Atraso na segunda dose não garante eficácia das vacinas, alertam especialistas

Atraso na segunda dose não garante eficácia das vacinas, alertam especialistas

Preocupação com comprometimento da imunização iniciou após escassez da Coronavac no país

Gabriel Guedes

Preocupação com comprometimento da imunização iniciou após escassez da Coronavac no país

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O Instituto Butantan recomenda que a segunda dose da Coronavac deve ser aplicada em um período entre 14 e 28 dias após a primeira. Já quem recebeu a dose da vacina AstraZeneca/Oxford (produzida no Brasil pela Fiocruz), o período recomendado é de 12 semanas. Mas o Rio Grande do Sul precisa de pelo menos 263.870 doses da Coronavac para poder realizar a segunda aplicação e concluir o ciclo de imunização daqueles que já receberam apenas primeira, o que tem feito os gaúchos esperarem além do prazo estipulado pelos laboratórios. Situação tem preocupado especialistas, que são categóricos ao afirmar não existir garantia da eficácia de proteção proposta pelas vacinas após o atraso na aplicação da segunda dose.

“Estamos verificando uma falta de planejamento estratégico preocupante. A comunidade científica séria, não comprometida com nenhum aspecto político, está bastante preocupada com o atraso na aplicação na aplicação das segundas doses da Coronavac. A realidade é que não há nenhum estudo que tenha avaliado o efeito de uma segunda dose após o 28º dia da primeira dose”, alerta o epidemiologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Paulo Petry. “A resposta é bem objetiva e bem clara para esta situação: não existe estudo mostrando a resposta vacinal em diferentes intervalos”, ratifica o infectologista do Hospital Moinhos de Vento, Paulo Gewehr.

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De acordo com Petry, todos os estudos que foram realizados e deram origem a todas estas vacinas, são ensaios clínicos randomizados. “São estudos muito bem feitos, muito bem conduzidos e são estudos padrão ouro da investigação epidemiológica e que atestaram a segurança e a eficácia da vacina. Mas atestaram a eficácia com a aplicação da segunda dose no máximo em 28 dias após a primeira dose.

E ao contrário do que afirma a Secretaria Estadual de Saúde (SES) e a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Porto Alegre, nós não sabemos o que pode acontecer com estas segundas doses aplicadas em atraso. É um salto no escuro”, critica o epidemiologista. “Qualquer estudo vacinal, para ser efetuado na população, ele é feito dentro de um protocolo. E o protocolo que foi estudado para a Coronavac são duas doses e o intervalo máximo, é 28 dias. Fora disso, a gente não sabe quanto tempo pode esperar”, lembra Cristina Bonorino, imunologista, professora titular da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e membro dos comitês cientifico e clínico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI).

Cristina explica que quando alguém recebe uma imunização, a primeira dose, o que acontece com a resposta imune, é que ela expande as células específicas para combater o vírus por uma semana e depois elas começam a reduzir. “Neste período em que elas começam a cair, é quando a gente dá o reforço, que a gente chama de segunda dose. Com este reforço, aquelas células que estavam morrendo, recebem um sinal de sobrevivência e aí elas conseguem sobreviver e se diferenciar, no que a gente chama de memória. Elas se mantêm por muitos anos. Se tu não receber o reforço, é que as células não recebem sinal de sobrevivência e morrem. E aí tem que começar tudo de novo o protocolo de vacinação”, detalha a professora.

Petry afirma que o cenário com os atrasos é de incerteza. “Existe até a possibilidade, sendo otimista, que incremente e melhore a resposta imunológica das pessoas. Mas está é uma visão romântica e otimista. Na verdade, nós não sabemos o que vai acontecer. E se acontecer que a vacina perca sua eficácia, as vacinas vacinadas em atraso elas estarão sendo prejudicadas e iludidas”, critica.

Gewehr acredita que o atraso pode prejudicar em outro aspecto. “Temos que fazer um esforço grande para que este desabastecimento não ocorra novamente. Porque começa a gerar incerteza, dúvidas e até esquecimento, refletindo na adesão vacinal, por procurarem a segunda dose na data indicada e acabarem achando que não é mais importante ao ver que não tem disponível”, frisa.

O Ministério da Saúde diz que é "improvável que intervalos aumentados entre as doses das vacinas ocasionem a redução na eficácia do esquema vacinal". Mas ressalta que os atrasos devem ser evitados "uma vez que não se pode assegurar a devida proteção do indivíduo até a administração da segunda dose". 

A SES foi questionada, mas até o fechamento desta reportagem não informou uma posição, mas tem afirmado que não faltam doses da AstraZeneca/Oxford para a dose de reforço. Já a SMS, lembra que o próprio diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas já disse não ter problemas em atrasos de 10, 15 dias ou até de um mês na aplicação da segunda dose. “Intervalo pequeno, de alguns dias não tem problema. Mas uma semana ou duas pode fazer a diferença. Eles (autoridades) não podem garantir isso. Se falam isso, é sem nenhuma evidência”, critica Cristina.


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