Dólar tem quinta queda consecutiva com perspectiva de solução para o Orçamento

Dólar tem quinta queda consecutiva com perspectiva de solução para o Orçamento

Moeda americana fechou essa segunda-feira em R$ 5,55

AE

Cotação do dólar atingiu recorde em novembro

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O dólar engatou nesta segunda-feira, 19, a quinta queda seguida ante o real, com ajuda da baixa da moeda americana no mercado internacional e a perspectiva de resolução para a questão do Orçamento de 2021, que tem prazo para sanção até a quinta-feira, 22. Também agradaram declarações do novo presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, de preservar a paridade internacional nos preços dos combustíveis.

Houve relatos de entrada de fluxo externo para o País, comercial e financeiro, o que levou a moeda americana a cair para R$ 5,52 na mínima do dia, testando os menores valores em quase um mês. Se a questão orçamentária for resolvida sem rupturas ao teto, economistas projetam nova rodada de melhora para o real.

No fechamento, o dólar à vista encerrou a segunda-feira em baixa de 0,61%, a R$ 5,5505. No mercado futuro, o dólar para maio cedia 0,81% às 17h36, a R$ 5,5490.

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A ministra da Secretaria de Governo da Presidência da República, Flávia Arruda, afirmou no período da tarde que o governo caminha para o veto parcial no Orçamento, mantendo algumas emendas e cortes em despesas discricionárias. Ela citou que a ideia é vetar R$ 10,5 bilhões em emendas, número que não agradou muito e fez o dólar reduzir o ritmo de queda, considerando que estas emendas somam R$ 35 bilhões e esperava-se corte de ao menos metade.

Para o economista Samuel Pessôa, chefe de pesquisa econômica da Julius Baer Family Office, pode haver uma descompressão no câmbio se o governo conseguir resolver a questão do orçamento de 2021 respeitando dois princípios. O primeiro é que tudo que seja extra teto de gastos seja só de medidas associadas à pandemia, com despesas transitórias, e as despesas recorrentes dentro do teto. "Dada a dimensão da segunda onda, é natural que haja gastos adicionais." O segundo princípio é que as despesas extra teto têm tem ter um orçamento.

"Se aprovar um orçamento que tenha esses dois princípios, vai ter a partir da próxima semana uma descompressão no mercado, uma certa sensação de mais tranquilidade", disse Pessoa em live no período da tarde da Genial Investimentos. "O câmbio deve voltar um pouquinho. Não vai ser uma maravilha, porque a política fiscal está muito machucada. Temos um desequilíbrio fiscal estrutural grande que a gente só vai tratar em 2023. A descompressão não vai ser total, mas alguma vai ter."

"Se a gente conseguir criar uma situação em que tudo que está extra teto se refere a condições transitórias, dá ideia de que o teto é restrição efetiva", afirma o economista-chefe da Genial, José Márcio Camargo. Ele observa que o mais preocupante no imbróglio do Orçamento foi a notícia que incluía algumas emendas parlamentares fora do teto isso. "Isso seria um desastre", disse ele na mesma live. "É preciso que o presidente vete algumas emendas parlamentares, porque se trocou despesas obrigatórias por emendas."

Com o Orçamento resolvido, Camargo vê pressão para a valorização do real pela frente, por conta da entrada de dólares via comércio. Ele observa que os dois maiores parceiros comercias do Brasil - Estados Unidos e China - devem crescer 8% em 2021. A Genial prevê que o dólar pode cair para perto de R$ 5,00 ou mesmo R$ 4,90 ao final do ano.

Bolsa

O forte desempenho das ações de Petrobras (PN +5,80%, ON +5,03%), reagindo bem à fala inicial do novo presidente da empresa, colocava o Ibovespa a caminho do sexto ganho seguido, em sua melhor sequência desde o início de novembro. Contudo, na reta final da sessão, o índice perdeu força e oscilou para o negativo, de onde não mais sairia até o fechamento, com a reação do mercado ao corte de apenas R$ 10,5 bilhões em emendas, sinalizado pela ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, responsável pela interlocução entre Planalto e Congresso.

Assim, o Ibovespa interrompeu série de cinco ganhos ao fechar a segunda-feira em leve baixa de 0,15%, aos 120.933,78 pontos, entre mínima de 120.682,17 e máxima de 121.974,21 pontos nesta segunda-feira.

Mais cedo, o desempenho da sessão - de vencimento de opções sobre ações - colocava o índice da B3 mais perto de recuperar a linha de 122 mil pontos, ensaiada na máxima da sessão, quando atingiu o maior nível intradia desde 19 de janeiro (122.120,24 pontos), parecendo, até a virada final, a caminho do maior nível desde o fechamento de 14 de janeiro (123.480,52).

A sinalização ruim sobre o Orçamento de 2021, que precisa ser sancionado até quinta-feira, com feriado na quarta, foi decisiva para colocar os investidores na defensiva no fim da tarde, após três semanas de ganhos para o Ibovespa.

Embora com avanço moderado, abaixo de 1% em cada das últimas cinco sessões, foi a mais longa série positiva desde novembro, quando o mercado, aqui e no exterior, reagia à eleição americana e à proximidade da vacina para covid-19. Com o vencimento de opções sobre ações, o giro financeiro foi nesta segunda-feira a R$ 56,1 bilhões. No mês, o Ibovespa passa a acumular ganho de 3,69%, após avanço de 6% em março, o que o coloca agora em alta de 1,61% no ano. Na mínima desta sessão, o índice foi a 120.682,17, pós-Arruda, às 16h28, com abertura a 121.116,05 pontos.

"O cenário ainda é incerto para o mercado no curto prazo. A decisão sobre o Orçamento de 2021, a ser tomada até quinta-feira, é o grande ponto de atenção. Sem uma definição que demonstre controle da situação e priorização da saúde fiscal, aumentam os riscos de o teto de gastos ser desrespeitado", diz Paula Zogbi, analista da Rico Investimentos.

"Há discussão de mais de um mês sobre BEm e Pronampe, ainda assim há incerteza sobre como elevar despesas sem ferir teto de gastos e, mais do que isso, a percepção do mercado. É provável que haverá vetos parciais (no Orçamento de 2021) até quinta-feira e talvez, mesmo com o PLN 2, a gente tenha novos projetos a serem encaminhados ao Congresso. Essa discussão deve perdurar mais alguns dias, o que deve causar mais volatilidade ao mercado", diz Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.

Nesta segunda, a performance de Petrobras, contida na reta final com a perda de força do Ibovespa, mais do que compensava o ajuste negativo em Vale ON (-0,87%) e o desempenho negativo do setor de siderurgia (CSN -1,19%) - apesar do avanço do preço do minério de ferro na China, com fortalecimento da demanda global por aço - e nova retração do segmento financeiro (Bradesco ON -1,24%, Itaú PN -1,50%), o de maior peso no Ibovespa.

Mesmo assim, Petrobras devolveu parte do prêmio negativo acumulado desde fevereiro, quando, ao se anunciar que Roberto Castello Branco não seria reconduzido pelo governo a novo período à frente da empresa, emergiu o temor de interferência política nos preços dos combustíveis. No ano, Petrobras PN ainda acumula perda de 11,45% e a ON, de 14,73%. Ao assumir o cargo nesta segunda-feira, Silva e Luna mencionou que, ainda que se busque redução da volatilidade nos preços, o alinhamento com a realidade internacional da commodity não será perdido de vista, um sinal bem recebido pelos investidores.

Dessa forma, as ações de Petrobras seguraram a ponta do Ibovespa nesta segunda-feira, junto a Braskem (+5,62%), após notícia de que fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos negocia com a antiga Odebrecht compra de fatia da empresa petroquímica, e a JBS (+3,74%), após compra de empresa europeia de proteína vegetal, em iniciativa de diversificação. No lado oposto, Hering devolveu parte dos ganhos recentes, em baixa de 3,98% nesta segunda-feira, à frente de Eneva (-3,60%) e de Lojas Renner (-3,56%).

Juros

Os juros futuros terminaram o dia em queda, reagindo à movimentação em Brasília em torno dos ajustes ao Orçamento prometidos para esta segunda-feira. A despeito dos vetos terem ficado abaixo do esperado, pesou mais o fato de que finalmente houve acordo após semanas de impasse. A solução ficou longe do ideal, mas foi a possível para conciliar demandas políticas e da equipe econômica. Além disso, assim como a Bolsa, o mercado de juros também gostou do discurso do novo presidente da Petrobras, que tomou posse reafirmando a política de paridade de preços e rechaçando interferências na companhia sob o seu comando. O alívio no câmbio e o ambiente ameno no segmento de Treasuries seguiram dando suporte ao desmonte de posições compradas.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou em 4,625%, de 4,656% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2025 caiu de 7,966% para 7,88%. A do DI para janeiro de 2027 passou de 8,604% para 8,50%.

A trajetória de queda foi definida à tarde, na medida em que o noticiário ia sinalizando que a solução para o texto do Orçamento estava sendo costurada. "Estamos bem avançados porque estamos às vésperas de sancionar, as coisas estão apaziguadas", afirmou Flávia Arruda, segundo a qual o foco "é não romper a responsabilidade fiscal".

Segundo ela, serão vetados R$ 10,5 bilhões em emendas do relator. O mercado contava com um valor mais amplo, dado que o total de emendas era de R$ 35 bilhões.

Mais até do que os detalhes do arranjo, o fato de a novela caminhar para um desfecho é o que trouxe alívio. Renan Sujii, consultor de Investimentos, afirma que "muita coisa negativa" já estava embutida nos preços e que a fala de Silva e Luna também abriu espaço para devolução de prêmios, com suavização no risco político. "Deu um sinal positivo, de que a companhia é independente", disse.

Além do Orçamento, o economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito, diz que outro fator que desinflou a parte longa da curva tem a ver com o fim do pior momento dos derivados de petróleo que estavam forçando a inflação de curto prazo. "Os patamares ainda são altos, mas aparentemente o pior do choque ficou para trás. Com uma inflação de curto prazo menos incômoda, investidores agora esperam um ajuste menor das condições monetárias no Brasil", afirma.

Ainda, segundo ele, a curva brasileira se beneficia do fato de que os juros de 10 anos nos EUA estão dando uma trégua. "Desde o início do mês a tendência tem sido de queda na taxa e isto retirou parte do receio do mercado que a taxa longa aqui subisse via arbitragem", avaliou.


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