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Ibovespa renova recorde e avança 3,09% na semana

Dólar volta a superar R$ 3,80

Por
AE

Ibovespa termina dia aos 104.089,47 pontos

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O otimismo com o andamento da reforma da Previdência se sobrepôs ao ambiente externo negativo e garantiu mais um dia de ganhos do Ibovespa. Afora uma pequena realização de lucros pela manhã, quando acompanhou as bolsas americanas, o Ibovespa passou o restante do dia em terreno positivo e encerrou os negócios em alta de 0,44%, aos 104.089,47 pontos, registrando novo recorde. Depois de subir 4,06% no mês passado, o principal índice da B3 acumulou alta de 3,09% nos cinco primeiros pregões de julho.

Declarações do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), nesta sexta-feira reforçaram a crença dos investidores de que é possível aprovar a reforma da Previdência no plenário da Câmara antes do recesso parlamentar, em 18 de julho. Em entrevista a um programa de rádio, Maia disse que vai começar a trabalhar pela apreciação do texto em plenário a partir de amanhã. Segundo ele, para que não haja risco de derrota, é preciso ter um quórum de 495 a 500 deputados na sessão de votação.

Em uma contagem prévia, Maia espera um placar de mais de 340 votos favoráveis à reforma, o que traz uma margem de segurança para a votação, já que são necessários 308 votos para aprovar uma emenda constitucional. Maia alertou, porém, que o abrandamento da regra de aposentadoria para policiais que servem à União é um dos que tem o maior risco de gerar polêmicas na votação da reforma da Previdência no plenário da Casa, e, inclusive, de causar mais desidratações à proposta.

A analista-chefe da Coinvalores, Sandra Peres, observa que, na ausência de indicadores domésticos, o Ibovespa foi sustentado hoje pela expectativa de sucesso da reforma da Previdência. Ela lembra que comentários de ontem de Guedes dando conta de que haverá uma série de medidas para reanimar a economia após a aprovação da reforma animaram os investidores. A ideia de avanço das reformas, estímulos e privatização abriria espaço para retomada da economia", diz Sandra, ressaltando que ainda há possibilidade de redução da taxa Selic, o que reforça o apelo da renda variável.

No exterior, os principais índices acionários recuaram em meio à redução das apostas em corte mais agudo de juros nos Estados Unidos, após o relatório de emprego mostrar geração de 224 mil vagas em junho, bem superior ao previsto (160 mil). Para a estrategista-chefe da Coinvalores, mesmo que o Federal Reserve seja menos incisivo, a manutenção da perspectiva de corte de juros nos EUA também é um ponto positivo para o mercado local, já que aumenta a atratividade dos emergentes. "Houve uma realização pontual da bolsa pela manhã, com o payroll forte, mas o otimismo prevaleceu", diz Sandra. "Por enquanto, a alta do Ibovespa é sustentada pelo investidor local. Mas com a aprovação da Previdência, podemos ver entrada de recursos externos."

Além do setor externo representar um entrave para uma valorização maior do Ibovespa, contribuiu para reduzir os ganhos a queda de 2,54% da ações da Vale, em razão da baixa de 6% do preço do minério de ferro no porto de Qingdao, na China. Entre as outras blue chips, Petrobras ON caiu 0,43%, ao passo que o papel PN da petroleira ficou perto da estabilidade (+0,04%). Já as ações do setor bancário, à exceção do Banco do Brasil, fecharam em alta moderada.

Dólar

O dólar voltou a operar nesta sexta acima do nível de R$ 3,80, acompanhando o fortalecimento da moeda americana no exterior e a prudência dos investidores antes do feriado prolongado em São Paulo, que optaram por buscar proteção na moeda americana. A divisa subiu 0,49% hoje, mas acumulou queda de 0,58% na semana, encerrando o dia em R$ 3,8181. As atenções agora se voltam para a possível votação da reforma da Previdência no plenário da Câmara, na semana que vem.

O dólar subiu fortemente hoje ante moedas de países desenvolvidos, como o euro e a libra, em ritmo até maior que a valorização perante emergentes. A razão é que o relatório mensal de emprego dos Estados Unidos veio melhor que o esperado e reduziu a aposta de corte mais intenso de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Aqui, na máxima, o dólar à vista foi a R$ 3,83, mas a alta perdeu um pouco de fôlego na parte da tarde.

Para o analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, após o dólar cair ontem para os menores níveis desde março, era esperado um ajuste hoje no câmbio. O relatório de emprego nos EUA contribuiu para este movimento ao fortalecer o dólar no exterior. Além disso, o feriado em São Paulo, principal praça para negócios no câmbio do Brasil, enquanto o exterior funciona normalmente, deixa os agentes mais cautelosos. "Muitos preferem não participar do mercado, outros participam, mas tomam menos risco", diz ele.

Sobre a Previdência, Arbetman observa que o mercado aposta na aprovação no plenário da Câmara antes do recesso parlamentar. Caso a votação fique para agosto, o mercado pode ficar estressado, ressalta ele. Mas, mesmo com o avanço, o espaço para queda da moeda americana não é muito grande, avalia o analista da Ativa Investimentos, ressaltando que o exterior tem ambiente desafiador: desaceleração nas economias da zona do euro, na China e ainda dúvidas sobre a relação comercial entre EUA e Pequim. Os analistas da consultoria MCM também destacam que enquanto o mercado doméstico pode abrir "mais algum espaço" para valorização do real nos próximos meses, o exterior parece apontar na direção oposta.

O Bradesco manteve hoje a projeção do dólar para o final do ano em R$ 3,80, mas vê chance de "certa apreciação nos próximos meses". Em relatório, o banco destaca que a consolidação de um cenário de maior liquidez internacional, por conta da perspectiva de cortes de juros nos países desenvolvidos, permitiu que o real apresentasse uma "trajetória alinhada com o movimento médio de seus pares". Do lado doméstico, houve "avanço relevante" na tramitação da Previdência. "Como o crescimento segue frustrando e os juros estão em queda, o potencial de apreciação é limitado no curto prazo."

Juros

A curva de juros preservou durante a tarde o desenho com o qual tinha encerrado a manhã, com a ponta curta em queda moderada e um viés de alta nos vencimentos longos. As taxas curtas e intermediárias continuaram reverberando o aumento das apostas na queda da Selic a partir de julho, após aprovada a reforma da Previdência na comissão especial da Câmara ontem. As demais encerraram o dia entre a estabilidade e viés de alta, influenciadas pelo fortalecimento do dólar e impulso no rendimento dos Treasuries, por sua vez, amparados na leitura do relatório de emprego norte-americano.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020, que capta as apostas para a Selic em 2019, encerrou em 5,835%, de 5,871% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2021 caiu de 5,718% para 5,670%. A taxa do DI para janeiro de 2023 ficou estável em 6,48% e a do DI para janeiro de 2025 subiu de 6,980% para 7,03%.

Segundo a Quantitas Asset, os contratos futuros fecharam o dia precificando 25,2 pontos-base de queda para Selic na reunião do Copom deste mês, ante 22 pontos ontem. Com isso, enquanto as apostas de manutenção da taxa nos atuais 6,50% foram apagadas, a curva já mostra chance marginal (1%) de corte de 0,50 ponto na Selic e 99% de possibilidade de redução de 0,25 ponto.

"Está muito 'na cara' que a Selic vai para baixo, e, desta vez, de forma racional. Dado que o cronograma da reforma, ainda que com um pouco de atraso, está sendo relativamente cumprido e que as expectativas de inflação estão abaixo da meta, já temos as condições para cortar", afirmou o estrategista de renda fixa da Coinvalores, Paulo Nepomuceno.

A aprovação da reforma na comissão especial aumenta as chances de o Copom abrir o ciclo de afrouxamento da Selic já na reunião deste mês, especialmente se concretizado o desejo do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de aprovar a proposta em plenário na próxima semana. "Vamos começar a trabalhar amanhã para aprovar a reforma na semana que vem", disse hoje, em entrevista ao programa Pânico, da rádio Jovem Pan. Para o texto passar na Câmara, são necessários 380 votos, em dois turnos de votação.

Em documentos recentes, o Copom afirmou que "o avanço concreto" nas reformas é fundamental para consolidação do cenário benigno para a inflação. Em entrevista exclusiva ao Broadcast publicada nesta sexta-feira, o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, avaliou a aprovação da reforma na comissão especial como "a primeira vitória". Ele procurou, no entanto, não vincular a reforma a qualquer decisão sobre a Selic. "Não há relação mecânica entre reformas e juros", disse Campos Neto, para depois acrescentar: "Nosso cenário é de aprovação da reforma da Previdência".