Boate estava regularizada antes de novos sócios, diz informante no Caso Kiss

Boate estava regularizada antes de novos sócios, diz informante no Caso Kiss

Engenheiro civil, Thiago Mutti deixou de ser testemunha no julgamento por conta de processo na Justiça

Henrique Massaro

Família de informante já foi dona da boate Kiss

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Rebaixado de testemunha a informante antes do início de seu depoimento, no quinto dia do julgamento do Caso Kiss, o engenheiro civil Thiago Mutti, que participou da reforma da boate em 2009, quando sua família era proprietária do local, alegou que o estabelecimento estava dentro da lei. "Foi aberta uma empresa, uma sociedade. Foi contratada uma engenheira pra fazer o projeto e aprovar na prefeitura. Projeto dos bombeiros, foi contratado um profissional e foi aprovado. Tava tudo dentro das normas", afirmou.  

Mutti, que foi arrolado como testemunha pela defesa do réu Mauro Hoffmann, disse ainda que esteve na Kiss com sua esposa um mês antes do incêndio. Logo no início dos trabalhos, que neste domingo começaram uma hora mais tarde do que o de costume, às 10h, o Ministério Público pediu que Mutti depusesse como informante, sem o compromisso de dizer a verdade. O motivo é que, segundo o órgão, o engenheiro responde por falsidade ideológica em um dos processos da Kiss.

A acusação é de que ele teria colocado laranjas como sócios da boate e, segundo o MP, era o real proprietário do local antes da venda. O juiz Orlando Faccini Neto deferiu o pedido. 

Apesar disso, o depoimento ocupou todo o período da manhã e avançou pela tarde. Mutti relatou que, em 2009, incentivou que sua irmã e seu pai inaugurassem a boate. Havia, no entanto, um atraso na emissão do alvará por parte da prefeitura. Contou que o negócio fracassou e o sócio, Alexandre Costa, não demonstrou interesse em comprar a parte da família. 

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Em dezembro de 2009, um dos réus, Elissandro Spohr, o Kiko, ofereceu um veículo Volkswagen New Beetle avaliado em cerca de R$ 40 mil e mais R$ 10 mil para adquirir a parte que estava no nome da irmã de Mutti. O negócio só seria fechado quando o alvará fosse emitido, mas, antes mesmo de isso ocorrer, Kiko (Elissandro) já teria começado a trabalhar no local.
 
O depoente contou que, após a aquisição do estabelecimento, em meados de abril de 2010 – quando o documento definitivo da prefeitura ficou pronto –, Kiko ainda entrou em contato algumas vezes para tratar de questões relacionadas à manutenção do local, como problemas na rede de esgoto e no sistema de ar, além do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) sobre o isolamento acústico do espaço. “Muitas coisas eu não sabia e dizia que ele tinha que falar com a arquiteta Cristina”, disse.

Reformas

A arquiteta em questão, segundo Mutti, era a responsável pela parte de projetos. O engenheiro também contou que voltou à Kiss em 27 de dezembro de 2012, com a esposa e amigos, e reparou nas melhorias feitas pela nova adminstração. “Achei a boate muito bonita”, afirmou. Mutti afirmou não ter visto espuma na Kiss, mas ter observado a presença de extintores de incêndio. Ele ainda comentou não ter presenciado shows pirotécnicos na casa. 

No fim da manhã, os ânimos chegaram a ficar acirrados no tribunal. Mutti foi indagado por Mário Cipriani, um dos advogados de Mauro Hoffmann, sobre se ele tinha conhecimento da presença de alvarás em prédios de órgãos públicos, como o próprio Ministério Público. As partes se exaltaram e o juiz chegou a perguntar se havia pertinência no questionamento. 

Durante os questionamentos do advogado Jader Marques, que representa Elissandro Spohr, Tiago Mutti contou que ele e sua família se sentiram constrangidos quando prestaram esclarecimentos na Polícia Civil após a tragédia. “Fomos tratados como bandidos. Não sei qual era a linha que estava a investigação, mas nos sentimos muito mal. Fomos lá para esclarecer, teve uma tarde que fiquei lá mais de quatro horas e saí de lá indiciado”, disse. Ele também negou a acusação de ter colocado sua irmã como laranja na Kiss.

Surpresa

Ao saber do incêndio por meio de um telefonema de um amigo, o engenheiro relata ter ficado surpreso. “Todo mundo abre um negócio achando que vai dar certo. Nunca me passou pela cabeça, estava lá 30 dias antes. Achava que era seguro”, afirma ao juiz. Em visitas depois de não ter mais relação com a boate, Mutti disse não ter visto espuma na Kiss, mas ter observado a presença de extintores de incêndio. De acordo com o informante, ele não avistou a presença de shows pirotécnicos na casa. 

Segundo Mutti, com novas reformas na casa depois da família não estar mais associada à casa, a distância entre o chão e o teto do estabelecimento ficou menor. "Em 2009, tinha seis metros. Na época do incêndio, não sei qual é a medida, mas com certeza o piso foi elevado e o teto foi rebaixado", destacou.


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