Dólar vai a R$ 3,98 com Argentina e bolsa cai 2%
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Dólar vai a R$ 3,98 com Argentina e bolsa cai 2%

Dólar chegou a superar R$ 4,00, influenciado pela derrota de Macri na Argentina

Por
AE

Índice Bovespa terminou dia em baixa de 2,00%, aos 101.915 pontos

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A segunda-feira foi de nervosismo no mercado de câmbio e o dólar chegou a superar R$ 4,00, influenciado pela Argentina e o temor da volta da esquerda ao poder no país vizinho. Pela tarde, os ânimos se acalmaram aqui, quando o peso reduziu o ritmo de alta após o banco central argentino injetar recursos no mercado e subir os juros, mas o clima de cautela prosseguiu. Além da crise no país vizinho, a tensão comercial entre os Estados Unidos e a China e a intensificação dos protestos em Hong Kong contribuíram para estimular a fuga de ativos de risco e fortalecer o dólar ante moedas emergentes. O dólar à vista fechou em alta de 1,09%, a R$ 3,9834, maior nível desde 28 de maio, quando terminou em R$ 4,02.

Com a inesperada vitória por ampla margem nas eleições primárias de domingo do candidato peronista Alberto Fernández, que tem como companheira de chapa a ex-presidente Cristina Kirchner, o peso despencou e o mercado brasileiro de câmbio foi pego de surpresa. Operadores relatam que pela manhã faltou dólar no mercado, pois não havia vendedores da moeda americana.

"Não tinha contraparte", afirmou o chefe da mesa de câmbio da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, ressaltando que isso retirou a liquidez do mercado. Após a volta do almoço, com as notícias de ação do Banco Central da Argentina, que fez várias intervenções (vendas de títulos e de dólares) e ainda elevando os juros, a situação se normalizou um pouco. "Houve surpresas aqui, o mercado não tinha precificado totalmente a volta de Cristina Kirchner", afirma. Por isso, primeiro houve uma reação forte, com o mercado precificando o pior cenário e, depois, houve uma reavaliação, com os agentes corrigindo exageros.

A Argentina é um dos mais importantes parceiros comerciais do Brasil e Velloni, da Frente Corretora, observa que a volta da esquerda ao poder pode levar a revisão de acordos comerciais e até colocar em risco o recente acerto entre o Mercosul e a União Europeia. Há ainda o temor de que a volta de Kirchner pode levar a Casa Rosada a dar novo calote nos investidores internacionais. A ex-presidente se recusou a negociar a dívida com os credores americanos, que apelidou de "abutres". O banco americano Wells Fargo vê como "muito provável" a declaração de um default ou reestruturação da dívida.

Com o cenário externo mais adverso, o banco americano JPMorgan elevou a estimativa para o dólar no Brasil no final de 2019 de R$ 3,90 de R$ 4,00. Eventos positivos no mercado doméstico, como a expectativa de que a reforma da Previdência deve ser totalmente aprovada no Senado até outubro, estão sendo ofuscados por eventos no mercado internacional, principalmente a intensificação da tensão comercial entre China e Estados Unidos e agora a Argentina.

Bovespa

O cenário internacional já adverso ganhou novo ingrediente nesta segunda-feira com as eleições primárias na Argentina, que apontaram para a derrota do atual presidente, Mauricio Macri. Os temores do ressurgimento de uma política intervencionista no país vizinho, com risco de default e outros desdobramentos, atingiram em cheio a bolsa brasileira. Entre as ações mais penalizadas estiveram as de empresas com atividade econômica na Argentina, principal parceiro do Brasil no Mercosul. O Índice Bovespa terminou o dia em baixa de 2,00%, aos 101.915,22 pontos.

Nas primárias argentinas, a chapa encabeçada por Alberto Fernández, que tem a ex-presidente Cristina Kirchner como vice, recebeu 47,66% dos votos, enquanto a do presidente Maurício Macri somou 32,09% do total. Se for repetido em 27 de outubro, esse resultado dará a vitória à oposição já no primeiro turno, ameaçando a continuidade das atuais políticas econômicas. O risco-país argentino subiu mais de 100% e o Índice Merval, da bolsa de Buenos Aires, fechou em queda de 36,56%.

Em Nova York, as bolsas caíram mais de 1%, repercutindo principalmente o noticiário sobre a China, com a intensificação das tensões com Hong Kong e a falta de perspectivas para o final da guerra comercial travada com os Estados Unidos. A busca por ativos de segurança promoveu um movimento global de busca pelo dólar e por títulos do Tesouro dos Estados Unidos, cujos juros dispararam.

As quedas do Ibovespa foram generalizadas entre as blue chips, com destaque para bancos. O bloco de maior peso na carteira do Ibovespa teve perdas expressivas, como Banco do Brasil ON (-3,39%), Itaú Unibanco PN (-4,14%) e Bradesco PN (-2,09%). Os papéis de Petrobras e siderúrgica também se sobressaíram entre as quedas. Gerdau PN caiu 2,71% e Petrobras PN recuou 2,69%.

Na avaliação de Luís Sales, analista da Guide Investimentos, o quadro eleitoral argentino passa agora a figurar entre as variáveis monitoradas pelo mercado no Brasil, mas é possível que a volatilidade não seja tão grande nas próximas semanas. "De certa forma, o mercado precificou a derrota de Macri, pelo inesperado das eleições primárias. O que será repercutido daqui em diante serão os desdobramentos dessa possível derrota", afirmou o profissional.

Entre as ações da carteira do Ibovespa, a maior queda foi de Gol PN (-7,20%), afetada pela alta do dólar e pelas atividades da empresa nos países da América do Sul. CVC ON, que recentemente adquiriu o grupo argentino Almundo, dobrando sua participação na Argentina, caiu 3,02%.

Taxas de juros

O nervosismo do cenário externo manteve os juros futuros em alta durante toda a sessão desta segunda-feira, mas à tarde o movimento perdeu um pouco da força, depois que o Banco Central da República Argentina (BCRA) interveio no mercado elevando os juros e limitando a pressão sobre o câmbio. Também contribuiu para o alívio a ampliação da queda dos rendimentos dos Treasuries, que bateram mínimas. As taxas curtas encerraram praticamente estáveis. De maneira geral, porém, a avaliação é de que o impacto da aversão ao risco foi limitado sobre a curva, graças ao quadro interno de otimismo com as reformas, com a inflação e aposta na queda da Selic.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 passou de 5,389% para 5,40% e a do DI para janeiro de 2023, de 6,351% para 6,39%. O DI para janeiro de 2025 fechou com taxa de 6,88%, de 6,851%. O volume de contratos negociados foi pouco acima da média, ainda mais considerando o fato de ser segunda-feira, quando normalmente o apetite pelos negócios é baixo.

As primárias na Argentina foram o assunto do dia, com o mercado dando como certa a vitória do candidato da oposição Alberto Fernández, que tem a ex-presidente Cristina Kirchner em sua chapa. Ele venceu o atual presidente, Mauricio Macri, que tenta a reeleição, por 47% a 32%. Analistas consideram o quadro de difícil reversão, tanto em função da diferença, de 15 pontos porcentuais, quanto pela proximidade do pleito, em 27 de outubro.

O temor do mercado é o retorno da política intervencionista, com mão forte do Estado. "O risco é a volta da política econômica populista e aqui, mesmo que estejamos claramente em outro sentido, na hora da aversão ao risco todo mundo é colocado no mesmo saco", afirmou a gestora de renda fixa da Mongeral Investimento, Patricia Pereira.

As turbulências no país vizinho, ainda que tenham levado o dólar às máximas, de volta aos R$ 4, por enquanto não comprometem a percepção sobre a Selic. De acordo com a Quantitas Asset, a precificação da curva apontava 60% de possibilidade de queda da taxa básica para 6% no Copom de setembro. "Com o câmbio nesses níveis ainda dá para cortar, mas se for para R$ 4,30 poderia inibir novas quedas", disse o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno.

Além da Argentina, o mercado esteve mais pessimista sobre um acordo entre a China e os Estados Unidos, depois da afirmação do presidente Donald Trump de que irá avaliar se a próxima rodada de diálogos agendada para setembro será mantida. A demora para um desfecho acentua as preocupações sobre o crescimento global e, com isso, sugere a necessidade de ampliação das políticas de relaxamento monetário pelos bancos centrais. O rendimento da T-Note de dez anos caiu ainda mais à tarde, quando bateu em 1,628% na mínima, ante o patamar de 1,74% na sexta-feira.