Afastamentos atingem pelo menos 1,44 mil profissionais da saúde no RS
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Afastamentos atingem pelo menos 1,44 mil profissionais da saúde no RS

Levantamento feito pelo Correio do Povo aponta mais do dobro em relação à semana passada

Por
Jessica Hübler

Entre os profissionais estão médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e demais funcionários dos setores administrativos das unidades de saúde

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Pelo menos 1,44 mil profissionais da saúde estão afastados dos postos de trabalho no Rio Grande do Sul por conta da pandemia do novo coronavírus. Uma profissional da área faleceu na noite de terça-feira. As causas dos afastamentos são diversas, entre elas a suspeita ou a confirmação da doença, além dos afastamentos preventivos de funcionários que pertencem a grupos de risco ou que apresentaram sintomas gripais.

Conforme o primeiro levantamento feito pelo Correio do Povo, mais do que duplicaram da semana passada para cá, quando eram 700 profissionais afastados no Estado. Até o momento, uma profissional da saúde faleceu.

Entre os profissionais estão médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e demais funcionários dos setores administrativos das unidades de saúde. Até o momento, entre as 19 cidades pesquisadas, com as cidades de Novo Hamburgo, São Leopoldo e Cachoeirinha, não incluídas no último levantamento, o número chega a um total de 1.449 afastamentos computados.

Porto Alegre é a que apresenta o maior número de afastamentos, e também o maior número de confirmados do novo coronavírus, conforme levantamento da Secretaria Estadual da Saúde (SES), chegando a pelo menos 260 casos. Na rede municipal, de acordo com a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), são pelo menos 45 afastamentos. No Grupo Hospitalar Conceição (GHC) são 422 afastados, dos 9,1 mil no total, entre eles 279 por questões de saúde, 75 gestantes e 69 funcionários acima de 75 anos. No Hospital de Clínicas, por enquanto, 56 funcionários foram afastados, destes, 27 aguardam o resultado do exame da Covid-19 e 29, que tiveram resultado positivo, aguardam o término do período de transmissão do vírus, de 14 dias, para retornar ao trabalho. No total, são 524 profissionais.

Conforme o diretor administrativo e financeiro do GHC, Cláudio Oliveira, os 280 afastados apresentaram sintomas gripais. Além destes, outros 187 que estavam afastados anteriormente, já retornaram ao trabalho, pois não se tratava da Covid-19. “Se são suspeitos da Covid-19 eu não tenho essa informação. Dois funcionários foram casos confirmados, um médico, de 62 anos, que está em isolamento domiciliar, não houve necessidade de internação”, explicou. O segundo caso confirmado no GHC foi da técnica de enfermagem Mara Rúbia, de 44 anos, que faleceu na noite de terça-feira.

Com relação ao número de afastamentos, Oliveira destacou que o GHC solicitou ao Ministério da Economia a permissão para contratações temporárias durante este período. “Mandamos um estudo dizendo que, nesse ritmo, não teríamos como suportar passar por essa pandemia, porque nós podemos ter mais servidores afastados, ou que precisarão se afastar”, enfatizou. Segundo ele, conforme o estudo realizado pela área técnica do GHC, o reforço precisaria chegar a 1,5 mil profissionais. “Pedimos um aval do Ministério da Saúde e a portaria já foi publicada no Diário Oficial da União, autorizando o GHC a contratar 1,5 mil temporários até 28 de fevereiro de 2021”, declarou. Até o momento não há previsão de quando estas contratações devem ocorrer.

O presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Marcelo Matias, afirmou que a entidade está fazendo campanha para que médicos que tenham fatores de risco sejam afastados. “Aqueles que estão na faixa etária mais alta, ou que tenham as principais doenças vinculadas a risco, principalmente doenças cardíacas, associadas à maior mortalidade, mas também diabetes e outras, pedimos que esses profissionais sejam afastados preventivamente, justamente para evitar o aumento de mortalidade que aconteceu em outros países”, destacou.

Segundo ele, o Simers sempre lutou pela questão do Equipamento de Proteção Individual (EPI). “Temos participado de todos os debates, inclusive orientando os próprios médicos, mas também precisamos proteger todas as equipes de saúde, por isso estamos defendendo a saída dos profissionais que sejam dos grupos de risco, pelo menos da linha de frente, para que não tenhamos uma mortalidade aumentada na categoria médica”, afirmou.

Depois de Porto Alegre, no segundo lugar com maior número de afastamentos na área da Saúde está Canoas, com 127 e, em terceiro lugar, Novo Hamburgo, com 120 profissionais afastados. As duas cidades estão em sexto e quarto lugares, respectivamente, no número de casos confirmados da Covid-19 no Estado, conforme levantamento da SES.

A segunda cidade com maior número de casos confirmados é Caxias do Sul, na Serra, com 31 casos. Em Caxias, pelo menos 110 profissionais da saúde foram afastados. E, em terceiro, está Bagé, na região da Campanha. Por lá, conforme o secretário da Saúde do município, Mário Kalil, pelo menos 50 profissionais foram afastados, a maioria por questões preventivas. No município de São Leopoldo, no Vale do Sinos, conforme a Secretaria da Saúde da cidade, 117 profissionais estão afastados, sendo 53 da rede municipal (entre eles seis médicos, um enfermeiro e 11 técnicos em enfermagem). Os outros 64 profissionais afastados são da Fundação Hospital Centenário, sendo destes uma médica, duas enfermeiras e nove técnicos em enfermagem. “Estes profissionais estão afastados com atestados em sua maioria por sintomas gripais, alguns com coletas realizadas e enviadas ao Laboratório Central de Saúde Pública do Rio Grande do Sul (LACEN/RS), que tem demorado em torno de sete dias o retorno. Encontram-se em isolamento domiciliar, nenhum com confirmação para Covid-19”, reforçou a Secretaria da Saúde de São Leopoldo.

Confira a lista de afastamentos dos profissionais de saúde em cada cidade:

Porto Alegre - 524
Canoas - 127
Novo Hamburgo - 120
São Leopoldo - 117
Caxias do Sul - 110
Sapucaia do Sul - 98
Santa Cruz do Sul - 85
Bagé - 50
Esteio - 47
Alvorada - 34
Bento Gonçalves - 34
Pelotas - 28
Cachoeirinha- 22
Viamão - 16
Farroupilha - 12
Rio Grande - 8
Canguçu - 7
Gravataí - 7
Guaíba- 3

TOTAL: 1.449

Técnica de enfermagem é a primeira vítima fatal da Covid-19 entre profissionais da saúde no Estado

A despedida foi marcada por uma salva de palmas registrada em um vídeo pelos colegas do Hospital Nossa Senhora da Conceição. Aos 44 anos, a técnica de enfermagem Mara Rúbia Silva Cáceres, que residia no município de Alvorada e trabalhava na Capital, foi a primeira vítima fatal da Covid-19 entre profissionais da Saúde no Rio Grande do Sul. Ainda na noite de terça-feira, quando a morte foi confirmada pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC), o marido de Mara, Juan Cáceres, fez uma publicação em uma rede social falando sobre o falecimento da esposa.

“É com muito pesar que comunico a todos que essa noite perdi minha companheira que me acompanhou 21 anos entre alegrias e tristezas, mas sempre ao meu lado. Sempre iluminando meus dias com seu sorriso e companheirismo. Mais que do tudo minha amiga em todas as horas. Que Deus ilumine tua chegada aos céus”, consta na publicação de Juan. Além do marido, diversas colegas da Enfermagem também publicaram homenagens para Mara, sempre destacando a alegria da colega e a disposição dela para ajudar a todos.

A enteada de Mara, Bruna Cáceres, também escreveu uma publicação para se despedir da madrasta. “É com imensa tristeza que anuncio o falecimento da minha Madrasta! Faleceu fazendo o que amava, salvando vidas, trabalhava no Grupo Hospitalar Conceição, desde domingo passado estava internada com Covid-19, infelizmente não resistiu, essa é a prova que esse vírus não é brincadeira, se cuidem, cuidem de quem vocês amam”.

Uma das colegas de Mara, Susi Costa, que também trabalha no Conceição, publicou na rede social que nunca menosprezou o vírus. “Pelo contrário, sou ativa no combate e cuidado, mas também não imaginei que o próximo rosto perdido, seria tão próximo a mim. Uma guria batalhadora, que cuidava do pai doente, que sempre nos estendia a mão e nos fazia rir. Não menospreze, não se descuide, se puder fique em casa. Cuide de quem tu ama, lave as mãos, não sabemos nada do amanhã. Mara, que tua passagem seja em paz. Que a fé que tu tinhas em vida, te conduza com leveza, a dor acabou minha amiga. Obrigada por ter dividido momentos da tua vida conosco”, foi o relato de Susi em homenagem à colega e amiga.