Ibovespa cai 2,90% com temor de piora da economia global e Previdência
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Ibovespa cai 2,90% com temor de piora da economia global e Previdência

Dólar fecha em queda, a R$ 4,13, com ajuda da declaração de Alcolumbre e aprovação da reforma da Previdência

Por
AE

Índice bovespa encerrou o dia aos 101.031,44 pontos

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O mercado acionário doméstico azedou nesta quarta-feira em meio ao aumento dos temores de desaceleração mais forte da economia global e às preocupações em torno da tramitação da reforma da Previdência no Senado. Com perdas generalizadas entre setores e queda de 3% a 5% das principais blue chips, como Petrobras, Vale e ações do setor financeiro, o Ibovespa fechou em queda de 2,90%, aos 101.031,44 pontos. A desvalorização acumulada nos dois primeiros pregões de outubro atingiu 3,55% - praticamente anulando a alta de setembro, de 3,57%.

O tombo do Ibovespa poderia ter sido pior não fosse a aprovação da reforma da Previdência em primeiro turno no Senado com a rejeição de cinco propostas de alterações - os chamados destaques - que poderiam reduzir a potência fiscal em até R$ 283 bilhões. No fim, a economia esperada com a versão aprovada em primeiro turno no Senado ficou em R$ 800,3 bilhões, mais de R$ 100 bilhões menor do que o previsto no texto que saiu da Câmara.

O susto com o processo de votação da proposta em primeiro turno deixou o mercado ressabiado, ao mostrar que questões paralelas - como o caso da distribuição de recursos da cessão onerosa entre Estados - podem influenciar na tramitação da reforma. A previsão inicial era de que a votação ocorresse ainda na primeira quinzena de outubro, mas não se descarta o risco de um atraso.

Boa parte do mau humor que tomou conta do mercado doméstico pela manhã foi atribuído à derrota do governo no Senado. Após aprovarem no fim da noite o texto-base da reforma com folga - 56 votos a favor e 19 contrários - os senadores se voltaram a propostas de alterações. Foi aprovado destaque para retirar as modificações na regra do abono salarial, o que encolheu a economia esperada em R$ 76,4 bilhões.

Sócio-gestor da RJI Gestão & Investimentos, Rafael Weber observa que uma reforma da Previdência com potência fiscal cerca de R$ 800 bilhões ficou dentro das estimativas iniciais dos economistas, que já trabalhavam com uma desidratação da proposta original do governo. "Essa economia menor já estava no preço. A escorregada na votação acabou acendendo um sinal de alerta e trazendo um componente a mais de volatilidade", afirma Weber. "Apesar disso, o que pesou com mais força hoje foi o sentimento de aversão ao risco no exterior, que contaminou o mercado doméstico".

De fato, o dia foi de perdas pesadas das bolsas americanas, em meio a renovadas preocupações com a possibilidade de que os EUA caminhem para uma recessão. O índice das condições empresariais em Nova York caiu de 50,3 em agosto para 42,8 em setembro, o menor nível em 40 meses. Dados do emprego do setor privado nos EUA em setembro até que positivos - geração de 135 mil vagas, ante estimativa de 125 mil -, mas vieram acompanhados de revisão para baixo do resultado de agosto, de 195 mil para 157 mil. Na Europa, pesaram redução de projeções de crescimento para a economia alemã, a principal da zona do euro, e o imbróglio envolvendo a saída do Reino Unido da União Europeia.

Diante do risco de uma desaceleração mais forte da economia global, cresce a expectativa de que China e Estados Unidos, que têm agendada reunião bilateral para 10 de outubro, em Washington, cheguem a um entendimento parcial que interrompa a escalada da guerra comercial. Uma recessão nos Estados Unidos poderia ser fatal para os planos de reeleição do presidente americano, Donald Trump, que já está às voltas com um processo de impeachment. "O mercado ainda está muito preso a essa questão da guerra comercial, porque isso está afetando a economia americana e global. Se a aversão ao risco não ceder lá fora, o Ibovespa vai continuar sem fôlego", afirma um experiente operador de uma corretora local.

Diferentemente dos pregões anteriores, desta vez o volume negociado foi relevante, de R$ 17 bilhões, apesar da ausência de negócios nas bolsas chinesas, por conta de feriado. Entre as blue chips, o maior tombo foi do papel ON da Vale, cujo tombo superou 5%.

Dólar

O real teve nesta quarta-feira o melhor desempenho ante o dólar considerando uma cesta de 34 moedas. A aprovação da reforma da Previdência, com o governo conseguindo derrubar os destaques hoje que pudessem reduzir ainda mais o impacto fiscal das medidas, fez a divisa americana bater mínimas. Também agradou a declaração do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, de que vai tentar manter o calendário estabelecido para votação do texto em segundo turno, embora admita atraso de uma semana. No mercado à vista, o dólar encerrou em queda de 0,68%, a R$ 4,1337, o menor valor em dez dias.

Apesar da desidratação da reforma da Previdência no Senado, com economia fiscal caindo para R$ 800 bilhões, profissionais do mercado ressaltam que o número está acima do que se esperava quando o texto chegou ao Congresso. Naquele período, as estimativas do mercado variavam de impacto fiscal entre R$ 500 bilhões a R$ 700 bilhões. Há ainda a expectativa de que a PEC paralela, que deve incluir Estados e municípios nas medidas, aumente o impacto fiscal.

O economista e presidente da Veedha Investimentos, Rodrigo Tonon Marcatti, ressalta que, mesmo com a desidratação o resultado foi positivo e se considerar a PEC paralela, a economia fiscal pode voltar para a casa do R$ 1 trilhão. O executivo ressalta que a tramitação do texto no Senado causou estresse, porque o mercado esperava que a aprovação fosse ser rápida e sem perda fiscal, mas na prática houve atrasos e desidratação.

Após a divulgação da aprovação final, o dólar foi a mínima do dia, a R$ 4,13069 (-0,75%). A moeda americana vinha caindo aqui desde o início da tarde, acompanhando o movimento do dólar no mercado internacional e monitorando as discussões da Previdência. No exterior, o dólar recuou tanto ante divisas fortes como emergentes, ainda embalado por temores de uma piora mais acentuada que o esperado da economia mundial. Pela manhã, subiu a R$ 4,1825 em meio ao temor de nova desidratação na Previdência ao longo da quarta-feira, o que acabou não ocorrendo.

Um dos eventos que podem mexer com o mercado internacional de moedas é a reunião no dia 10 entre Washington e Pequim para discutir um acordo comercial. O executivo da Veedha Investimentos ressalta que os dois países vão chegar ao encontro pressionados a buscar um acordo, por conta da piora recente de indicadores de atividade e da intenção de Donald Trump de tentar a reeleição.

Taxas de juros

O mercado de juros operou sob a influência de forças opostas durante toda a quarta-feira, o que limitou as oscilações, com as taxas ora perto dos ajustes ora mostrando viés de alta. De um lado, esteve a piora da percepção de risco fiscal causada pela tramitação mais difícil do que a esperada da reforma da Previdência no Senado, que foi aprovada, mas com perda de economia em dez anos de R$ 76,4 bilhões. De outro, o dólar e os juros dos Treasuries em baixa pressionando a curva para baixo, apesar do clima de aversão ao risco imposto pelo aumento das preocupações com a desaceleração da economia global.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 terminou a sessão regular em 4,950%, de 4,959% na terça no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 passou de 6,041% para 6,05%. O DI para janeiro de 2025 encerrou em 6,67%, de 6,641%.

"Se o câmbio não estivesse tão bem comportado, o DI teria certamente estressado mais", afirma a gestora de renda fixa da Mongeral Aegon Investimentos, Patricia Pereira. Segundo ela, pela manhã o clima era mais tenso, com o mercado ainda digerindo a derrota do governo na terça que trouxe incertezas sobre se os demais destaques seriam mesmo votados nesta quarta para a conclusão do processo. "De manhã, estava com 'cara' de que os senadores iam deixar para outro dia, com muita confusão sobre os destaques. Ao longo do dia, os ânimos foram sendo pacificados", avaliou.

O Senado concluiu a votação da reforma pouco antes das 16h, derrubando mudanças que poderiam desidratar a proposta em até R$ 283 bilhões, segundo cálculos do governo obtidos pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. Todas foram rejeitadas ou até mesmo retiradas pelos autores antes da votação. De todo modo, o potencial de economia vem caindo a cada instância. No texto aprovado pela Câmara, o valor era de R$ 933 bilhões, caiu para R$ 870 bilhões na proposta aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e, após o primeiro turno no plenário do Senado o potencial de economia está em R$ 800,3 bilhões.
Pelo cronograma acertado com os líderes, a votação em segundo turno seria feita em 10 de outubro. Mas o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), afirmou que, sem quebra de interstício, a votação do 2º turno poderá ser adiada em uma semana.

No exterior, o ambiente é de pessimismo sobre a economia global, após mais um dado frustrante da economia americana, incertezas com o Brexit, e a decisão da Organização Mundial do Comércio (OMC) de que os EUA podem retaliar a União Europeia em US$ 7,496 bilhões anualmente por subsídios dados pelo bloco à Airbus. Esse quadro trouxe nova onda de queda para o rendimento dos Treasuries e pressão generalizada para o dólar, reforçando as apostas de mais afrouxamento monetário por parte do Federal Reserve.