesse contexto, os players voltaram a ampliar suas fichas no corte da Selic no Copom de fevereiro, que hoje passaram a ser levemente majoritárias ante a expectativa de manutenção que vinha dominando o quadro de apostas nas últimas semanas. Segundo Serrano, a curva apontava 13 pontos-base de corte para a taxa básica no mês que vem, ou seja, 52% de chance de queda de 25 pontos-base e 48% de manutenção no atual nível de 4,50%. Ontem, a curva precificava 55% de possibilidade de Selic estável e 45% de chance de redução.