Dólar tem primeira queda semanal ante real após sete semanas de alta
capa

Dólar tem primeira queda semanal ante real após sete semanas de alta

Real foi a segunda moeda que mais se fortaleceu, fechando a R$ 4,08

Por
AE

Principal índice da B3 encerrou primeira semana de setembro com alta de 1,78%

publicidade

O dólar acumulou queda de 1,51% nos últimos cinco dias, marcando a primeira semana de baixa após sete semanas consecutivas de alta. O cenário externo mais positivo é o principal fator que está provocando a queda das cotações da moeda americana e nesta sexta-feira não foi diferente. A perspectiva de mais cortes de juros nos Estados Unidos se consolidou após a divulgação de criação de emprego mais fraca que o previsto na maior economia do mundo e ajudou a enfraquecer a moeda americana no mercado financeiro mundial. O real foi a segunda moeda que mais se fortaleceu, atrás apenas do peso mexicano. No mercado à vista, o dólar terminou em queda de 0,73%, a R$ 4,0801, a menor cotação em quinze dias.

Os estrategistas do banco americano Bank of America Merrill Lynch avaliam que o relatório de emprego dos EUA é o mais recente indício de desaceleração da economia americana. O documento deve manter o Federal Reserve em trajetória de corte de juros. O banco prevê nova redução de 0,25 ponto na reunião deste mês, movimento que pode ajudar a enfraquecer o dólar na economia mundial.

O holandês Rabobank já fala em juro perto de zero nos EUA até o final de 2020. Pela manhã, após a divulgação do relatório de emprego do EUA, o dólar bateu na mínima do dia aqui, a R$ 4,0546. Na parte da tarde, a falta de sinalização mais clara do presidente do Fed, Jerome Powell, acabou fortalecendo o dólar lá fora. "Powell repetiu seu mantra no discurso", avaliam os estrategistas do Rabobank. O dirigente reiterou que "agirá como for apropriado para sustentar a expansão".

"A probabilidade de corte de 0,50 ponto na próxima reunião do Fed é grande", disse o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa. Para ele, a economia americana perde força e o Fed deve levar os juros para 1,25% ao ano após uma série de cortes nesta e nas próximas reuniões de política monetária. Para o câmbio brasileiro, o Bradesco revisou a estimativa de dólar no final do ano, de R$ 3,80 para R$ 4,00, por conta do cenário externo mais adverso. Para dezembro de 2020, a estimativa foi mantida em R$ 3,80.

Barbosa avalia que o cenário externo está mais desafiador e deve seguir pressionando os emergentes. Os juros estão caindo lá fora, mas devem cair aqui também, deixando o Brasil menos atrativos para investidores internacionais, observa o banco. O Bradesco estima que o "valor justo" do câmbio, com base nos fundamentos brasileiros, é ao redor de R$ 3,80 e não acima de R$ 4,00. "O câmbio hoje espera o crescimento para voltar ao normal", disse o economista, ressaltando que o baixo desempenho da economia é um dos fatores que desencorajam estrangeiros a aportar recursos aqui.

Bovespa

Impulsionado pela forte valorização de ações de bancos, o Ibovespa emendou nesta sexta-feira o terceiro pregão seguido de alta, alinhado ao sinal positivo do índice Dow Jones, em Nova York. Com valorização em três das últimas cinco sessões, o principal índice da B3 encerrou a primeira semana de setembro com alta de 1,78%, mais do que apagando a queda de 0,66% em agosto.

Entre os principais índices setoriais da B3, o IFinanceiro foi o único a apresentar valorização nesta sexta-feira (alta de 2,34%). As ações PN do Itaú subiram 3,35%, e ao passo que as PN do Bradesco avançaram 4,19%. Juntos, os dois papéis representam cerca de 16% da carteira teórica do índice. No acumulado do ano, enquanto o Ibovespa avança cerca de 17%, Itaú PN ganha 6,42% e Bradesco PN, 8,31%.

"Os bancos estavam com papéis muito descontados, porque haviam sofrido muito em agosto. Com preço atrativo, acabaram se beneficiando dessa volta do apetite ao risco e da possibilidade de redução dos compulsórios", afirma Lucas Carvalho, analista de investimento da Toro, em referência a declarações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, de que o volume de compulsórios é elevado e há espaço para redução.

Segundo analistas consultados pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, o Ibovespa se beneficiou nos últimos dias da recuperação de apetite global por risco, com recuperação de mercados acionários e moedas emergentes. Esse movimento teve como principal indutor o arrefecimento da guerra comercial entre Estados Unidos e China, o que afastou os temores de recessão nos EUA e, por tabela, de uma desaceleração mais abrupta da economia mundial.

Principal indicador do dia, o relatório de emprego nos Estados Unidos revelou geração de 130 mil vagas em agosto, abaixo da estimativa do mercado, de 150 mil. Apesar de ter vindo acompanhando de aumento nos salários, o resultado do chamado "payroll" reforçou a expectativa de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) anuncie um novo corte de 25 pontos-base dos Fed funds - hoje entre 2% e 2,25%) - em 18 de setembro.

Em discurso no início da tarde, o presidente do Fed, Jerome Powell, não deu pistas claras sobre os próximos passos da instituição. Powell disse que a economia americana deve ter um crescimento moderado, entre 2% e 2,5% este ano, e que a inflação está caminhando para cima de volta à meta de 2%. Em tese, um sinal de que não se deve apostar em mais afrouxamento monetário. De outro lado, Powell ressaltou que a guerra comercial afeta as decisões de investimento e que o Fed vai continuar agindo de modo apropriado para sustentar a expansão da atividade, o que pode ser interpretado como uma indicação de mais cortes de juros.

Carvalho, da Toro, considerou o tom de Powell "neutro" e, apesar da crença dos mercados em nova redução dos juros, é preciso esperar indicadores da próxima semana, sobretudo dados de inflação nos EUA, para ter uma visão mais clara do rumo que o Fed vai tomar.

No cenário doméstico, analistas consideraram que já está refletido nos preços das ações a perspectiva de que a taxa Selic - atualmente em 6% ao ano - será reduzida até pelo menos 5% e que haverá uma aceleração, ainda que gradual, da atividade econômica nos próximos trimestres. Pela manhã, o IBGE divulgou que IPCA fechou agosto com variação de 0,11%, desaceleração ante julho (0,19%). Embora levemente acima da mediana das projeções colhidas pelo Broadcast (0,10%), o resultado do IPCA no mês passado reforça o cenário benigno para a inflação.

Taxas de juros

Os juros futuros não tiveram fôlego para sustentar a queda vista pela manhã e já no começo da tarde desta sexta-feira o movimento perdia força, com as taxas migrando para perto dos ajustes de quinta, na medida em que o ritmo de baixa do dólar também esfriou. Havia alguma expectativa com o discurso do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, mas suas declarações não endossaram a percepção "dovish" trazida pela leitura do relatório de emprego norte-americano divulgado mais cedo. No Brasil, o IPCA de agosto marginalmente acima da mediana das estimativas e com alguns preços de abertura mais pressionados não alterou o cenário benigno para inflação e Selic, tampouco teve impacto relevante sobre a curva.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou em 5,37%, de 5,388% quinta no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 encerrou em 6,45%, de 6,431%. A taxa do DI para janeiro de 2025 ficou em 7,00%, de 6,981%. A semana foi de alívio nos prêmios, entre 10 e 20 pontos-base, dos principais contratos.

"O payroll foi mais fraco e o mercado se animou, entendendo que o Federal Reserve ficaria mais propenso a cortar juros. Já o discurso de Powell foi neutro. Pode até ter havido alguma decepção, com o mercado esperando alguma sinalização mais 'dovish' em função do payroll", afirmou Matheus Gallina, trader de renda fixa da Quantitas Asset. Powell discursou na Universidade de Zurique, na Suíça. "Analisando racionalmente, o formato deste tipo de evento não me parecia propício para qualquer comentário mais forte", acrescentou.

O movimento de baixa do DI foi firme pela manhã, depois do relatório de emprego nos EUA, quando o dólar bateu na mínima de R$ 4,0546. O número de criação de vagas - 130 mil ante 150 mil esperadas - acabou ficando em primeiro plano em detrimento do aumento do salário médio por hora (0,39%) acima do esperado (0,30%). No entanto, não houve mudança relevante nas apostas de que o Fed deve promover um corte de 25 pontos-base no juro na sua reunião deste mês. Já Powell disse que a economia americana está "em um bom lugar", com um mercado de trabalho ainda se tornando mais apertado. Por outro lado, reconheceu que a insegurança em torno das questões comerciais tem levado empresas a segurar investimentos. Também admitiu que o Fed não devia ter deixado a inflação americana "cair para tão abaixo da meta" de 2%.

Por aqui, o IPCA de 0,11%, ante mediana das estimativas de 0,10%, não desanimou o mercado sobre o corte de 0,50 ponto porcentual, mesmo com piora em alguns preços de abertura, mas que não comprometeu a percepção de inflação bem comportada. Na precificação da curva de juros, a probabilidade de corte de 0,50 ponto da Selic é de 84%, conta 16% de chance de queda de 0,25 ponto, segundo a Quantitas. O Bradesco revisou sua projeção de Selic para o fim do ciclo de queda de 5,0% para 4,75%.