Dólar vai a R$ 4,07 e real tem pior desempenho ante dólar entre 34 moedas
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Dólar vai a R$ 4,07 e real tem pior desempenho ante dólar entre 34 moedas

Moeda americana deve fechar a sexta semana consecutiva de valorização no Brasil

Por
AE

Dólar deve fechar a sexta semana consecutiva de valorização no Brasil

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O real foi novamente a moeda com pior desempenho ante o dólar, considerando uma cesta de 34 divisas, após dois dias seguidos de queda. No mercado financeiro internacional, o dia foi marcado por novos temores de piora da economia mundial e prudência antes do discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Jerome Powell, que será feito na manhã desta sexta-feira no evento de Jackson Hole. O dólar à vista terminou o dia em alta de 1,19%, cotado em R$ 4,0780, o maior valor desde 20 de maio, quando terminou em R$ 4,10. O dólar operou praticamente toda a quinta-feira em alta e só chegou a cair pontualmente na hora em que o Banco Central ofertou US$ 550 milhões no mercado à vista, de dinheiro das reservas internacionais em conjunto com operação de swap reverso (compra de dólar no mercado futuro). Ao contrário de quarta, quando fez o primeiro leilão desta nova estratégia, os recursos foram totalmente tomados pelo mercado.

Em seguida, logo após a operação, o dólar voltou a subir acompanhando o mercado externo. "O Brasil tem muitas reservas e o Banco Central tem bastante munição para atuar", avalia o gerente de tesouraria do Travelex Bank, Felipe Pellegrini, ressaltando que as altas sucessivas do dólar aqui justificam essa estratégia do BC. Só este mês, a moeda americana acumula alta de quase 7%. O dólar caminha para fechar a sexta semana consecutiva de valorização no Brasil. Nesta sexta-feira o BC fará a terceira oferta de US$ 550 milhões, mas o foco principal do mercado vai ser o discurso de Powell, a partir das 11h (de Brasília). "Todos os olhares estão voltados para o evento", observa o analista do banco espanhol BBVA, Vitor Sun Zou. Ele ressalta que a queda dos índices dos gerentes de compra (PMI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos ligou novo sinal de alerta nos investidores sobre a desaceleração da economia mundial.

O PMI industrial dos EUA teve em agosto o menor nível em 119 meses. Os estrategistas do JPMorgan esperam que Powell ressalte em seu discurso os riscos de piora da atividade econômica e sinalize que a "porta está aberta" para cortes adicionais de juros nos Estados Unidos. Eles, porém, não esperam que o dirigente forneça sinalizações "explícitas" sobre o que o Fed fará na reunião de política monetária de setembro, mesmo com o presidente Donald Trump pedindo corte maior de juros. A expectativa pelo discurso de Powell aumentou após alguns dirigentes regionais do Fed, como o da Filadélfia, Patrick Harker, afirmarem esta semana que não veem necessidade de corte de juros agora. Para operadores de câmbio, uma sinalização mais clara de corte de juros nos EUA pode levar a moeda a cair abaixo de R$ 4.

Bovespa 

A euforia que levou o Índice Bovespa a subir 2% na quarta-feira se dissipou nesta quinta e o indicador devolveu mais da metade do que havia conquistado e por pouco não perdeu novamente o patamar dos 100 mil pontos. A queda foi atribuída a uma correção de exageros após leitura menos otimista do plano de privatizações do governo, em um dia em que a cautela predominou no mercado internacional. Ao final dos negócios, o indicador marcou 100.011,28 pontos, na mínima do dia, em baixa de 1,18%. Entre as blue chips que fazem parte do "kit privatização", somente as da Eletrobras tiveram fôlego para dar continuidade ao movimento de alta gerado pelo anúncio de 17 empresas a serem privatizadas. Isso porque o secretário especial de Desestatização, Desenvolvimento e Mercados, Salim Mattar, disse que a estatal do setor elétrico deve ser privatizada mais cedo que as demais porque precisa de dinheiro. Ao final do pregão, Eletrobras ON e PNB subiram 4,07% e 4,02%.

Já papéis como Banco do Brasil e Petrobras oscilaram em terreno negativo, não mais sob o efeito das especulações que inflaram os papéis na quarta-feira. "A alta de quarta-feira foi um movimento exagerado, apoiado em informações sobre privatizações que não vão acontecer da noite para o dia. Hoje, sem a euforia da véspera, faltaram notícias capazes de sustentar o mercado", disse Ariovaldo Ferreira, gerente da mesa de renda variável da H.Commcor. Ele conta que foi grande a expectativa pelo discurso de sexta do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell. Apesar de as quedas não terem anulado totalmente os ganhos da quarta-feira, Ferreira ressalta as perdas acumuladas nas últimas semanas seguem bastante relevantes, revelando a cautela do investidor com o cenário de guerra comercial e desaceleração econômica no mundo. "Em um cenário de incertezas, muitos investidores acreditam que a fala de Powell trará algum componente novo para o mercado estimar os novos passos da política monetária dos EUA. Mas ele não tem obrigação de fazer isso", disse o profissional.

Para Pedro Coelho Afonso, economista da PCA Capital, o cenário internacional é cada vez mais preocupante e não havia como o investidor doméstico sustentar o Ibovespa em alta, "com sinais de euforia diante de uma notícia vazia", no caso das privatizações. "Ninguém tem ideia do que vai acontecer no cenário externo, que é cada vez mais preocupante, com risco de quadro recessivo. É grande a chance de o investidor estrangeiro procurar cada vez mais os mercados mais consolidados", disse.

Taxas de juros

Os juros futuros não passaram incólumes ao movimento de aversão ao risco que influenciou o mercado global nesta quinta-feira e as taxas fecharam em alta, mas bastante moderada em relação ao grau de perdas dos demais ativos domésticos. Novos dados apontando para desaceleração da economia global em meio a falas de dirigentes do Federal Reserve trouxeram estresse ao câmbio, com o real sendo destaque de perdas entre 34 moedas, o que acabou trazendo algum contágio para a curva. No entanto, a percepção de que o viés da piora da economia mundial é desinflacionário para o Brasil limitou o movimento. A exceção foram as taxas de curtíssimo prazo, que encerraram estáveis, refletindo a manutenção do cenário de queda da Selic nos próximos meses, reforçado pelo IPCA-15 de agosto.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou em 5,38%, de 5,358% quarta no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 6,341% para 6,37%. O DI para janeiro de 2025 terminou com taxa de 6,88%, ante ajuste anterior a 6,851%. Na etapa estendida, porém, as taxas já estavam mais pressionadas, dado que o dólar renovou máximas no fim do dia, para encerrar em R$ 4,0780 (+1,19%). Juliano Ferreira Neto, estrategista da BGC Liquidez, afirmou que o mercado esteve muito atrelado ao dólar, mas com pouca oscilação das taxas. "Fundamentalmente, o mercado de juros está muito atrelado a questões internas, mas faltam informações novas do lado político e, do lado da inflação, não há dúvidas de que o cenário é favorável a cortes da Selic. Do mundo político, não tem nada de novo e quem acaba fazendo preço é o externo", disse.

No exterior, indicadores da economia americana - o PMI industrial teve o pior resultado em quase dez anos - e declarações de dirigentes das regionais do Federal Reserve trouxeram um mau agouro nesta véspera do tão esperado discurso do presidente da instituição, Jerome Powell, sexta no Simpósio de Jackson Hole. "Temos vários dados sugerindo desaceleração mundial e um Fed ainda não disposto a aumentar o estímulo, ao menos não na velocidade que o mercado gostaria", disse o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno. Para ele, os dados dos EUA ainda vão dar sinais mais consistentes de fraqueza e o Fed deve começar a atuar.

Nesse cenário, os investidores se desfazem de ativos de risco, vendendo moedas de economias emergentes, mas, como afirma Ferreira Neto, da BGC, "o solavanco do dólar não pega na inflação". O quadro muito tranquilo para os preços foi endossado pelo IPCA-15 de agosto, de 0,08%, no piso das estimativas dos analistas. O dado teve impacto direto nos juros apenas no início dos negócios, embora, ao longo do dia, tenha ajudado a proteger as taxas de contratos que vencem até janeiro de 2020 da contaminação da pressão no câmbio. O índice ficou ligeiramente abaixo da taxa registrada em julho (0,09%) e em 12 meses encerrados em agosto acumulou alta de 3,22%, mais de 1 ponto abaixo da meta de inflação para este ano, que é de 4,25%.