Ibovespa cai 1,93% com incerteza política local e cautela EUA-China
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Ibovespa cai 1,93% com incerteza política local e cautela EUA-China

Dólar fechou em R$ 4,10 com possível atraso na votação da Previdência e questão comercial EUA-China

Por
AE

Moeda americana fechou segunda-feira em alta de 1,19%

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Em baixa desde a abertura dos negócios, o Ibovespa aprofundou o ritmo de queda ao longo da tarde e encerrou o pregão desta segunda-feira não apenas abaixo dos 101 mil pontos como no menor nível desde 3 de setembro. Segundo operadores, o mercado acionário doméstico azedou em meio à percepção de piora do ambiente político local, diante da possibilidade de atraso na votação da reforma da Previdência, e à queda firme das bolsas americanas no fim da sessão, às vésperas da retomada de negociações comerciais entre China e Estados Unidos.

Com mínima aos 100.541,89 pontos, registrada na última meia hora de negócios, o principal índice da B3 fechou aos 100.572,77 pontos, em queda de 1,93% - o que levou as perdas acumuladas em outubro a 3,98%. A sessão foi de liquidez reduzida, R$ 13,4 bilhões. Entre as 68 ações da carteira teórica do Ibovespa, apenas o papel da RD fechou em alta (+0,62%).

Para analistas ouvidos pelo Broadcast, a eventual postergação do calendário de votação da reforma da Previdência no Senado, em meio a disputas para divisão dos recursos do leilão do pré-sal, evidencia a fragilidade da coordenação política do governo e joga dúvidas sobre o sucesso da agenda de reformas.

"A desidratação da reforma da Previdência já deixou um gostinho amargo no mercado. A possibilidade de atraso no segundo turno com essa questão da barganha em torno da cessão onerosa estressou ainda mais", afirma Rodrigo Franchini, estrategista da Monte Bravo.

Líder do PSL no Senado, Major Olímpio afirmou que talvez a Casa consiga votar a reforma em segundo turno apenas a partir do dia 22 de outubro. Comitiva de parlamentares - que inclui o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e o da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) - viaja dia 10 para Roma para participação da cerimônia de canonização da Irmã Dulce. O retorno ao Brasil está marcado para dia 14, véspera da data acordada para votação no Senado. Teme-se que a tramitação da reforma possa se prolongar ainda mais caso os parlamentares não cheguem a um acordo sobre a divisão dos recursos do megaleilão do pré-sal.

Por enquanto, não há sinal de mudança no volume de dinheiro do leilão do pré-sal que será destinado aos cofres da Petrobras (R$ 33,6 bilhões). Mas o embate em torno da partilha é citado como um dos fatores que prejudicam as ações da estatal, que operaram em queda mesmo nos momentos em que o petróleo subia lá fora. Com o preço da commodity virando para o lado negativo, as ações da Petrobras aprofundaram a queda - PN recuou 1,28% e ON, 1,56%.

As maiores quedas dentro da carteira teórica do índice foram das ações da Eletrobras, com perdas de 7,90% do papel ON. Os papéis foram abalados pela notícia de que o governo desistiu de injetar recursos na companhia para torná-la mais atraente aos investidores - o que pode prejudicar o processo de privatização.

"Com a economia estagnada, o mercado acaba olhando para a política. Essa briga entre Câmara e Senado pela divisão da cessão onerosa, além do fogo amigo dentro do governo, aumentou o nível de estresse", afirma Luiz Roberto Monteiro, operador sênior da corretora Renascença, ressaltando que o investidor estrangeiro continua a retirar recursos da B3. Em apenas três pregões, em outubro os investimentos estrangeiros já registram um saldo negativo de R$ 4,381 bilhões.

Dólar

O mercado de câmbio teve um dia mais tenso nesta segunda-feira, acompanhando o movimento de aversão ao risco no mercado internacional. Após cair na semana passada no ritmo mais forte desde janeiro, o dólar voltou a subir e fechou em R$ 4,1045, em alta de 1,19%, a maior variação porcentual desde 19 de setembro. O foco de tensão novamente foi a questão comercial entre Estados Unidos e China, a dias de o primeiro escalão das duas maiores economias do mundo se reunir em Washington, na quinta-feira. O noticiário doméstico não ajudou, com declarações de que a votação da Previdência pode atrasar ainda mais no Senado em meio à disputa pelos recursos da cessão onerosa.

O dólar subiu de forma generalizada perante moedas de emergentes nesta segunda-feira, com destaque para a Turquia, onde disparou mais de 2,4%, e ajudou a pressionar ainda mais outras divisas destes mercados. A Casa Branca acusa os turcos de prepararem uma invasão do norte da Síria e Donald Trump ameaçou "destruir totalmente" a economia turca se o país fizer "algo fora dos limites".

"As moedas de emergentes apanharam, com grandes investidores se prendendo ao dólar", ressalta o chefe da mesa de câmbio da Frente Corretora, Fabrizio Velloni. Ele observa que persistem dúvidas sobre as reais intenções da China e dos EUA em buscar um acordo comercial, o que ajuda a aumentar o clima de incerteza. Para complicar, indicadores recentes mostram que tanto a economia chinesa como a americana estão perdendo fôlego.

Para o economista e presidente da Veedha Investimentos, Rodrigo Tonon Marcatti, a piora das economias dos dois países vai pressionar os governos a buscar um acordo, mas as incertezas persistem.

"Todos os olhos na reunião do dia 10", observa a analista para a Ásia do banco suíço Julius Baer, Kelly Chia, ao comentar sobre a reunião entre Pequim e Washington. Investidores devem esperar volatilidade nos mercados e informações desencontradas dos resultados do encontro, como as que circularam nos últimos dias, dando conta de que a China quer buscar apenas um acordo parcial, escreve ela em relatório. No final da tarde, Trump afirmou que um acordo comercial com a China "é boa possibilidade".

No noticiário doméstico, uma comitiva do Congresso, incluindo os presidentes das duas casas, viaja esta semana para o Vaticano, o que aumentou na mesas de operação a sensação de mais atrasos na votação da reforma da Previdência, em segundo turno no Senado. "Talvez consigamos votar Previdência em segundo turno no Senado no dia 22", disse o líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP). Além da viagem para a Itália, ainda persistem as discussões sobre a partilha dos recursos do leilão da cessão onerosa, o que pode atrasar a votação, ressalta um gestor de recursos.

Taxas de juros

O movimento de queda moderada dos juros visto pela manhã desta segunda-feira não se sustentou e já a partir do começo da tarde as taxas zeraram o recuo e passaram a exibir viés de alta, renovando máximas. A inversão se deu em linha com o aumento da pressão no câmbio, num dia ruim para moedas emergentes. Sem respaldo de volume - a liquidez ficou bem abaixo do padrão recente -, a recomposição de prêmios foi vista como um ajuste após as taxas terem encerrado a semana passada nos pisos históricos.

Na medida em que o dólar se fortalecia ao longo da segunda etapa dos negócios, voltando aos R$ 4,10, as taxas deixaram para trás marcas emblemáticas, caso da do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020, que pela manhã furou os 5%, chegando até a mínima de 4,996%. Este é o principal contrato a refletir as apostas para as reuniões do Copom em 2019. Já a do DI para janeiro de 2023, que nas últimas duas sessões esteve abaixo dos 6%, voltou a este patamar. A taxa do DI janeiro de 2021 encerrou a 4,88%, de 4,858% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2023 terminou na máxima de 6,02%, de 5,971% no ajuste anterior. A do DI para janeiro de 2025 subiu de 6,581% para 6,64%.

"Todos os emergentes estão apanhando hoje (segunda) e o destaque é a Turquia", afirmou o gestor de renda fixa da Absolute Investimentos, Mauricio Patini, reforçando que o desempenho da moeda brasileira não destoa dos demais. Ele lembra ainda que o real foi uma das moedas emergentes que mais se valorizaram na semana passada e, com isso, havia espaço para alguma realização.

A agenda local e externa não teve destaques, o que deixou o mercado mais sensível a fatos políticos e geopolíticos. O presidente Donald Trump ameaçou "destruir a economia" da Turquia, caso o país faça algo "fora dos limites". No domingo, a Casa Branca informou que a Turquia prepara uma invasão do norte da Síria. Também não ajuda o clima que antecede o encontro de membros de alto escalão da China e Estados Unidos nesta semana para discutir o acordo comercial. Há informações de que o país asiático estaria disposto a fazer um acordo parcial, o que em tese contraria o desejo de Trump de fechar um acordo completo. No fim da tarde, Trump afirmou o acordo comercial com a China é uma 'boa possibilidade'.

Internamente, o mercado monitora atrasos no cronograma de votação da reforma da Previdência no Senado e indefinição sobre a partilha dos recursos da cessão onerosa.

Ainda, nesta tarde, as mesas de operação especulavam sobre uma possível saída do ministro da Economia Paulo Guedes em função da falta de tração da economia. Vale lembrar que no fim de semana o presidente Jair Bolsonaro reforçou seu apoio ao ministro em entrevista ao 'Estado'. "A economi