Dólar volta a subir e Ibovespa fecha em queda com piora em NY
capa

Dólar volta a subir e Ibovespa fecha em queda com piora em NY

Moeda fechou a R$ 4,16 com questão comercial entre EUA e China voltando ao destaque

Por
AE

Ibovespa perdeu fôlego ao longo da tarde e fechou aos 104.339,16 pontos

publicidade

A expectativa de que a taxa Selic siga em trajetória cadente e encerre o ano abaixo de 5%, desencadeada pelo comunicado do Copom quarta à noite, embalou os negócios no mercado acionário nesta quinta-feira. Após certa euforia pela manhã, quando tocou momentaneamente os 106 mil pontos, o Ibovespa perdeu fôlego ao longo da tarde e - com uma piora acentuada na reta final do pregão - fechou em queda, abaixo dos 105 mil pontos.

Operadores atribuíram a degringolada do índice no fim do dia à virada das bolsas americanas para o terreno negativo, em meio às preocupações com a guerra comercial sino-americana, e a um forte movimento de realização de lucros dos papéis dos bancos. Após registrar máxima de 106.001,35 pontos na primeira etapa de negócios, aproximando-se do recorde histórico intraday (106.659 pontos, em 10 de julho), o Ibovespa fechou em queda de 0,18%, aos 104.339,16 pontos.

"O Ibovespa encontra dificuldades para romper os 105 mil pontos. Sempre que chega nesse patamar, o índice retorna", diz Thiago Salomão, analista de Investimentos da Rico, ressaltando que a queda das ações dos bancos, que têm peso preponderante na carteira teórica, acabou ofuscando a alta dos papéis mais ligados à atividade doméstica. "Os bancos até abriram em alta, então o efeito da queda à tarde sobre o índice foi maior. O setor financeiro tinha subido bastante recentemente, e, com esse juro mais baixo, parece que há uma migração para outros setores."

Quarta à noite, o Copom cortou a taxa Selic em 0,50 ponto porcentual, para 5,50% ao ano, como esperado pelo mercado. Houve surpresa com as projeções de inflação benignas e a sinalização clara de que há mais espaço para novas reduções dos juros. Pesquisa relâmpago do Projeções Broadcast mostra que a maioria do mercado passou a trabalhar com taxa Selic entre 4,5% e 4,75% no fim do atual ciclo de afrouxamento monetário.

Não por caso, as estrelas do dia na bolsa foram os setores de consumo e construção civil, cujos resultados estão mais ligados à expansão do crédito e ao ritmo de atividade. Entre os índices setoriais da B3, o Índice Imobiliário subiu 2,40%, e o Índice de Consumo, 0,89%. Na contramão, o Índice Financeiro fechou em queda de 1,09%.

Sócio e gestor de renda variável da RJI Gestão & Investimentos, Rafael Weber observa que a piora do Ibovespa não pode ser atribuída ao ambiente externo, já que não houve deterioração tão aguda das bolsas americanas. Weber atribui a falta de força do índice para se sustentar acima dos 105 mil pontos à ausência de sinais mais claro de recuperação da atividade econômica.

"O mercado já precificou a questão da reforma da Previdência e os juros menores, o que sustenta o Ibovespa no nível atual. Para o índice buscar os 115 mil, 120 mil, ou até mesmo uma nível menor, de 110 mil, os números da atividade precisam melhorar", afirma o gestor da RJI, ressaltando que os investidores se mostram receosos, após as sucessivas frustrações das estimativas de crescimento. "A possibilidade de juros bem menores deveria ter trazido mais otimismo, mas ninguém quer se adiantar e comprar antes de ver os resultados na economia."

Dólar

A decisão de Banco Central de reduzir a taxa Selic e sinalizar novos cortes pela frente, o que poderia levar os juros básicos da economia para abaixo de 5%, fez o real ser a moeda com pior desempenho ante a divisa americana nesta quinta-feira, considerando uma cesta de 34 moedas. O corte das taxas em ritmo mais intenso que em outros países deixa o Brasil menos atrativo para investidores internacionais, por isso o desempenho pior aqui na comparação com outros emergentes, com operadores relatando saída de capital externo. Para pressionar ainda mais o câmbio, a questão comercial entre Estados Unidos e China voltou a ganhar destaque, com notícias de disposição da Casa Branca de adotar mais tarifas sobre produtos chineses. No mercado à vista, o dólar fechou em alta de 1,44%, a R$ 4,1628, o maior nível desde o dia 3 deste mês (R$ 4,1790).

O dólar começou o dia em alta e seguiu assim por todo o pregão. Profissionais do mercado de câmbio ressaltam que já se esperava que os cortes de juros fossem prosseguir pela frente, mas não a ponto de levar a Selic muito abaixo de 5%. Assim, foi preciso fazer um rearranjo das carteiras e das apostas dos investidores, pressionando as cotações.

Uma das evidências é que, no mercado futuro, o volume de negócios chegou a US$ 20 bilhões, um dos mais altos dos últimos dias. No mercado à vista, foi a US$ 1,6 bilhão, também elevado.

"O Banco Central deixou claro que vai ter novas quedas e o mercado não tinha precificado esse movimento", ressalta o gerente de Tesouraria do Travelex Bank, Felipe Pellegrini. Ao longo do dia, bancos nacionais e estrangeiros cortaram a previsão da taxa de juros e algumas instituições, como o francês BNP Paribas, veem a taxa básica caindo para 4,25%. Pellegrini não vê o dólar caindo para abaixo de R$ 4,00 no curto prazo e acredita que, passado esse primeiro dia após o anúncio do BC, o dólar deve ficar entre R$ 4,05 e R$ 4,10.

"É aquela premissa: juros para baixo, dólar para cima", ressalta o responsável pela área de câmbio da Terra Investimentos, Vanei Nagem. "Como o Brasil perdeu competitividade para o investidor, estava claro que o dólar ia subir, o problema é que a moeda já estava em nível alto", disse ele, ressaltando que agora nesse nível mais valorizado o investidor pode começar a testar se o BC vai entrar no câmbio ofertando dólar à vista.

Além dos juros domésticos, a imprensa chinesa destacou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está pronto para subir o tom da guerra comercial com a China, podendo aumentar as tarifas americanas sobre bens chineses para 50% ou 100%, caso não haja um acordo comercial em breve. Com isso, o dólar subiu entre os emergentes, com destaque para África do Sul (+0,85%), Turquia (+0,63%) e Colômbia (+0,39%). Já entre divisas fortes, o dólar caiu.

Taxas de juros

O mercado de juros não conseguiu sustentar até o fechamento dos negócios nesta quinta-feira o ímpeto vendedor visto no período da manhã. À tarde, as taxas reduziram significativamente a queda, especialmente na última hora de negócios, sendo que as da ponta longa fecharam bem perto dos ajustes anteriores. Uma combinação entre realização de lucros intraday e piora do câmbio estancou a reação frenética, para alguns exagerada, ao comunicado do Copom, que levou algumas taxas a recuar em torno de 30 pontos-base considerando as mínimas do dia. A postura mais cautelosa, no entanto, não interferiu na percepção sobre o rumo da Selic nos próximos meses, com apostas majoritárias de nova queda da Selic em 0,5 ponto porcentual no Copom de outubro e taxa abaixo de 5% no fim do ano.

As taxas curtas também desaceleraram a queda, mas em magnitude bem menor do que a ponta longa. O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020, que melhor reflete as apostas para a política monetária nos próximos meses, fechou na máxima de 5,115%, de 5,175% na quarta no ajuste. O DI para janeiro de 2021, que passou a manhã abaixo dos 5%, voltou a ficar acima desse nível à tarde, fechando na máxima de 5,030% (5,218% no ajuste). Os contratos de médio e longo prazos também fecharam nas máximas. A taxa do DI para janeiro de 2023 encerrou em 6,19%, de 6,27%, e a do DI para janeiro de 2025 terminou em 6,81%, de 6,831%.

Paulo Nepomuceno, estrategista de renda fixa da Coinvalores, afirma que o mercado pesou a mão de manhã na reação ao Copom e refez as contas à tarde, provocando um "pull back" das taxas. "Toda vez que tem um Copom diferente, introduzindo mudança na política monetária, é natural haver algum exagero", disse.

Foi consenso entre os analistas que o destaque do comunicado foram as mudanças nas projeções de inflação do Copom, que provocaram uma bateria de revisões para baixo nas estimativas para a Selic, mesmo antes da divulgação da ata da reunião, o que é incomum. Nas contas do mercado, a partir dos números do BC, a inflação de 2020, horizonte para o qual a política monetária está voltada no momento, só volta à meta de 4,0% se a Selic cair abaixo de 5%.

Pesquisa do Projeções Broadcast com 42 instituições mostra que as expectativas de Selic para o fim do ciclo de afrouxamento estão entre 4,5% e 4,75%. Para o Copom de outubro, 41 delas esperam Selic a 5%. Apenas o Bradesco BBI prevê redução de 0,25 ponto porcentual.

Na curva de juros, segundo cálculos do Haitong Banco de Investimentos, a precificação da Selic para o Copom de outubro nesta tarde era de queda de 43 pontos-base, ou seja, entre 70% a 75% de possibilidade de redução de 0,5 ponto porcentual. Para o fim de 2019, a curva aponta Selic a 4,90%, de pouco acima de 5% no fim desta quarta.