Dólar termina em leve queda após alta com fala de Guedes sobre auxílio

Dólar termina em leve queda após alta com fala de Guedes sobre auxílio

Moeda norte-americana encerrou a sessão cotada a R$ 5,03

AE

Dólar apresentava leve alta contra a moeda brasileira

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O dólar operou novamente sem rumo ante o real nesta terça-feira, alternando pequenas altas e baixas com os investidores reagindo pontualmente ao noticiário local e aguardando a agenda doméstica e externa pela frente. A moeda americana chegou a acelerar a alta no começo da tarde quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, declarou que "possivelmente" o auxílio emergencial será prorrogado por "dois ou três meses" e o Bolsa Família deve ser "reforçado". Na máxima do dia, foi a R$ 5,06. Já as vendas no varejo de abril, melhores que o previsto, ajudaram a estimular as vendas de dólares.

Operadores reportaram nesta terça a entrada de fluxo externo, principalmente comercial, mas após a forte queda recente da moeda americana, profissionais das mesas de câmbio comentam que o mercado precisa de um novo catalisador para firmar tendência mais clara.

Após cair a R$ 5,02 na mínima da sessão, o dólar fechou a terça-feira em leve queda de 0,05%, a R$ 5,0345. No mercado futuro, o dólar para julho cedia 0,19%, a R$ 5,0495 às 17h44.

Para o diretor de Tesouraria do MS Bank, Bruno Perottoni, a liquidez global segue muito alta, o que contribui para o dólar se enfraquecer no mercado internacional, ajudando as moedas de emergentes. No Brasil, a balança comercial, por conta da sazonalidade, ganha fôlego com a venda da safra agrícola. O cenário de alta de juros pelo Banco Central também ajuda a estancar a saída de dólares, ressalta. Se o cenário seguir positivo e sem notícias negativas de Brasília, o real pode ter algum fôlego a mais de valorização, buscando os R$ 5,00 ou até abaixo desse valor, avalia o diretor.

No final da tarde, Guedes disse que o Brasil está "surpreendendo positivamente em termos de retomada da economia" e ainda avança na vacinação em massa da população. Após a disparada do dólar ante o real (overshooting), batendo em R$ 5,75 em meados de abril, o ministro avalia que "provavelmente" a divisa dos EUA "não vai subir tanto assim novamente". Além disso, Guedes reforçou a visão de que as reformas - administrativa e tributária - vão de fato andar nos próximos dias.

O operador da Commcor, Cleber Alessie, destaca que as vendas do varejo animaram, na medida em que reforçam a visão de atividade mais forte no segundo trimestre. Ao mesmo tempo, trouxe um pouco de pressão as declarações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. O dirigente voltou a avaliar a alta da inflação como transitória, reforçando a visão de ajuste parcial na alta da taxa básica de juros, a Selic. As vendas no varejo restrito cresceram 1,80% em abril ante março, com ajuste sazonal.

Nesse ambiente, cresceu a expectativa pela divulgação na quarta-feira do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio, ressalta Alessie. Ele vê volatilidade apenas se o indicador vier muito acima do esperado. Analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast apontam que o índice deve subir 0,71% em maio e chegar a 7,92% em 12 meses.

Juros

Os juros futuros, que tinham queda firme pela manhã, zeraram o recuo à tarde, passando a rondar a estabilidade durante toda a segunda etapa. O foco no cenário externo que prevaleceu inicialmente, em especial com a queda nos rendimento dos Treasuries, deu lugar à realidade local, com destaque para os receios com o cenário fiscal reforçados por declarações de Guedes.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou em 5,125%, de 5,122% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2023 ficou estável em 6,72%. O DI para janeiro de 2025 terminou a sessão regular com taxa de 7,76%, de 7,795% na segunda-feira, e a do DI para janeiro de 2027, que nas mínimas da manhã chegou a 8,25%, encerrou em 8,30%, de 8,324% no ajuste anterior.

O diretor de Gestão de Renda Fixa e Multimercados da Quantitas Asset, Rogério Braga, destacou que pela manhã as taxas estiveram bem correlacionadas às curvas lá fora, mas deslocaram o foco para o ambiente interno à tarde, sobretudo a partir da fala de Guedes por volta das 12h30.

Em evento virtual da Frente Parlamentar do Setor de Serviços, o ministro admitiu a chance de prorrogar o auxílio por três meses, quando a expectativa do mercado era de que fosse por dois meses. Guedes disse ainda que "logo depois" "entra o novo Bolsa Família, reforçado".

No meio da tarde, já em evento do Bradesco, ele voltou ao assunto e disse que "se for necessário estender (o auxílio) para outubro, tudo bem". Sobre o novo programa, explicou que seguirá linhas "conservadoras" já observadas hoje no Bolsa Família e que os recursos ficarão dentro do Orçamento e do limite do teto de gastos.

"Prorrogar o auxílio por dois ou três meses, no fundo, não faz tanta diferença, mas a ampliação do Bolsa Família chama a atenção. É o conjunto da obra", disse Braga, que destaca o fato de ter sido Guedes, tido como o grande defensor da disciplina fiscal, a sustentar a ideia. "Chama a atenção tal sensibilidade num ano eleitoral", comentou.

Em evento do JPMorgan, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse que a inflação está crescendo "em vários lugares". Ao abordar as ações dos países para sustentar suas economias durante a pandemia, voltou a afirmar que existe hoje uma questão em torno do quanto é eficiente prover mais estímulos e até que ponto o País pode fazer mais. No Brasil, porém, manteve a avaliação de que os choques de inflação são temporários.

Tal avaliação reforça a discussão sobre se a autoridade monetária vai manter a sinalização de recomposição parcial da Selic no processo de ajuste monetário em sua comunicação, dada a piora da inflação corrente e das expectativas de inflação e surpresas positivas com a atividade, endossadas nesta terça na agenda de indicadores. O Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) acelerou de 2,22% em abril para 3,40% em maio, abaixo da mediana das estimativas (3,66%). Já os dados do varejo em abril superaram a mediana das previsões, colocando viés de alta nas projeções de PIB no segundo trimestre.

Bolsa

O Ibovespa entregou uma moderada realização de lucros após a mais longa sequência de ganhos desde fevereiro de 2018, ao fechar nesta terça-feira em baixa de 0,76%, aos 129.787,11 pontos, entre mínima de 129.230,31 (-1,18%) e máxima de 130.776,32 pontos, da abertura, vindo de seis sessões em que havia renovado tanto o recorde intradia como o de fechamento. O giro financeiro ficou nesta terça em R$ 36,0 bilhões e, na semana, o Ibovespa passa a ceder 0,26%, ainda avançando 2,83% no mês e 9,05% no ano.

Analistas apontam que a relativa acomodação das preocupações sobre a situação fiscal do País, desde as mais recentes revisões sobre a atividade econômica e a relação dívida/PIB para o fechamento do ano, combinada a uma perspectiva gradualista para o ajuste e o timing de eventual calibragem nos estímulos monetários providos pelos principais BCs, melhorou o fluxo de recursos externos, com efeitos diretos sobre o câmbio e a Bolsa. Nesta terça, o dólar à vista fechou em leve baixa de 0,05%, a R$ 5,0345, agora bem distante da marca de R$ 6 que se chegou a temer nos piores momentos da tensão sobre as contas públicas.

"O ambiente mais favorável ao risco tem impulsionado os fluxos para mercados emergentes, principalmente para a dívida local. Além disso, condições iniciais estão mais positivas do que nos períodos em que estímulos monetários foram retirados em crises passadas", observa em nota Jennie Li, estrategista de ações da XP.

O movimento desta terça-feira foi visto como uma realização de lucros natural e aguardada. Com o petróleo Brent negociado a US$ 72 por barril, e o WTI fechando acima de US$ 70 pela primeira vez desde outubro de 2018, Petrobras (PN +1,31%, ON +2,40%) foi a exceção positiva entre as blue chips, em dia amplamente negativo para os setores de maior peso na B3, como mineração (Vale ON -1,68%), siderurgia (Usiminas -2,34%) e bancos (Itaú PN -0,70%). Além de Petrobras, as perdas do Ibovespa foram mitigadas por desempenho positivo do setor de varejo, com Via Varejo (+4,37%) na ponta do índice, à frente de Azul (+2,86%), de Petrobras ON e de CVC (+1,89%). Na ponta oposta, Braskem cedeu 6,36%, B3, 5,55%, e IRB, 3,33%.

O dado do IBGE sobre as vendas do varejo em abril, em alta de 1,8% ante março, bem acima da média das expectativas, e o melhor resultado para o mês desde 2000, deu impulso às ações do setor nesta terça-feira, aponta Pietra Guerra, analista da Clear Corretora, destacando a aceleração de móveis e eletrodomésticos, seguidos por vestuário.

Ainda assim, "o Ibovespa voltou para os 129 mil pontos, em queda puxada também por Eletrobras (PNB -3,08%, ON -2,48%), movida por críticas sobre a MP da privatização, o que levou o secretário de desestatização a rebatê-las em evento realizado hoje", diz Davi Lelis, sócio da Valor Investimentos.

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