Defesa do empresário Elissandro Spohr diz que jamais tentou impedir júri da Boate Kiss

Defesa do empresário Elissandro Spohr diz que jamais tentou impedir júri da Boate Kiss

Julgamento sobre a tragédia terá início no dia 1º de dezembro em Porto Alegre

Cláudio Isaías

Advogado concedeu uma entrevista coletiva nesta sexta-feira

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"O júri da Boate Kiss será realizado no dia 1º de dezembro em Porto Alegre. Não existe nenhuma atitude minha dentro dos autos que represente qualquer tentativa minha de não realização do julgamento". A declaração foi feita pelo advogado Jader Marques, responsável pela defesa do empresário Elissandro Spohr, o Kiko, um dos sócios da Boate Kiss, durante entrevista coletiva realizada em Porto Alegre. 

Durante aproximadamente uma hora, o advogado ressaltou que nunca disse que o júri não seria realizado. "Entrei na defesa do meu cliente no dia 28 de janeiro de 2013. Existe uma certa confusão na atividade do profissional do Direito e em nenhum momento entrei com recursos ou pedidos para que o júri não se realizasse. Jamais fiz isso", ressaltou. 

Conforme Marques, tanto ele quanto o empresário Elissandro Spohr jamais defenderam o adiamento do júri da Boate Kiss. “Elissandro Spohr está lá e é o único, até agora, que não afasta a sua parcela de responsabilidade. E por ela será julgado. Ele devia ser indiciado, devia ser processado e devia ser julgado. E vai ser. Não há nenhum movimento para impedir que isso aconteça”, acrescentou.

O advogado pediu ainda que a Justiça invalide simulador criado pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul. Segundo Marques, a maquete 3D não é fiel às medidas da casa noturna de Santa Maria. A defesa de Elissandro Spohr, ex-sócio da Boate Kiss que responde pela morte de 242 pessoas no incêndio de 27 de janeiro de 2013, encaminhou nesta sexta-feira o pedido de desconsideração da maquete virtual apresentada pelo Ministério Público. 

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O software, desenvolvido por profissionais vinculados à Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), é uma representação virtual da casa noturna onde aconteceu a maior tragédia da história gaúcha. Segundo Marques, existe uma série de problemas na construção da maquete 3D. As medidas usadas pelos pesquisadores, por exemplo, seriam diferentes das relatadas pelo Instituto-Geral de Perícias (IGP) no laudo da boate. 

O advogado informou que vai levar um simulador diferente, feito a pedido do empresário, realizado por uma empresa privada. “Não está sendo possível abrir o software para ver a maquete 3D juntada pelo Ministério Público. Meu problema é com o conteúdo desse software. Ele tem impropriedades técnicas, não está de acordo com o laudo. Se ele for mantido como ferramenta do júri, precisa ter a observação dos seus erros para não induzir aos jurados a pensarem coisas que a planta do IGP não tem”, acrescentou.

Documentário

O advogado que representa Elissandro Spohr falou ainda sobre o documentário produzido pela equipe de Spohr.  O trabalho é criticado por familiares da vítima e dos sobreviventes. Conforme Marques, o documentário é o retrato de uma outra realidade, que mostra um homem preso na noite da tragédia do dia 27 de janeiro de 2013. 

Para Marques, o empresário tem responsabilidade na tragédia, mas não é o único, ou o maior culpado, pelas vidas perdidas na Boate Kiss. “Não há nada a ser encoberto. Nos últimos nove anos, nós ouvimos, vemos e nos deparamos com o depoimento das pessoas que sofrem. E esse sofrimento é legítimo. O Elissandro Spohr, quase todos os dias, entra em contato comigo e expõe esta angústia com as coisas noticiadas. O documentário é o registro de um sofrimento diário, que nunca veio a público. O entendimento até aqui é de que todo sofrimento é legitimado, menos o dele.”, afirma.

A linha de argumentação que será levada pela defesa do réu ao julgamento no dia 1º de dezembro, é de que mais pessoas deviam estar no banco dos réus. Segundo Marques, deveriam estar no julgamento as pessoas que autorizaram o funcionamento da boate quando ela foi criada, em 2009, antes de Spohr assumir a administração do local. O simulador desenvolvido a pedido de Jader tem dois cenários: o primeiro mostrando a Kiss em 2013, e o segundo em 2009.

Tragédia

Em 27 de janeiro de 2013 a Boate Kiss sediou a festa universitária denominada “Agromerados”. No palco, se apresentava a banda Gurizada Fandangueira, quando um dos integrantes disparou um artefato pirotécnico, atingindo parte do teto do prédio, que pegou fogo. O incêndio, que se alastrou rapidamente, causou a morte de 242 pessoas e deixou mais de 600 feridos. As responsabilidades são apuradas em seis processos judiciais. O principal tramitou na 1ª Vara Criminal da Comarca, foi dividido e originou outros dois (falso testemunho e fraude processual).

No processo criminal, os empresários e sócios da Boate Kiss, Elissandro Callegaro Spohr, o Kiko, e Mauro Londero Hoffmann, o vocalista da Banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e o produtor musical Luciano Bonilha Leão, respondem por homicídio simples (242 vezes consumado, pelo número de mortos; e 636 vezes tentado, número de feridos). Eles serão julgados por um Conselho de Sentença, no Tribunal do Júri, no dia 1º de dezembro de 2021, no plenário das Varas do Júri da Comarca de Porto Alegre, junto ao Foro Criminal.

Foi concedido o desaforamento (transferência de julgamento para outra comarca) a três réus - Kiko, Hoffmann e Santos - para serem julgados em uma Vara do Júri da Comarca de Porto Alegre. Bonilha foi o único que não manifestou interesse na troca, mas, através de um pedido de desaforamento do Ministério Público, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ/RS) determinou que ele se juntasse aos outros, em um julgamento único, na Capital.


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