Em dia de forte oscilação, dólar termina cotado em R$ 5,51

Em dia de forte oscilação, dólar termina cotado em R$ 5,51

Bolsa fechou em alta de 1,33%, com foco nos EUA e no BC

AE

Real registrou o melhor desempenho ante a moeda norte-americana nesta quinta

publicidade

O dólar teve dia de forte oscilação nesta quinta-feira, batendo em R$ 5,62 pela manhã e caindo para R$ 5,49 na parte da tarde. Após subir por quatro pregões consecutivos, acumulando alta de quase 7%, hoje a moeda americana devolveu parte dos ganhos, com o real registrando o melhor desempenho ante a moeda norte-americana, considerando uma cesta de 34 divisas mais líquidas. O Banco Central melhorou projeções de crescimento para o Brasil, mas o quadro de cautela persiste no exterior e hoje Goldman Sachs e Morgan Stanley alertaram para chance de menor expansão pela frente nos EUA e Europa.

Dirigentes do Federal Reserve também não esconderam suas preocupações com a atividade econômica americana em uma série de pronunciamentos na tarde desta quinta-feira, mas o dia foi de maior apetite por risco nos Estados Unidos. Mas a sinalização dos democratas de um novo pacote fiscal ajudou a estimular a busca por risco e a enfraquecer o dólar no mercado internacional. "Investidores estão desesperados por boas notícias", disse a diretora de moedas da gestora BK Asset Management, Kathy Lien, citando que o secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, também mostrou disposição hoje em negociar um pacote fiscal.

Para o diretor da Mirae Asset, Pablo Spyer, as conversas para retomar as negociações de um pacote de estímulos nos EUA ajudaram a animar os investidores. Com isso, houve relatos de ingresso de capital externo, em busca de oportunidades na B3. No encerramento dos negócios, o dólar à vista terminou em queda de 1,37%, cotado em R$ 5,5106. No mercado futuro, o dólar com liquidação em outubro era negociado em baixa de 1,53%, em R$ 5,5060 às 17h, com volume de US$ 16 bilhões.

Moedas que caíram forte recentemente, como a libra, o dólar canadense, o euro e o peso mexicano hoje tiveram dia de recuperação. O dólar caiu na maioria dos emergentes. No Brasil, traders nas mesas de câmbio destacam que o dólar bateu em R$ 5,62, mas não se sustentou nesta patamar em meio à expectativa que o Banco Central pudesse intervir no mercado. "Isso segurou a alta, levando a um desmonte de posições", disse um gestor de recursos. Ao mesmo tempo, o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, dava entrevista à imprensa para comentar o relatório trimestral de inflação, mas não falou sobre o câmbio, se limitando a dizer que o BC está tranquilo em relação ao impacto do dólar para as projeções de inflação.

Apesar da queda de hoje, os estrategistas do Bank of America estão mais "cautelosos" com o real. A expectativa é de mais volatilidade pela frente, principalmente por conta do aumento do risco fiscal. Uma das dúvidas é se o teto de gastos será mantido em 2021. O BofA acredita que sim, mas até lá haverá muito barulho em Brasília, aumentando a pressão no mercado de câmbio. Nesse ambiente, a previsão do banco americano é de dólar encerrando 2020 em R$ 5,40.

Ibovespa

A recuperação que chegou a se acentuar à tarde nos mercados de Nova Iorque, combinada aqui à leitura positiva sobre o relatório trimestral de inflação (RTI), divulgado nesta manhã pelo BC, resultou em alta acima de 2% para o Ibovespa nos melhores momentos desta quinta-feira, então mais do que revertendo a perda de 1,60% observada ontem. No exterior, a atenção seguiu concentrada, como no dia anterior, em declarações de autoridades do Federal Reserve - mas desta vez a resposta inicial dos investidores foi positiva. Ao final, em paralelo à perda de fôlego em Wall Street, o índice de referência da B3 limitou os ganhos a 1,33%, aos 97.012,07 pontos, após ter parecido estar a caminho do melhor nível das últimas quatro sessões.

"O mercado continua muito sensível a notícias, boas ou ruins, que chegam dos EUA às vésperas da eleição, especialmente quanto à possibilidade de se definir um novo pacote de estímulos fiscais, com outra grande dúvida ainda pendente: a de como ficará a relação com a China. A tendência é de que a volatilidade persista", diz Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos. Ele observa também que o relatório de inflação foi um evento positivo para a sessão, na medida em que a percepção do BC sobre o recente repique nos preços não implica mudança na orientação de curto prazo para os juros. "Mantemos nossa visão de que a Selic permanecerá em 2% até o fim do próximo ano", acrescenta o analista da Ativa.

Na B3, o giro financeiro totalizou R$ 24,6 bilhões e, com o desempenho de hoje, o Ibovespa limita as perdas da semana a 1,30% e as do mês a 2,37% - no ano, cede 16,11%. O movimento de hoje foi definido por observadores do mercado como um ajuste técnico, que se traduziu a princípio em busca de ações com desconto, como as do setor bancário (Itaú +2,45%, Santander +2,73% e Bradesco PN +1,90%), no grupo dos mais atrasados no ano. Entre as ações do setor financeiro, destaque para B3, em avanço de 5,51%, o segundo mais alto da carteira Ibovespa no fechamento - superado apenas por IRB (+12,38%), e à frente de Qualicorp (+4,96%) e PetroRio (+4,73%).

No lado oposto, CSN cedeu 1,80%, seguida por Localiza (-1,66%), Minerva (-1,54%) e Suzano (-1,35%). Entre as commodities, Vale ON, que havia sido destaque do dia anterior, quando foi a terceira maior alta da carteira Ibovespa, fechou hoje em baixa de 0,74%, enquanto Petrobras PN e ON subiram hoje, respectivamente, 0,84% e 0,72%. Ainda que moderadamente, as siderúrgicas estiveram na face negativa do dia, com destaque, além de CSN (que acumula ganho de 12,12% no ano), para Usiminas (-1,05% na sessão, e em alta de 10,40% em 2020).

"A recuperação da economia nos EUA - perceptível hoje nos dados sobre vendas de moradias novas - é particularmente importante para a Gerdau, pela sua exposição ao país. Para a CSN, há grande expectativa quanto à venda de sua parte de mineração que, no segundo trimestre, respondeu por mais de 50% do Ebitda da empresa. E Usiminas é um caso interessante de recuperação de preço, pela exposição que tem à economia doméstica", diz Arbetman.

Na B3, a perspectiva do BC para inflação e juros, expressa no relatório trimestral de inflação, proporcionou alívio aos investidores, em sessão na qual o dólar mostrou alguma acomodação após o sprint recente - hoje, o spot fechou em baixa de 1,37%, a R$ 5,5106, enquanto a curva de juros desinclinou, ambos reagindo aos sinais do BC no RTI, combinado também à melhora do apetite externo por ativos de risco, que levou a moeda americana a acentuar as perdas frente a emergentes.

À tarde, declarações da presidente da Câmara de Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, de que os democratas estão prontos a retomar as negociações com os republicanos sobre estímulos fiscais, deram algum alento ao apetite dos investidores, após o dia anterior ter sido marcado por diversos alertas de autoridades do Fed - entre as quais o presidente, Jerome Powell - sobre a necessidade de nova rodada de estímulos, tendo o BC americano já cumprido sua parte.

Juros

Os juros futuros fecharam a quinta-feira em queda, com aumento do apetite ao risco no exterior e o leilão de títulos do Tesouro, que, em termos de risco, foi menor do que os anteriores, com concentração de volume em papéis curtos. Também reagiram à mensagem do Banco Central via Relatório Trimestral de Inflação (RTI) e entrevistas dos representantes da autoridade monetária, de otimismo sobre a evolução da atividade e tranquilidade sobre a inflação e, ao mesmo tempo, que estão atentos aos riscos fiscais.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou em 2,83%, de 2,973% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 caiu de 4,455% para 4,25%. O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa de 6,21%, de 6,434% ontem. A do DI para janeiro de 2027 passou de 7,404% para 7,19%.

No fim dos negócios, as taxas mais do que devolviam o avanço de ontem, encerrando nos patamares mais baixos em uma semana. O alívio começou logo cedo com os eventos internos e na segunda etapa o exterior foi determinante para acelerar o fechamento da curva, especialmente após a presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, afirmar que as conversas entre os democratas e a Casa Branca em torno de um novo pacote de estímulos serão retomadas em breve. O dólar, que pela manhã chegou a tocar os R$ 5,62, renovou mínimas abaixo de R$ 5,50 à tarde.

Em termos de risco, o DV01 do leilão de prefixados hoje ficou em US$ 533 milhões, ante cerca de US$ 548 milhões na semana passada, segundo a CM Capital Markets.

A agenda do dia também teve papel importante para a trajetória da curva nesta quinta-feira. "O RTI com boxes técnicos e a visão sobre o cenário a partir das entrevistas, com o BC tentando passar para o mercado que esta tranquilo com riscos de curto prazo e que não deve subir juros tão cedo, ajudaram bastante", disse o diretor de Gestão de Renda Fixa e Multimercados da Quantitas Asset, Rogério Braga.

O RTI trouxe revisão para cima na estimativa de PIB em 2020 (-6,4% para -5,0%) e projeção de alta de 3,4% em 2021. Para o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, o crescimento do Brasil está bastante acima da média de emergentes, tanto em 2020 como nas expectativas para o próximo ano. Sobre a inflação, avaliou que autoridade monetária tem posição de "absoluta tranquilidade" e disse não acreditar que a alta nos preços de alimentos neste ano possa impactar a inflação em 2021.

Ainda, destacou que os juros altos na parte longa da curva denotam prêmio fiscal com uma preocupação em relação à política de saída dos estímulos dados durante a pandemia. "Não é um fenômeno de expectativas de inflação", explicou. Reforçou também que a autoridade monetária não está disposta a correr riscos inflacionários oriundos dos riscos fiscais. Ele lembrou que a manutenção do atual regime fiscal é um dos condicionantes do "forward guidance" do BC.


publicidade

publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895