Crise na aviação gerada pela Covid-19 atinge de empresas a trabalhadores no RS

Crise na aviação gerada pela Covid-19 atinge de empresas a trabalhadores no RS

A pandemia do novo coronavírus fez com que as viagens aéreas diminuíssem drasticamente no mundo todo, provocando uma crise que atinge não poupa ninguém no setor

Gabriel Guedes

O Porto Alegre Airport vazio em plena tarde em um dia de semana mostra a dimensão da crise que o setor está enfrentando

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Um dos primeiros setores econômicos a sentir os efeitos da pandemia do novo coronavírus, a aviação comercial enfrenta a mais terrível crise desde o atentado do 11 de Setembro. A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) informa que as empresas associadas já registraram, na semana de 15 a 21 de março, queda de 75% na demanda por voos domésticos e redução de 95% no mercado internacional, em relação a igual período de 2019, por causa das restrições de viagens aéreas em todo o mundo. A MAP, uma das companhias aéreas nacionais, que atua na região Norte do Brasil, suspendeu toda sua operação, entrando numa espécie de “hibernação”. Mesmo as companhias mais desenvolvidas, como a Azul, GOL e Latam, que registraram lucro operacional em 2019, estão enfrentando enormes dificuldades. Emparedadas pela baixa demanda, causada pelo fechamento das fronteiras e a estagnação das vendas, estas companhias obtiveram do governo federal o adiamento de suas obrigações tributárias e mais algumas benesses. Em contrapartida, as empresas se comprometeram a fazer um drástico corte de custos. Reduziram salários e a duração das jornadas, além de propor férias e licenças não-remuneradas a seus colaboradores. Medidas amargas, que atingem em cheio também os trabalhadores gaúchos do setor, que estão vivendo dias de muita incerteza.

O presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), comandante Ondino Dutra lembra que logo que surgiu o novo coronavírus, “a primeira preocupação foi com a saúde dos tripulantes e daqueles que trabalham em contato com o público, e com viajantes estrangeiros”. “Agora estão se desdobrando as consequências econômicas e os riscos para a manutenção dos empregos. Os passageiros sumiram dos aviões”, aponta. Medidas de socorro às aéreas são bem-vindas, segundo Dutra, mas deveriam estar acompanhadas de iniciativas adicionais, o que não ocorreu ainda. “Agora estamos defendendo que todos os tripulantes possam acessar o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço). Os ativos e os tripulantes que saíram de licença não-remunerada”, requer Dutra. Para assegurar o benefício, o deputado federal e líder da Frente Parlamentar dos Aeronautas, Jerônimo Goergen (PP-RS) apresentou duas emendas às medidas provisórias 925 e 927 da equipe econômica do governo federal para permitir o saque do FGTS à categoria. “Temos a medida que protege as empresas, mas precisamos saber que os trabalhadores também serão punidos e para que eles possam manter o sustento deles, temos que ter uma medida que vá de encontro ao que querem”, justifica Goergen. As matérias ainda precisam ser apreciadas no plenário da Câmara dos Deputados. “Estamos defendendo as empresas que antecipem as férias e a construção conjunta com a categoria, de jornadas parciais de trabalho. Acredito que com tudo isso, teremos como ultrapassar essa crise sem impacto”, prevê.

De acordo com o Sindicato Nacional dos Aeronautas, o Brasil tem 17 mil comissários de bordo e pilotos. “Todos estão sendo impactados. Naturalmente”, ratifica Dutra. E esta é apenas uma das partes afetadas pela crise na aviação. No dia 17, em uma empresa que auxilia a operação das aéreas, no Porto Alegre Airport, cerca de 70 pessoas foram dispensadas, segundo o relato de uma das trabalhadoras que teria sido demitida. A empresa, segundo a ex-funcionária, teria ao todo 200 funcionários. “Tinham contratado 25 pessoas porque tinham voos novos, mas graças à pandemia, também dispensaram”, revela. Procurada, a Fraport Brasil informou, em nota, que “irá adaptar a força de trabalho e principalmente os contratos de terceiros, uma vez que estão diretamente relacionados ao número de passageiros e movimentos”. Além disso, a concessionária do aeroporto na Capital confirmou que “todas as despesas que não forem urgentes ou necessárias serão adiadas”.

A PONTA DO ICEBERG

Na ponta do atendimento ao clientes, os aeronautas acabam sendo a parte mais visível deste iceberg. Uma comissária de bordo da GOL, que prefere não se identificar, conta que o mês de março foi cheio de especulações sobre os rumos da companhia. Segundo esta colaboradora gaúcha, a companhia ofereceu para todos funcionários a licença não remunerada. A GOL também efetuou cortes nas remunerações, no caso do CEO, Paulo Kakinoff, e de todos os vice-presidentes em 40% nos meses de abril, maio e junho. Já os colaboradores internos tiveram redução de 35% na carga-horária e no salário. Para os tripulantes, a remuneração fixa começa a ser reduzida em 30% no mês de abril, terminando em junho com 50%, conforme novo acordo coletivo de trabalho, feito em caráter emergencial e aprovado por mais de 95% dos associados que atuam na empresa. Alguns treinamentos também foram suspensos temporariamente. “Por enquanto nada de demissão. Mas os aeroportos estão muito vazios”, teme. A advogada Ione Caroline Silva de Jesus, 23 anos, no dia 14 de março, veio de Aracaju, capital de Sergipe, para ir a São Gabriel, na região central, participar da formatura do namorado, Ezequiel Mariano, 24, que acabou sendo cancelada devido à Covid-19. O que ela viu no trajeto foi desolador. “O avião tinha umas 50 pessoas de Aracaju até Brasília. De lá para Porto Alegre tinha menos gente ainda”, constata.

Já a Latam, empresa que surgiu com a fusão entre a chilena LAN e a TAM, em 2016, vai cortar o salário de seus 43 mil funcionários em 50% pelos mesmos três meses, conforme acordo aprovado no dia 24 e que recebeu aval de 97% dos associados. Assim como o CEO da GOL, o presidente-executivo, Jerome Cardier abdicou de seu salário temporariamente. A Azul também prevê implementar medidas semelhantes a seus funcionários, como a redução de 15% sobre o salário base e aumento no número de folgas. O acordo está em período de análise pelos tripulantes da companhia. Além disso, a companhia pretende enxugar a malha internacional em 80%. Um piloto, também gaúcho, que atua na última empresa mencionada anteriormente, também revela drama semelhante ao relato pela comissária da GOL. “Tá todo meio assustado com o que está acontecendo. Há vários e-mails da empresa sobre a situação”, conta. O funcionário da Azul acrescenta que a companhia também ofereceu licença não-remunerada, com prazos que vão de 1 a 6 meses de duração. Com a base de trabalho situada em São Paulo, até a redução da oferta de voos vêm dificultando sua ida até a capital paulista para trabalhar. “Um destes estava lotado. Estão agrupando vários voos para evitar que aeronaves operem vazias”, explica. Até uma turma que estava fazendo processo seletivo foi suspensa. O colaborador ainda disse que, se não conseguisse a licença não-remunerada de um ou dois meses, teria que optar por ficar em um apartamento dividido com outros aeronautas, por “medo de não conseguir chegar para voar”, o que poderia lhe gerar uma penalização por não comparecimento.

“Já atravessamos crises epidêmicas em outras ocasiões, como o H1N1. Já estamos preparados para enfrentar estas dificuldades. Mas esta é uma crise diferente. As crises anteriores eram macroeconômicas ou crise do setor. É uma crise aguda, que pode matar”, descreve o comandante Dutra. O sindicalista informa que nos outros países, a crise na aviação é até mais grave que aqui. “Aqui ainda não chegou na magnitude de outros lugares. Vai depender das empresas a se adaptar a esta nova realidade”, aposta. Se adaptar, por aqui, significa a redução drástica do número de voos. “Vai piorar” alerta Dutra. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) colocou em operação no dia 28 de março até o fim deste mês, a malha aérea essencial para que o país possa continuar conectado, durante a pandemia do novo coronavírus. Serão 1.241 voos semanais para as capitais dos 26 estados mais o Distrito Federal, além de outras 19 cidades. Essa operação é 91,6% inferior à malha aérea normalmente operada pelas empresas nacionais no mesmo período de 2019, quando havia 14.781 frequências por semana. Em relação à quantidade de localidades atendidas, a queda é de 56%: de 106 para 46. “As medidas (do governo) são positivas e estão na direção correta, neste momento em que enfrentamos a maior crise da história da aviação comercial. Entendemos que foi anunciado o que é possível fazer neste cenário atual, onde as empresas aéreas precisam de alívio de caixa. Entramos numa nova fase, de avaliação permanente a partir da efetivação dessas iniciativas para podermos mensurar resultados e construir os próximos passos”, avalia o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz.

 

A crise mundial no setor

A Covid-19 forçou a suspensão maciça de voos no mundo todo, causando crise gigantesca no setor aéreo. Nos Estados Unidos, a American Airlines receberá auxílio público de 12 bilhões de dólares como parte do plano de assistência financeira do governo para companhias, aponta um documento interno consultado pela agência AFP na terça-feira.

O governo estadunidense planejou um desembolso específico de 50 bilhões de dólares para esta indústria, dos mais de 2 trilhões de dólares do plano de resgate econômico para o país. Funcionários do governo de Donald Trump indicaram que estudam a possibilidade de o Estado tomar posse de ações das companhias aéreas como parte do plano de resgate.

As condições incluem a proibição da companhia aérea de demitir seus funcionários ou de reduzir o salário por um período de seis meses.

A ajuda não impede, porém, que o grupo adote outras medidas. A American Airlines, cuja maioria dos voos foi cancelada há várias semanas, propõe um plano de partida voluntária para seus funcionários e abre a possibilidade de eles se aposentarem mais cedo. No Reino Unido, a EasyJet anunciou que vai paralisar por tempo indeterminado toda sua frota devido à pandemia. “Nos últimos dias, a EasyJet participou do repatriamento de clientes com 650 voos para transportar mais de 45 mil clientes”, disse a empresa em comunicado. “Continuaremos a trabalhar com as autoridades para organizar voos de resgate adicionais de acordo com os pedidos”, acrescentou. “No momento, não há certeza sobre a data em que os voos comerciais poderão ser retomados.” A empresa britânica, que tem 13 mil trabalhadores em oito países europeus, está mantendo negociações com sindicatos para seus trabalhadores de fora do Reino Unido.

De suspender todos os voos a reduzir o salário de seus funcionários, as companhias aéreas latino-americanas tomam medidas extremas e clamam por ajuda estatal. “A indústria das companhias aéreas enfrenta sua crise mais grave. Em algumas semanas, nosso pior cenário anterior parece melhor que nossas estimativas mais recentes”, afirmou na terça-feira Alexandre de Juniac, diretor da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA).

Na América Latina, o panorama sombrio fez com que várias companhias aéreas da região lançassem um apelo urgente aos governos por ajuda financeira que lhes garanta liquidez. Se as restrições de viagem durarem até três meses e, em seguida, for gerada uma lenta recuperação da economia mundial, a demanda por passagens cairá 41% ao ano, o que causará perdas de cerca de 15 bilhões de dólares na América Latina, de acordo com um relatório da IATA. Em nível mundial, a redução chegaria a 252 bilhões de dólares.

As restrições governamentais de mobilidade e a incerteza sobre quanto tempo durará a pandemia são os principais problemas para o futuro, especialmente para a chileno-brasileira Latam e a colombiana Avianca, as duas maiores companhias da região, que já lidavam com problemas econômicos.

 

Escolas de aviação não perdem o otimismo

Justamente o efeito colateral da crise provocada pelo novo coronavírus, o desemprego é como se fosse um veneno para o setor de formação em aviação civil. As escolas existentes em Porto Alegre e região metropolitana costumavam aproveitar o apetite das companhias por mão de obra para ofertar seus cursos. Os planos para 2020 foram postos de molho pelo piloto Gustavo Cunha, diretor da escola PAlegre. “Vamos iniciar turmas novas no final de abril e era para ser agora. Isso foi o primeiro impasse pela crise”, afirma. No entanto, Cunha acredita que o interesse pelo curso de comissário não diminua. “Temos turmas reduzidas, de 10 a 20 pessoas, e acreditamos que vá continuar assim”, pontua. Entretanto, a formação de piloto vai parar. “Para o comissário, é relativamente barato - entre 3 e 4 mil reais. Já para piloto, tinha que começar com quatro alunos. Mas depois desta crise, só tivemos duas procuras e não vai ter curso por agora”, explica. Conforme o diretor, o negócio já vinha trabalhando com valores promocionais de forma quase que permanente, incluindo ainda o uniforme e material didático. Para enfrentar as próximas semanas, agora a aposta é no Ensino a Distância (EAD) para poder ofertar alguns cursos ou partes deles pela internet. “Vamos focar no EAD, para poder dar novas opções a quem está no interior e até mesmo em outros estados. Estamos aguardando a autorização da Anac, que é bem lenta neste quesito, de autorizar cursos”, critica.

De acordo com Cunha, a situação de quem atua nas companhias é bastante complicada. “A gente têm dois instrutores de comissários, que são de uma companhia, que não vou citar nomes. As companhias estão segurando o máximo para não ter demissões. Eu mesmo estava numa seleção e foi suspensa”, informa. Cunha conta que é instrutor de voo há 15 anos e a escola foi aberta há dois anos. “Eu boto um ano, após voltar da normalidade, para tudo (setor aéreo) começar a voltar como estava antes”, prevê. O jovem de Novo Hamburgo, Emmanuel Böes Lopes, 18, concluiu o curso de comissário em 26 de janeiro e também já foi aprovado no exame obrigatório da Anac, realizado no dia 20 de março. “Fiz o curso de comissário em uma época que estavam muito quentes as companhias aéreas, mas agora com essa crise devido a pandemia não estou em nenhuma ainda”, conta. A chegada repentina do coronavírus acabou freando as expectativas de Emmanuel, que nem tempo teve de passar por uma seleção em uma das companhias. “Pretendo entrar no mercado da aviação o quanto antes”, sublinha. O jovem, que mora com os pais e conta com o sustento deles, vai aproveitar a crise para reforçar o conhecimento. “O foco agora é estudar as empresas aéreas e suas histórias, inglês e esperar o momento das contratações”, planeja.

 

Remédio amargo, recuperação mais rápida

Esta caminhada, segundo o coordenador do curso de economia da PUCRS, Gustavo de Moraes, será em meio a uma paisagem hostil. “Um cenário que não será de terra arrasada, mas serão poucas as companhias que vão continuar depois desta pandemia”, prevê. O economista lembra que as empresas brasileiras têm no histórico, uma dificuldade de pagamento de combustível, de peças importadas e enfrentou um cenário anterior de dificuldade. Mas com o coronavírus, todo setor de serviços, segundo Moraes, estará mal. “A Organização Internacional do Trabalho fala em 25 milhões de desempregado. Mas vai ser maior, mais intenso, em especial pelo setor de serviços”, observa. Em alguns países, aviões têm decolado vazios, para apenas garantir os slots, que são os direitos de pousar ou decolar em aeroportos congestionados. “Quando uma empresa, como a British Airways anuncia que vai ter demissões, é por que o cenário vai ser devastador”, analisa.

O futuro pós-pandemia ainda é um mistério. No melhor exercício de futurologia, com base em seu conhecimento, Moraes acredita que a perspectiva do setor aéreo serão as fusões e esta é apenas uma das sequelas que serão deixadas pelo novo coronavírus. “Vai ser uma situação completamente nova, dependendo do aprofundamento da quarentena, da recomendação de recolhimento, vamos ter uma série de mudanças na economia, como a massiva substituição de lojas físicas pelas online, de delivery”, ilustra. “Se há uma quebra de confiança, a empresa aérea volta. Neste caso, a crise econômica foi produzida por um agente externo, a doença. Em decorrência da falta de confiança no futuro, as pessoas cancelaram suas viagens. Na medida em que se restabeleça a confiança, a economia se recupera. Então, quanto mais aderirmos às medidas no âmbito sanitário, mais forte será a queda, mas também mais rápido será a recuperação. Se for o oposto, compromete-se a economia a médio-longo prazo”, salienta.


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