Brasileiros isolados no Chile e na Argentina começam a retornar para o Brasil

Brasileiros isolados no Chile e na Argentina começam a retornar para o Brasil

Três veículos tiveram autorização para cruzar a fronteira fechada por conta do coronavírus

Por
Henrique Massaro

Três veículos devem retornar do extremo sul do continente na madrugada de quarta-feira


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A situação de viajantes brasileiros isolados em condições extremas do sul do Chile e da Argentina por conta do fechamento de fronteiras na América do Sul durante a pandemia de coronavírus aos poucos começa a mudar para melhor. Com uma autorização especial obtida junto as autoridades, um comboio formado por três veículos cruzará a primeira divisa de retorno para casa na madrugada desta quarta-feira. A estimativa é de que ainda há pessoas em pelo menos 16 automóveis saídos do Brasil para rodar o continente e que, como mostrado pelo Correio do Povo no fim de abril, acabaram retidas no meio do caminho devido às medidas de restrição.

O retorno de brasileiros presos no Chile como um todo é complexo em função do fechamento das fronteiras de entrada na Argentina, rota terrestre para o Brasil. A restrição vale, inclusive, para os próprios argentinos no exterior e que tentam regressar nesse momento. Apesar de não haver impossibilidade de saída do território, viajantes que estão em Ushuaia, no extremo sul do país, também se encontram retidos pois, após sair da Terra do Fogo, é necessário atravessar parte do Chile para somente então retornar para o lado argentino e seguir para o Brasil.

Apesar das dificuldades, um pequeno grupo no sul dos dois países conseguiu autorização para cruzar a fronteira do Paso Integración Austral, próximo as cidades de Punta Arenas, no Chile, e Río Gallegos, na Argentina. O comboio deve atravessar para o lado argentino às 4h da manhã desta quinta e seguir em viagem de oito a dez dias até entrar no Brasil por Uruguaiana. “Não poderemos entrar nas cidades, teremos que nos manter pela estrada, parar só para abastecer e comer”, adiantou o gaúcho Gustavo Blume, de Ivoti, que estava isolado há quase dois meses em seu Ford Ka 1.0 na beira de duas lagoas de degelo da Patagônia chilena.

Gustavo Blume ficou quase dois meses isolado na Patagônia. Foto: Gustavo Blume/Divulgação/CP

Assim como ele, o casal Alessandra Wille e Rogerio Kumagai também conseguiu permissão para retornar para casa, em Missal, no interior do Paraná. Eles haviam tentado sair de Ushuaia no dia 17 de março, quando foram informados do fechamento de fronteiras e, desde então, estavam isolados em um apartamento, aguardando a possibilidade de volta.

Um outro casal de brasileiros retido em Ushuaia também havia conseguido permissão para retornar, mas optou por continuar no local. As condições impostas para a viagem não pareceram seguras para o estado de saúde de Ricardo Amaral, que está com a esposa Maria do Céu. No dia 1º de abril, segundo ele, o estresse de tentar articular o retorno lhe levou a um infarto, seguido de uma insuficiência renal.

Amaral precisou ficar sete dias hospitalizado e perdeu um primeiro comboio que retornou de Ushuaia. O bom atendimento recebido no hospital e a assistência da embaixada durante o ocorrido, na sua visão, tornam a permanêcia na Argentina mais segura do que a estrada. “Não tem garantia que se possa usar banheiro, comprar comiga ou bebida nos postos, a única garantia é colocar gasolina”, comentou.


O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) informou que o retorno de veículos retidos nos  territórios austrais chileno e argentino se deu por uma autorização especial obtida por atuação conjunta das representações do Brasil nos dois países. Como, pelas condições geográficas, quem está no extremo sul da Argentina precisa ingressar no Chile para retornar ao Brasil, foi possível incluir os viajantes em seus automóveis isolados na região da fronteira chilena no mesmo comboio. “A autorização só foi possível uma vez que os veículos já estavam retidos naquela região fronteiriça. As restrições de movimentação interna no Chile e de proibição de ingresso no território argentino continuam vigentes”, informou o Itamaraty.