Denúncias de "fura-filas" da vacina contra Covid-19 já são registradas em 16 estados do Brasil

Denúncias de "fura-filas" da vacina contra Covid-19 já são registradas em 16 estados do Brasil

Entre registros e investigações em andamento, secretários, filhos de autoridades e prefeitos fora de grupos prioritários se vacinaram

R7

No Rio Grande do Sul, dois servidores foram afastados por tomarem a primeira dose da vacina

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Ao menos 16 estados e o Distrito Federal já registraram – em somente uma semana – casos ou denúncias de pessoas que furaram a fila da vacinação contra a Covid-19.

Se acumulam os casos de prefeitos, secretários ou filhos de autoridades não pertencentes a grupos prioritários que se imunizaram desde o registro da primeira pessoa vacinada do Brasil, em 17 de janeiro, em São Paulo. Mais de 20 municípios já tiveram casos de pessoas que furaram a fila da imunização.

A reportagem do R7 apurou e compilou registros de pessoas que passaram a frente dos profissionais de saúde da linha de frente contra o novo coronavírus nos planos de vacinação.

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São Paulo

Em São Paulo, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo foi denunciado sobre a aplicação da vacina Coronavac em profissionais que não atuam na linha de frente contra a Covid-19. O hospital estaria beneficiando, segundo os relatos, alunos da pós-graduação, mestrado e doutorado com doses de vacina, embora eles não estivessem em contato direto no combate ao vírus. Eles estariam recebendo o imunizante apenas pelo vínculo com a unidade hospitalar.

O Ministério Público de São Paulo enviou ofício à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, na sexta-feira, para solicitar esclarecimentos a respeito das denúncias no hospital.

Amazonas

Em Manaus, duas médicas recém-formadas e nomeadas para uma UBS da capital provocaram críticas após serem vacinadas contra a Covid-19 e postarem as fotos nas redes sociais na última terça-feira. O incômodo do caso se deu sobre os critérios para a vacinação de profissionais de saúde que são expostos a maior risco ao novo coronavírus, já que não estavam na linha de frente do combate ao vírus e haviam acabado de ser nomeadas para trabalhar na unidade. O filho de um deputado estadual também foi vacinado.

Após as notícias ganharem repercussão, a vacinação no município de Manaus foi suspensa para reformulação e o prefeito David Almeida (Avante) chegou a proibir profissionais de saúde de postarem fotos da imunização nas redes sociais. O caso fez ainda com que o Ministério Público amazonense iniciasse uma investigação sobre possíveis casos de aplicação da vacina da Covid-19 em pessoas fora dos grupos prioritários de vacinação, que estariam "furando a fila" da imunização. Na última sexta, uma ação de MPs e Defensorias locais pediu a apresentação diária da lista de vacinados. Há pouco mais de uma semana, a capital amazonense viveu colapso no sistema de saúde devido à falta de oxigênio nos hospitais.

Pernambuco

No município de Jupi, no Pernambuco, a secretária de saúde e o fotógrafo oficial da prefeitura também são investigados por furar a fila da imunização. O fotógrafo fez publicações nas redes sociais nas quais teria recebido a dose da vacina, embora não pertença a grupos de risco. Junto a ele aparece Maria Nadir Ferro, responsável pela pasta da saúde.

O Ministério Público investiga o caso, mas após a repercussão o fotógrafo se defendeu afirmando que aquilo se tratava de uma brincadeira. A cidade administrada pelo prefeito Marcos Patriota (DEM) havia recebido, até então, apenas 136 doses da vacina.

Sergipe

Em Itabi (SE), a 134 quilômetros de Aracaju, o prefeito Júnior de Amynthas (DEM) quebrou o protocolo e se vacinou, embora não faça parte de qualquer grupo prioritário. A notícia revoltou moradores da cidade, que havia recebido até então 31 doses do imunizante. O Ministério Público Federal notificou o prefeito e cobrou explicações sobre o caso. Júnior poderá responder pelo crime de prevaricação, com pena prevista de três meses a um ano.

Rio Grande do Sul

Em São Leopoldo, no interior gaúcho, a prefeitura afastou duas pessoas – ambos servidores públicos – que tomaram a vacina sem pertencer a qualquer grupo prioritário. “Ambos tinham plena consciência de que não poderiam ser atendidos neste momento e, portanto, serão imediatamente afastados e suas condutas investigadas. Igualmente serão investigadas as razões que levaram seus nomes a constarem em tais listas”, escreveu Marcel Frison, secretário municipal de saúde.

Rio Grande do Norte

O engenheiro e chefe do setor de informática da secretária municipal de trabalho de Natal (RN) também foi vacinado, segundo apurou a Record TV, e chegou inclusive a publicar uma foto da imunização nas redes sociais. A prefeitura da capital se defende dizendo que apenas profissionais da saúde da cidade irão se imunizar nesta primeira fase.

Goiás

O secretário municipal de saúde de Pires do Rio (GO), Assis Silva Filho, havia sido afastado do cargo por 60 dias, em medida da Justiça local proposta pelo Ministério Público, por suspeita de ter determinado a quebra da ordem da vacinação da Covid-19 para beneficiar a esposa, que não se encaixava no grupo prioritário neste momento.

Na cidade, estariam recebendo a vacina apenas profissionais da saúde, idosos residentes em instituições de longa permanência, pessoas a partir de 18 anos com deficiência, moradores em residências inclusivas e a população indígena. Neste domingo, após o afastamento temporário, ele pediu demissão e a prefeitura acatou o pedido.

Rondônia

O Ministério Público do Estado de Rondônia instaurou procedimentos para acompanhar a execução dos processos de vacinação contra a covid-19 nos municípios de Itapuã do Oeste, Candeias do Jamari e a capital Porto Velho para apurar irregularidades nas aplicações. 

A promotora de Justiça Flávia Barbosa Shimizu Mazzini considerou que a quantidade de doses recebidas na primeira remessa pelos municípios que integram a Comarca de Porto Velho não será suficiente para o grupo alvo da primeira etapa, sendo necessária a fiscalização dos planos municipais, bem como o cumprimento das normativas. O MP local deu prazo de cinco dias para que as secretarias de saúde municipais informem a estratégia para vacinação dos grupos prioritários, a lista dos vacinados e as condições de armazenamento e transporte das doses.

Amapá

No Amapá, o secretário de Saúde de Serra do Navio, Randolph Antônio Pinheiro da Silva tomou a vacina contra a Covid-19 e o Ministério Público do Estado instaurou investigação na última quinta-feira para apurar se ele se beneficiou do cargo. Meses atrás, Pinheiro da Silva havia ironizado a Coronavac e a obrigatoriedade de imunização da vacina.

Distrito Federal

Após denúncias sobre desvios dos critérios de aplicação da vacina, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios requereu, na última quarta-feira, à secretaria de saúde do DF o envio, em até dois dias, informações sobre pessoas que não integram os grupos prioritários e teriam recebido doses da Coronavac.

“Após intensas tratativas e um esforço muito grande, o DF recebeu pouco mais de 106 mil doses que são destinadas, exclusivamente, num primeiro momento, para aqueles que atendem direto nos hospitais pacientes infectados com o coronavírus. Chegou ao MPDFT uma denúncia de que outras pessoas estariam sendo vacinadas também. Nós requisitamos que a SES nos informe, imediatamente, quais são essas pessoas”, escreveu o coordenador da força-tarefa do MPDFT, procurador de Justiça José Eduardo Sabo.

Minas Gerais

O prefeito de Montes Claros, Humberto Souto, de 86 anos, já se imunizou contra a Covid-19. Embora seja idoso, ele não faz parte do primeiro grupo de prioridade para a vacina. Souto se justificou dizendo que queria incentivar a população a se vacinar.

Paraíba

Em Pombal, na Paraíba, o prefeito Abimael Lacerda foi o primeiro a tomar a vacina. Ele é médico e tem 66 anos, mas não está entre os profissionais que atuam na linha de frente de combate ao vírus.

Bahia

Apenas 100 doses da vacina contra a Covid-19 foram enviadas a Candiba, na Bahia, e o prefeito Reginaldo Prado já foi um dos primeiros vacinados no município. O motivo, segundo ele, foi que a população não havia aparecido durante a vacinação, e sua intenção era incentivar os munícipes a se imunizarem.

Pará

Em Castanhal, no Pará, Laureno Lemos, diretor administrativo do hospital da cidade, foi demitido pela prefeitura após postar em uma rede social uma foto recebendo a primeira dose do imunizante contra a Covid-19. Anteriormente, Lemos havia se posicionado de forma contrária à vacina nas redes sociais.

Em sua página no Facebook, ele se defendeu: “tantos escândalos vindo à tona, de pessoas que nem é (sic) da área da saúde tomando a vacina contra o (sic) Covid 19. E o "fura fila" sou eu, que estava como diretor administrativo de um hospital referência em tratamento para o Covid, que só tomei porque meu nome constava em uma lista elaborada pela minha chefia”. Também em vídeo publicado na rede, na manhã desta segunda-feira, ele foi junto de seu advogado ao MP-PA para solicitar a lista de lista de vacinados no Hospital Municipal de Castanhal, argumentando como sua defesa que estava na lista da unidade. 

Rio de Janeiro

A Polícia Civil abriu um inquérito para investigar denúncias sobre a tentativa de compra de vacinas e também a respeito de profissionais de saúde que estariam sendo coagidos – inclusive com violência – a vacinar pessoas fora de grupos prioritários, apurou a Record TV. Servidores que facilitam a fraude podem responder por improbidade administrativa.

Piauí

No Piauí, o Ministério Público do Estado iniciou investigações para apurar denúncias de que servidores públicos de seis cidades teriam passado a frente de grupos prioritários no plano de imunização: Piracuruca, Uruçuí, Pio IX, São João da Fronteira, Guaribas e São José do Divino.

Ceará

No Estado do Ceará o Ministério Público também identificou supostas irregularidades na aplicação das vacinas contra a Covid-19, segundo informa a Agência Brasil. Na última quarta-feira, promotores das comarcas que representam os municípios de Tauá, Arneiro, Quixadá, Banabuiú, Choró e Catarina instauraram procedimentos administrativos e recomendações para que prefeitos e secretários de saúde das cidades citadas apresentem medidas adotadas nos planos locais de imunização.


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