Após decreto sobre Distanciamento, indefinição em Porto Alegre gera repercussões

Após decreto sobre Distanciamento, indefinição em Porto Alegre gera repercussões

Prefeito Nelson Marchezan consultou médicos e especialistas sobre impactos de uma futura reabertura econômica ao sistema de saúde

Por
Jessica Hübler

Protesto ocorreu em Porto Alegre


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Após anúncio por parte do governo do Estado de flexibilizações nas regiões com bandeira vermelha pelo modelo do Distanciamento Controlado, na noite de terça-feira, o prefeito Nelson Marchezan Júnior, o secretário municipal de Saúde, Pablo Stürmer, e o adjunto, Natan Katz, consultaram médicos e especialistas de Porto Alegre sobre impactos de uma futura reabertura econômica ao sistema de saúde. O debate também abordou protocolos que deveriam ser adotados em uma eventual flexibilização.

De acordo com o diretor médico da Santa Casa, Antonio Kalil, que também participou do encontro, o prefeito queria aprofundar as informações sobre os hospitais e as ocupações dos leitos de UTI. “Foi mais uma discussão, algumas ideias foram trocadas, mais nesse sentido de que todos estamos realmente preocupados com a necessidade de que haja uma abertura, o próprio prefeito vê essa questão como necessária nesse momento, então o objetivo era realmente ver como se fazer isso de forma segura”, declarou.

Conforme Kalil, não houve nenhuma definição. “Foi realmente uma reunião de discussão e de ideias, o que acho muito positivo, porque mostra que o prefeito está interessado em saber as opiniões dos hospitais. E nós todos estamos muito preocupados, porque além da parte da saúde, existe a necessidade de um retorno sob o ponto de vista econômico”, ressaltou, lembrando que no entendimento dele há uma tentativa da Prefeitura de construção das liberações com base nas estruturas de saúde e também na manutenção das atividades econômicas da cidade. “Acho que agora é hora de aparar as questões estratégicas para se colocar em prática”, acrescentou.

Apesar dos debates, ainda não há nenhuma alteração nas medidas restritivas da Capital. Na tarde de hoje houve apreciação de um pedido de impeachment na Câmara de Vereadores e, por conta disso, a Prefeitura informou que não haveria nenhum anúnio. Além disso, em nota, destacou que “segue construindo uma alternativa de liberação das atividades. Certamente teremos novidades ainda nesta semana. Ele (o prefeito) lamenta ainda, com a cidade precisando tanto de trabalho árduo da gestão pública, precisar perder tempo com questões que em nada contribuem para os reais e graves problemas da cidade no enfrentamento da pandemia”.

CDL vê discussão avançando

A CDL Porto Alegre enfatizou que o decreto estadual 55.413, que altera os protocolos de bandeira vermelha para restaurantes e comércio não essencial não atende totalmente aos anseios do setor, “mas é visto como uma sinalização positiva do governo do Estado e uma melhoria importante”. Além disso, a entidade reiterou que está em constante contato com o prefeito Nelson Marchezan Júnior, “em um diálogo que está avançando para a retomada das atividades comerciais”.

Por conta das sinalizações, tanto do governo do Estado, quanto da Prefeitura, a CDL Porto Alegre disse “demonstrar confiança para a resolução das tratativas” até esta quinta-feira. “Ainda acredita que, para Porto Alegre, o mínimo necessário seja igualar as normativas municipais ao novo decreto estadual, para que a cidade passe a operar nestas condições”, reforçou a CDL, em nota.

O presidente do Sindicato de Hospedagem e Alimentação de Porto Alegre e Região (Sindha), Henry Chmelnitsky, declarou que os horários sugeridos no decreto estadual, “são extremamente confusos, ainda que tentemos interpretar como um avanço”. “Eles não criam uma sistemática adequada para o consumidor. É extremamente restrito. E, independente disso, é o prefeito que determina se as regras da Capital serão mais duras do que a flexibilização estadual. Por isso, seguimos buscando uma retomada gradual, responsável e sustentável. Pedindo a liberação de segunda a segunda, das 11h às 20h, a partir de sábado. Já declaramos e reiteramos: estamos no limite. A situação é insustentável", definiu.

Retomada ampla pode acelerar casos e óbitos, afirma epidemiologista

O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e médico epidemiologista, Ricardo Kuchenbecker, que também participou do encontro com o prefeito, afirmou que o contexto da pandemia segue se apresentando através de uma curva ascendente, com crescimento de casos e de óbitos. Além disso, Kuchenbecker declarou que chegamos muito próximo da utilização plena da capacidade de leitos das UTIs na Região Metropolitana de Porto Alegre. "A retomada das atividades econômicas em Porto Alegre traz uma mobilidade urbana de vários municípios, ou seja, esta mobilidade pode ser justamente uma oportunidade de maior transmissão do vírus, em função do transporte, das aglomerações, a nossa preocupação foi manifestar ao prefeito que estamos em um momento de curva ascendente e que Porto Alegre não é uma ilha", disse.

Na opinião de Kuchenbecker, uma retomada ampla e direta, sem algum processo mais gradativo, poderia ter consequências no aumento de casos, óbitos e internações. Para ele, seria necessário realizar uma liberação lenta e gradual, que permitisse um entendimento da transmissão por parte dos gestores. "Os empresários têm suas razões em pressionar para que retomemos imediatamente, mas também precisamos pensar que os diferentes setores da economia podem ter um papel importante em um insumo necessário para uma reabertura: que é o acesso à informação", reiterou. 

Segundo Kuchenbecker, o acesso aos testes não pode ficar apenas sob responsabilidade do poder público. "Também pode ficar sob responsabilidade dos empresários. no sentido de esses trabalhadores que vêm nessa mobilidade populacional e intermunicipal, esses trabalhadores também precisariam ser acessados do ponto de vista das informações. Uma estratégia de testar precocemente essas pessoas, identificar os contatos e fazer aquilo que representa uma atividade que precisava ser feita: mapear as cadeias de transmissão do vírus", declarou. 

Além disso, Kuchenbecker reforçou que não pode haver oposição entre a retomada das atividades econômicas e as medidas de saúde pública. "O grande desafio para a retomada é o acesso à informação de como o vírus vai se comportar. Para isso tenho certeza que os empresários podem fazer a sua parte. O acesso a essas informações é a condição mais importante para a retomada", acrescentou.