Real se descola do exterior com BC e alívio na política e dólar cai a R$ 5,58

Real se descola do exterior com BC e alívio na política e dólar cai a R$ 5,58

Ibovespa fechou o dia com ganho de 2,10%, aos 83.027,09, com a reação positiva do mercado aos sinais de entendimento entre União e Estado

AE

A moeda norte-americana já acumula desvalorização de 4,4% na semana

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Ao contrário de outras sessões desta semana, onde predominou a influência externa, o noticiário doméstico teve nesta quinta-feira peso determinante para a forte queda do dólar, que fechou no menor nível desde o último dia 4. Primeiro foi o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, declarando que pode atuar mais no câmbio, se necessário. Depois, foi a reunião entre governadores, Jair Bolsonaro e o Congresso, mostrando clima mais pacificador e chegando a um consenso sobre não reajustar salários de servidores, como vinha defendendo o ministro da Economia Paulo Guedes.

Neste ambiente, o real foi nesta quinta a moeda com melhor desempenho ante o dólar em uma cesta de 34 divisas internacionais, em dia marcado por cautela no exterior.

A moeda americana subiu ante divisas fortes e alguns emergentes, em meio à deterioração das relações da Casa Branca com Pequim. No mercado doméstico, o dólar à vista fechou em R$ 5,5818, em queda de 1,88%. A moeda norte-americana já acumula desvalorização de 4,4% na semana.

O operador e economista da Advanced Corretora de Câmbio, Alessandro Faganello, ressalta que o principal catalisador do mercado nesta quinta foi a promessa de Bolsonaro de sancionar em breve o projeto de socorro aos Estados, de R$ 60 bilhões.

Ele também destaca declarações do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), ao afirmar que o encontro mostra "união" entre os Poderes, e foi um pedido para que todos "deem as mãos e levantem uma bandeira branca". "O cenário político deu um alívio hoje", avalia Faganello, citando ainda que Campos Neto também contribuiu. "Ele mostrou que não vai permitir distorção nos preços do dólar."

Na quarta, Campos Neto disse que, se for necessário, o BC pode elevar as atuações no mercado de câmbio, o que foi lido como indicativo de que a pressão cambial não necessariamente é um empecilho para mais afrouxamento da política monetária.

O gestor da HIX Capital, Gustavo Heilberg, avalia que o quadro ainda é de incertezas com o cenário, pois há muitas perguntas sem respostas claras, mas há espaço para otimismo. Ele mencionou que o Congresso, na hora que precisa, aprova medidas importantes e que o Brasil entrou na crise com nível de reservas cambiais bastante forte, disse em live nesta quinta da Genial Investimentos.

O receio com o cenário pode ser visto pelo fato de o real ser a pior moeda de emergente este ano e o Ibovespa o índice com pior desempenho. Mas Heilberg disse acreditar que tudo vai se resolver, embora setores como o de shopping centers possam demorar três anos, ou mesmo mais tempo, para voltar aos níveis pré-pandemia.

Bovespa

A reação positiva do mercado aos sinais de entendimento entre União e Estados para manter sob controle os salários do funcionalismo até o fim de 2021 manteve o Ibovespa descolado do dia negativo no exterior, com a relativa moderação da preocupação com a questão fiscal levando o índice de referência da B3 a testar a linha de 83 mil pontos, atingindo assim o maior nível intradia desde 29 de abril (então aos 83.598,01) e se aproximando também do nível de encerramento daquela sessão (83.170,80 pontos). Entre as blue chips, as ações de bancos puxaram a recuperação, em dia misto para os papéis de Vale e Petrobras.

Assim, o Ibovespa conseguiu encadear a segunda alta, fechando o dia com ganho de 2,10%, aos 83.027,09 pontos, oscilando entre mínima de 81.317,11 e máxima de 83.308,96 pontos em sessão na qual o giro financeiro totalizou R$ 27,6 bilhões. Na semana, o índice avança agora 7,05% e, no mês, 3,13%, cedendo até aqui 28,21% no ano.

"Se vai ficar, é outra história, mas para o dia serviu bem esta reunião do governo com Estados. Aliviou a percepção de risco político, que vinha se refletindo especialmente no dólar e no empinamento dos juros. Com o mercado negativo lá fora, foi 100% isso o que prevaleceu hoje", diz Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset.

Nesta quinta-feira, o dólar spot fechou em baixa de 1,88%, a R$ 5,5818, acumulando até aqui perdas de 4,40% na semana, mas ainda avançando 2,63% no mês.

"Essa boa melhora no ambiente político, que atrasou nossa recuperação frente aos mercados globais, também ajudou na queda do dólar, que caminha para a pior semana do ano", aponta Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora, destacando também sinalização feita pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, na quarta, de que o "o Bacen pode ampliar sua intervenção no câmbio, se necessário", e o compromisso do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, com o prosseguimento das reformas, no "pós-pandemia".

"Como o real ainda possui um 'gap' de cerca de 10% frente a seus pares e, segundo o presidente do BC, 'existe espaço amplo de venda de reservas ainda', esse ajuste pode prosseguir nos próximos dias se, de fato, o ambiente político não azedar", acrescenta Ribeiro.

Com novo ajuste negativo da moeda americana nesta quinta-feira, as ações de frigoríficos e de papel e celulose, setores exportadores que ampliam a geração de receitas em real quando o dólar se fortalece, estiveram entre as maiores perdedoras dentre os componentes da carteira Ibovespa, com Suzano em baixa de 4,40%, Marfrig, de 4,21%, Klabin, de 3,93%, e Minerva, de 3,65%, - perdas superadas apenas pela de 7,36% registrada por IRB na sessão. Na ponta positiva do Ibovespa, CCR subiu 11,65%, seguida por Cyrela (+11,00%) e Ecorodovias (+9,83%).

Entre os bancos, destaque para alta de 7,06% em Banco do Brasil ON, com Bradesco, Itaú e Santander registrando ganhos acima de 5% na sessão, chegando a 6,13% para Bradesco ON.

Destaque negativo entre as blue chips para Vale ON, em baixa de 2,61% no fechamento, com desempenho misto para as ações da Petrobras (ON +0,35% e PN -0,57%), em dia de novo avanço, embora mais moderado do que o do dia anterior, para o Brent (+0,87%, a US$ 36,06 por barril para julho).

Juros

Os juros futuros fecharam a quinta-feira em queda firme. Alguns fatores contribuíram para o fechamento da curva sendo o principal deles a leitura da reunião do presidente Jair Bolsonaro com chefes do Legislativo e governadores, vista como um sinal de trégua nas tensões políticas que envolvem a ajuda do governo federal aos Estados. O dia favorável a moedas de economias emergentes, com o real liderando os ganhos, e declarações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, na quarta, também responderam pela queima de prêmios.

No fim da sessão regular, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2021 tinha nova mínima histórica, a 2,485%, ante 2,543% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2022 encerrou com taxa de 3,36%, de 3,421% no ajuste anterior. A taxa do DI para janeiro de 2027 caiu de 7,613% para 7,43%. Na ponta curta, os níveis mais baixos do dia foram atingidos em função da aceleração da queda do dólar.

Nos DIs longos, as mínimas vieram com declarações positivas do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), sobre a reunião com Bolsonaro e governadores, que ele classificou como "boa". No Twitter, o deputado afirmou que o evento foi uma importante sinalização de união. "Essa unidade vai criar, com certeza, todas as condições para que, em um segundo momento, possamos tratar a pós-pandemia, a nossa recuperação econômica e a recuperação dos empregos dos brasileiros", escreveu.

Maia deu ainda uma sinalização de esperança para as reformas, ao dizer que a Câmara tentará retomar a comissão mista do texto tributário.

Na reunião da manhã, Bolsonaro pediu a governadores que apoiem o veto que pretende fazer ao projeto de socorro a Estados e municípios para proibir que o funcionalismo tenha reajustes até o fim de 2021. Com isso, Bolsonaro deve sancionar "entre hoje e amanhã" (quinta ou sexta-feira) o projeto, que chega a R$ 60 bilhões.

"Havia uma preocupação bem relevante sobre a sintonia ou a falta de sintonia entre Bolsonaro e governadores. A reunião mostrou que todos estão caminhando no mesmo sentido, o que é importante neste momento e gera uma boa sinalização em termos fiscais", disse o analista da Guide Investimentos, Henrique Esteter.


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